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Há 1 ponto em «Cristo que Passa» cujo tema é Consciência.

A liberdade pessoal

Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão «abençoar as atividades humanas» significasse anular ou escamotear a dinâmica própria destas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também porque, em certas ocasiões, a etiqueta «católico» foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos.

Se o mundo e tudo o que nele há – menos o pecado – é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus, que é uma luta positiva de amor, há de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno lado a lado com os outros cidadãos, e tem a obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.

E há um bem que deverá sempre promover de modo especial: a liberdade pessoal. Só quem defende a liberdade individual dos outros, com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá defender com honradez humana e cristã a sua. Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos presenteou com uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra dádiva maravilhosa, esta humana, a liberdade pessoal, que exige de nós – a fim de não se corromper, transformando-se em libertinagem – integridade e empenho eficaz em proceder dentro da lei divina, porque «onde está o Espírito do
Senhor, aí está a liberdade».

O Reino de Cristo é um reino de liberdade, onde não há outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos torna livres! Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos dá na gana.

Alguns de vós que me escutais conheceis-me há muitos anos; e podeis testemunhar que toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e continuo a procurá-la por toda a Terra, como Diógenes procurava um homem; e amo-a cada dia mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca apreciaremos suficientemente.

Quando falo de liberdade pessoal, não pretendo referir-me a outros problemas, talvez muito legítimos, que não competem ao meu ofício de sacerdote. Sei que não me compete tratar de matérias seculares e transitórias, que pertencem à esfera temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, porque nos sabemos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção.

Celebramos hoje a festa de Cristo Rei. E não me afasto do meu ofício de sacerdote quando digo que quem entende o Reino de Cristo como um programa político não compreendeu devidamente a finalidade sobrenatural da fé e está a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus, porque o seu jugo é suave e o seu fardo é leve. Amemos seriamente todos os homens, amemos Cristo acima de tudo; e não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.