Lista de pontos
Não podemos deixar de ver que ainda está muito por fazer.
Em determinada ocasião, talvez contemplando o suave movimento das espigas já maduras, Jesus disse aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.» Tal como então, também agora faltam homens que queiram suportar «o cansaço do dia e o seu calor». E se nós, que trabalhamos, não formos fiéis, acontecerá o que escreveu o profeta Joel: «Os campos estão devastados, a terra enlutada porque o trigo foi destruído, o vinho, perdido e o azeite, estragado. Os lavradores estão desiludidos, os vinhateiros lamentam-se, por causa do trigo e da cevada, pois a colheita perdeu-se.»
Só há colheita para quem está disposto a aceitar generosamente o trabalho constante, que pode tornar-se longo e fatigante: lavrar a terra, semear, cuidar do campo, fazer a ceifa e a debulha... O Reino de Deus edifica-se na história, no tempo; é uma tarefa que o Senhor nos confiou a todos e da qual ninguém pode sentir-se dispensado. Hoje, adorando e contemplando Cristo na Eucaristia, pensemos que ainda não chegou a hora do descanso, que a jornada continua.
Diz o livro dos Provérbios que «aquele que cultiva a sua terra será saciado de pão». Tiremos a lição espiritual que estas palavras encerram: quem não lavra o terreno de Deus, quem não é fiel à missão divina de se entregar aos outros, ajudando-os a conhecer Cristo, dificilmente conseguirá entender o que é o Pão eucarístico. Ninguém aprecia aquilo que não lhe custou alcançar. Para apreciar e amar a Sagrada Eucaristia, é preciso percorrer o caminho de Jesus: ser trigo, morrer para si próprio, ressuscitar cheio de vida e dar fruto abundante, cem por um!
Esse caminho resume-se numa única palavra: amar. Amar é ter o coração grande, sentir as preocupações de quem nos rodeia, saber perdoar e compreender: sacrificar-se, com Jesus Cristo, por todas as almas. Se amarmos com o coração de Cristo, aprenderemos a servir, e defenderemos a verdade com clareza e com amor. Para amar desta maneira, cada um terá de expulsar da sua vida tudo o que estorva a vida de Cristo em nós: o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência para a exaltação pessoal. Só
poderemos transmitir a vida de Cristo aos outros reproduzindo-a em nós; só experimentando a morte do grão de trigo poderemos trabalhar nas entranhas da terra, transformá-la por dentro, torná-la fecunda.
Conhecer o coração de Cristo Jesus
Não posso deixar de vos confiar algo que é para mim um motivo de pena e um estímulo à ação: pensar nos homens que ainda não conhecem Cristo, que não pressentem ainda a profunda felicidade que nos espera nos Céus, e andam pelo mundo como cegos, atrás de uma alegria cujo verdadeiro nome ignoram, ou perdendo-se por sendas que os afastam da felicidade autêntica. Que bem se percebe o que terá sentido o apóstolo Paulo quando estava na cidade de Tróade e, entre sonhos, teve uma visão: «Um macedónio estava de pé diante dele e fazia-lhe este pedido: “Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!”. Logo que Paulo teve esta visão, procurámos [Paulo e Timóteo] partir para a Macedónia, persuadidos de que Deus nos chamava, para aí anunciar a boa nova.»
Não sentis, vós também, que Deus nos chama, que nos impele – através de tudo o que se passa à nossa volta – a proclamar a boa nova da vinda de Jesus? Às vezes, contudo, nós, cristãos, empequenecemos a nossa vocação, caímos na superficialidade, perdemos tempo com disputas e querelas. Ou, pior ainda, não falta quem se escandalize falsamente com o modo como os outros vivem certos
aspetos da fé ou determinadas devoções, e se entretenha a destruir e criticar, em vez de se esforçar por vivê-los como considera adequado. É claro que pode haver, e há de facto, deficiências na vida dos cristãos. Mas o importante não somos nós e as nossas misérias; o importante é Ele, Jesus. É de Cristo que devemos falar, e não de nós.
As reflexões que acabo de fazer são suscitadas por alguns comentários sobre uma alegada crise na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tal crise não existe. A verdadeira devoção foi e continua a ser uma atitude viva, cheia de sentido humano e de sentido sobrenatural. Os seus frutos têm sido e continuam a ser frutos saborosos de conversão, de entrega, de cumprimento da vontade de Deus, de penetração amorosa nos mistérios da redenção.
