Lista de pontos

Há 2 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Abandono em Deus.

Ao narrar estas cenas no seu Evangelho, São Mateus ressalta constantemente a fidelidade de José, que cumpre os mandatos de Deus sem vacilar, ainda que, por vezes, o sentido desses mandatos possa parecer-lhe obscuro ou se lhe oculte a relação dos mesmos com o resto dos planos divinos.

Os Padres da Igreja e os autores espirituais fazem ressaltar múltiplas vezes a firmeza da fé de São José. Referindo-se às palavras do anjo, que lhe ordena que fuja de Herodes e se refugie no Egito, comenta o Crisóstomo: «Ao ouvir isto, São José não se escandalizou nem disse: “Isto é um enigma; ainda há pouco me davas a conhecer que Ele salvaria o seu povo e agora não é sequer capaz de Se salvar a Si próprio e temos de fugir, de empreender uma viagem e fazer uma grande deslocação; isto é contrário à tua promessa”. José não discorre deste modo, porque é um varão fiel. Também não pergunta pelo tempo de regresso, apesar de o anjo o não ter determinado, posto que lhe tinha dito: “Fica lá – no Egito – até que eu te diga”. Nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê, e suporta alegremente todas as provas»

A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre rigorosa e rápida. Para compreendermos melhor esta lição do Santo Patriarca, consideremos que a sua fé é ativa e a sua docilidade não é a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque não há coisa que mais se oponha ao conformismo ou à falta de atividade e de energia interiores do que a fé cristã.
José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca fugiu a refletir sobre os acontecimentos, o que lhe permitiu alcançar do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria. Deste modo, aprendeu a pouco e pouco que os desígnios sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.

Nas diversas circunstâncias da sua vida, o patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando regressa do Egito, «tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá»: aprendeu a operar dentro do plano divino e, como confirmação de
que Deus queria efetivamente o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.

A fé de São José foi assim: plena, confiada, íntegra, expressa numa entrega eficaz à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a fé, a caridade, o amor. A sua fé funde-se com o Amor: com o amor a Deus, que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o seu afeto de esposo por Maria e com o seu afeto de pai por Jesus. Fé e amor na esperança da grande missão a que Deus, servindo-Se também dele – um carpinteiro da
Galileia –, estava a dar início no mundo: a redenção dos homens.

Tenhamos, pois, fé, sem nos deixarmos dominar pelo desalento; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para vencer os obstáculos, temos de começar a trabalhar, envolvendo-nos por completo nessa tarefa, de maneira que o próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos. Perante qualquer dificuldade, o remédio é sempre este: santidade pessoal, entrega ao Senhor.

Ser santo é viver como o nosso Pai do Céu dispôs que vivêssemos. Dir-me-eis que é difícil. Sim, o ideal é muito elevado. Mas ao mesmo tempo é fácil: está ao alcance da mão. Quando uma pessoa adoece, nem sempre se consegue encontrar o remédio necessário. No plano sobrenatural, porém, não é assim, pois temos o remédio sempre à mão: é Jesus Cristo, presente na Sagrada Eucaristia, que também nos dá a sua graça nos outros sacramentos que instituiu.

Repitamos, com a palavra e com as obras: Senhor, confio em Ti, basta-me a tua providência ordinária, a tua ajuda de cada dia. Não temos nada que pedir a Deus grandes milagres; pelo contrário, temos de Lhe suplicar que nos aumente a fé, nos ilumine a inteligência, nos fortaleça a vontade. Jesus está sempre junto de nós e comporta-Se sempre como quem é.

Desde o começo da minha pregação, preveni-vos contra um falso endeusamento. Não te perturbe conheceres-te como és: assim, de barro; não te preocupes. Porque tu e eu somos filhos de Deus – e este é o endeusamento bom –, escolhidos por vocação divina desde toda a eternidade: «Foi assim que Ele [o Pai] nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor.» Nós, que somos especialmente de Deus, seus instrumentos apesar da nossa pobre miséria pessoal, seremos eficazes se não perdermos o conhecimento da nossa fraqueza. As tentações dão-nos a dimensão da nossa própria debilidade.

Se sentis desalento ao experimentar – talvez de modo particularmente vivo – a vossa mesquinhez, abandonai-vos por completo, com docilidade, nas mãos de Deus. Conta-se que, certo dia, um mendigo interpelou Alexandre Magno, pedindo-lhe uma esmola; Alexandre deteve-se e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confuso e atordoado, exclamou: «Eu não pedia tanto!»; ao que Alexandre respondeu: «Tu pediste como quem és,
eu dou-te como quem sou».

Mesmo naqueles momentos em que temos uma consciência mais profunda das nossas limitações, podemos e devemos olhar para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, sabendo-nos participantes da vida divina. Não há nunca razões suficientes para olhar para trás30: o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, de assumir as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e ultrapassar os
nossos. Assim, todos esses desalentos – os teus, os meus, os de todos os homens – também servirão de suporte ao Reino de Cristo.

Reconheçamos as nossas fraquezas, mas confessemos o poder de Deus. A vida cristã há de estar repleta de otimismo, de alegria, da firme convicção de que o Senhor quer servir-Se de nós. Se nos sentirmos parte da Santa Igreja, se nos considerarmos sustentados pela rocha firme de Pedro e pela ação do Espírito Santo, cumpriremos decididamente o pequeno dever de cada instante: semear todos os dias um pouco. E a colheita fará transbordar os celeiros.

Referências da Sagrada Escritura
Referências da Sagrada Escritura