Outra coisa bem diferente são as manifestações de um sentimentalismo
ineficaz, vazio de doutrina e eivado de pietismo. Eu também não gosto de imagens delambidas, de certas figurações do Sagrado Coração que não podem inspirar devoção nenhuma a pessoas com senso comum e com sentido sobrenatural cristão. Mas não é uma demonstração de boa lógica transformar certos abusos de ordem prática, que acabam por desaparecer por si, num problema doutrinal e teológico.
Se crise existe, é no coração dos homens, que – por miopia, por egoísmo, por estreiteza de vistas – não são capazes de vislumbrar o insondável amor de Cristo Senhor nosso. Desde que foi instituída a festa de hoje, a liturgia da Santa Igreja tem sabido oferecer alimento à verdadeira piedade, recolhendo como leitura para a Missa um texto de São Paulo em que nos é proposto todo um programa de vida contemplativa – conhecimento e amor, oração e vida –, que começa com esta devoção ao coração de Jesus. É o próprio Deus que nos convida, pela boca do apóstolo, a seguir esse caminho: «Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações; que estejais enraizados e alicerçados no amor, para terdes a capacidade de apreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade… a capacidade de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, para que sejais repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus.»
A plenitude de Deus revela-se-nos e dá-se-nos em Cristo, no amor de Cristo, no coração de Cristo; porque este é o coração daquele em quem «habita realmente toda a plenitude da divindade». Por isso, quando se perde de vista este superior desígnio de Deus – a corrente de amor instaurada no mundo pela Encarnação, pela redenção e pelo Pentecostes –, não se tem capacidade para compreender as delicadezas do coração do Senhor.
A verdadeira devoção ao coração de Cristo
Consideremos toda a riqueza que se encerra nestas palavras: Sagrado Coração de Jesus. Quando falamos de um coração humano, não nos referimos apenas aos sentimentos; aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que se relaciona com os outros; e, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é considerado o resumo e a fonte, a expressão e o fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das ações. Um homem vale o que vale o seu coração, diríamos em linguagem corrente.
Ao coração pertence a alegria: «O meu coração alegra-se com a tua salvação»; o arrependimento: «O meu coração tornou-se como cera e derreteu-se dentro do peito»; o louvor a Deus: «O meu coração vibra com belas palavras»; a decisão de ouvir o Senhor: «O meu coração está firme»; a vigília amorosa:
«Eu dormia, mas de coração desperto». E ainda a dúvida e o temor: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em Mim».
O coração não se limita a sentir; também sabe e entende. A lei de Deus é recebida no coração e nele permanece escrita18; e a Escritura acrescenta: «A boca fala da abundância do coração». O Senhor lançou em cara a uns escribas: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações?»; e, para resumir todos os pecados que um homem pode cometer, esclareceu: «Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias».
Quando a Sagrada Escritura fala do coração, não se refere a um sentimento passageiro, que emociona ou faz nascer as lágrimas. Fala-se do coração para referir a pessoa, que, como disse o próprio Jesus, se orienta, toda ela – alma e corpo –, para aquilo que considera o seu bem, uma vez que «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração».
Por isso, quando falamos do coração de Jesus, estamos a salientar a certeza do amor de Deus e a verdade da sua entrega a nós. Recomendar a devoção a esse Sagrado Coração é o mesmo que dizer que devemos orientar-nos integralmente, com tudo o que somos – a nossa alma, os nossos sentimentos e pensamentos, as nossas palavras e ações, os nossos trabalhos e as nossas alegrias –, para Jesus todo.
É nisto que se concretiza a verdadeira devoção ao coração de Jesus: em conhecer Deus e nos conhecermos a nós próprios, e em olhar para Jesus – que nos anima, nos ensina, nos guia – e recorrer a Ele. A única superficialidade que pode haver nesta devoção é a de um homem que, não sendo integralmente humano, não consegue perceber a realidade de Deus encarnado.
Se não aprendermos com Jesus, nunca saberemos amar. Se pensássemos, como alguns, que manter o coração limpo, digno de Deus, significa não o misturar, não o contaminar com afetos humanos, o resultado lógico seria tornarmo-nos insensíveis à dor dos outros; apenas seríamos capazes de uma caridade oficial, seca e sem alma, que não é a verdadeira caridade de Cristo, pois esta é ternura e amor humano. Não pretendo com isto justificar falsas teorias, que mais não são do que lamentáveis desculpas para desviar os corações, afastando-os de Deus e levando-os a más ocasiões e à perdição.
Na festa de hoje, havemos de pedir ao Senhor que nos dê um coração bom, capaz de se compadecer das dores dos outros homens, capaz de compreender que o verdadeiro bálsamo para os tormentos que acompanham e, não poucas vezes, angustiam as almas neste mundo é o amor, a caridade; os outros consolos só servem para nos distrair por momentos, deixando atrás de si amargura e desespero.
Se queremos ajudar os outros, temos de os amar, insisto, com um amor que seja compreensão e entrega, afeto e humildade voluntária. Assim, compreenderemos porque foi que o Senhor decidiu resumir toda a Lei no duplo mandamento, que é, na realidade, um único mandamento: o amor a Deus e o amor ao próximo de todo o coração.
Talvez estejais a pensar que, por vezes, nós, cristãos – não os outros: tu e eu –, nos esquecemos das concretizações mais elementares deste dever. Talvez estejais a pensar em tantas injustiças que não se remedeiam, em abusos que não se corrigem, em situações de discriminação que se transmitem de geração em geração sem ninguém as solucionar de vez.
Não posso – nem me compete – propor-vos formas concretas de resolver esses problemas. Mas, como sacerdote de Cristo, é meu dever recordar-vos o que diz a Sagrada Escritura. Meditai na cena do Juízo Final, descrita pelo próprio Jesus: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber, era peregrino e não Me recolhestes, estava nu e não Me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-Me.»
Um homem ou uma sociedade que não reage perante as tribulações ou as injustiças, e se não esforça por aliviá-las, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do coração de Cristo. Os cristãos – mantendo sempre a mais ampla liberdade no estudo e na aplicação das diversas soluções, e, portanto, com lógico pluralismo – terão de convergir no mesmo anseio de servir a humanidade; senão, o seu cristianismo não será a palavra e a vida de
Jesus: será um disfarce, um embuste perante Deus e os homens.
O reino da alma
Como és grande, Senhor nosso Deus! És Tu que dás sentido sobrenatural e eficácia divina à nossa vida. É por tua causa que, por amor ao teu Filho, podemos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e com o corpo: Oportet illum regnare!, enquanto ressoa o eco da nossa debilidade, porque sabes que somos criaturas – e que criaturas! – feitas de barro não apenas nos pés, também no coração e na cabeça. Ao divino*, vibraremos exclusivamente por Ti.
Cristo deve reinar, em primeiro lugar, na nossa alma. Mas que Lhe responderíamos se Ele nos perguntasse: como Me deixas reinar em ti? Eu responder-Lhe-ia que, para Ele reinar em mim, preciso da sua graça abundante, pois só assim o mais impercetível pulsar do meu coração, a menor respiração, o olhar menos intenso, a palavra mais corrente, a sensação mais elementar se traduzirão num hossana ao meu Cristo Rei.
Se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o nosso coração. Se não o fizéssemos, falar do Reino de Cristo seria palavreado sem substância cristã, expressão exterior de uma fé inexistente, utilização fraudulenta do nome de Deus para compromissos humanos.
Se a condição para que Jesus reinasse na minha alma, na tua alma, fosse contar previamente em nós com um lugar perfeito, teríamos razões para desesperar. Mas «não temas, filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta». Vedes? Jesus contenta-Se com um pobre animal por trono. No vosso
caso, não sei, mas a mim não me humilha reconhecer-me como um jumento aos olhos do Senhor: sou como um burriquinho diante de Ti, mas estarei sempre a teu lado e Tu me conduziste pela mão, Tu me levas pela arreata.
Pensai nas características de um jumento, agora que já há tão poucos. Não falo de um burro velho e obstinado, rancoroso, que se vinga com um coice traiçoeiro, mas de um jumentito jovem, de orelhas tesas como antenas, austero na comida, duro no trabalho, de trote decidido e alegre. Há centenas de animais mais belos, mais hábeis e mais cruéis. Mas Cristo preferiu este para Se apresentar como rei diante do povo que O aclamava, porque Jesus não sabe o
que fazer com a astúcia calculista, a crueldade dos corações frios, a beleza vistosa, mas oca. Nosso Senhor ama a alegria de um coração moço, o passo simples, a voz sem falsete, os olhos limpos, o ouvido atento às suas palavras de afeto. E é assim que reina na alma.
*«A lo divino», no original, é uma expressão tipicamente castelhana utilizada
especialmente na poesia do chamado Século de Ouro espanhol para dar um
significado religioso e de amor sobrenatural a versos originalmente profanos.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31018/ (19/05/2026)