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Há 2 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Jaculatórias.

Vida de oração

«Que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.» Se Deus é vida para nós, não é de estranhar que a nossa existência de cristãos deva estar entretecida em oração. Mas não penseis que a oração é um ato que se faz e depois se abandona; pois o justo «põe o seu enlevo na lei do Senhor e nela medita dia e noite»; pela manhã penso em Ti e durante a tarde a minha oração dirige-se a Ti como o incenso. O dia pode ser, todo ele, tempo de oração: da noite até de manhã e da manhã até à noite. Mais ainda: como nos recorda a Sagrada Escritura, o sono também deve ser oração.

Recordai o que os Evangelhos nos narram sobre Jesus: às vezes, passava a noite inteira em colóquio íntimo com seu Pai. A imagem de Cristo em oração apaixonou tanto os primeiros discípulos que, depois de contemplarem essa atitude constante do Mestre, Lhe pediram: «Domine, doce nos orare», Senhor, ensina-nos a orar assim. 

São Paulo – «orationi instantes», perseverantes na oração, escreve – difunde por toda a parte o exemplo vivo de Cristo. E São Lucas retrata com uma pincelada o comportamento dos primeiros fiéis: «Todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração.»

A têmpera do bom cristão adquire-se, com a graça, na forja da oração. E este alimento da oração, por ser vida, não corre por um caudal único. Habitualmente, o coração desabafa com palavras, nas orações vocais que nos foram ensinadas pelo próprio Deus – o «pai-nosso» – ou pelos seus anjos – a «ave-maria»; outras vezes, utilizaremos orações depuradas pelo tempo, nas quais se verteu a piedade de milhões de irmãos na fé: as orações da liturgia – lex orandi –, as orações que nasceram da paixão de corações enamorados, como muitas antífonas marianas: «Sub tuum præsidium», «Memorare», «Salve Regina».

Noutras ocasiões, bastarão duas ou três expressões lançadas ao Senhor como uma flecha, iaculata, jaculatórias, que aprendemos na leitura atenta da história de Cristo: «Domine, si vis, potes me mundare», Senhor, se quiseres, podes curar-me; «Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te», Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo; «Credo, Domine, sed adiuva incredulitatem meam», creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade, fortalece a minha fé; «Domine, non sum dignus», Senhor, eu não sou digno!; «Dominus meus et Deus meus», meu Senhor e meu Deus!... Ou outras frases, breves e afetuosas, que brotam do fervor íntimo da alma em resposta a circunstâncias concretas.

Além disto, a vida de oração tem de fundamentar-se em períodos diários dedicados exclusivamente ao trato com Deus, momentos de conversa sem ruído de palavras, sempre que possível junto ao sacrário, para agradecer ao Senhor o facto de estar à nossa espera – tão só! – há vinte séculos. A oração mental é um diálogo com Deus de coração a coração, com intervenção de toda
a alma: a inteligência e a imaginação, a memória e a vontade. Uma meditação que contribui para dar valor sobrenatural à nossa pobre vida humana, ao nosso dia a dia.

Graças a esses tempos de meditação, às orações vocais, às jaculatórias, saberemos converter o nosso quotidiano, com naturalidade e sem espetáculo, num contínuo louvor a Deus; manter-nos-emos na sua presença, como os apaixonados dirigem continuamente o seu pensamento à pessoa que amam, e todas as nossas ações – incluindo as mais pequenas – se encherão de eficácia
espiritual.

Por isso, quando um cristão avança por este caminho de conversa ininterrupta com o Senhor – que não é uma senda para privilegiados, mas um caminho para todos –, a vida interior cresce, segura e firme; e consolida-se no homem a luta, simultaneamente amável e exigente, por realizar a vontade de Deus em profundidade.

Com base na vida de oração, podemos compreender outro tema que a festa de hoje nos propõe: o apostolado, que é pôr em prática os ensinamentos de Jesus, transmitidos aos seus pouco antes de subir aos Céus: «Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»

São João conserva no seu Evangelho uma frase maravilhosa de Nossa Senhora, num dos episódios que já considerámos: o das bodas de Caná. Narra-nos o evangelista que, dirigindo-se aos servos, Maria lhes disse: «Fazei o que Ele vos disser.» É disso que se trata: de levar as almas a colocarem-se diante de Jesus e a perguntarem-Lhe: «Domine, quid me vis facere?», Senhor, que queres que eu faça?

O apostolado cristão – e refiro-me agora, em concreto, ao apostolado de um cristão vulgar, do homem ou da mulher que vive como outro qualquer entre os seus iguais – é uma grande catequese, na qual, através de uma amizade leal e autêntica, se desperta nos outros a fome de Deus, ajudando-os a descobrir novos horizontes – com naturalidade, com simplicidade, como já disse, com o exemplo de uma fé bem vivida, com uma palavra afável, mas cheia da força da verdade divina.

Sede audazes. Contais com a ajuda de Maria, Regina apostolorum. E Nossa Senhora, sem deixar de ser Mãe, sabe confrontar os filhos com as suas responsabilidades específicas. A quem dela se aproxima e contempla a sua vida, Maria faz sempre o imenso favor de o conduzir à cruz, de o colocar diante do exemplo do Filho de Deus; e, nesse confronto em que se decide a vida cristã, intercede para que o nosso comportamento culmine numa reconciliação do irmão mais novo – tu e eu – com o Filho primogénito do Pai.

Muitas conversões e muitas decisões de entrega ao serviço de Deus foram precedidas de um encontro com Maria. Nossa Senhora fomentou os desejos de procura, ativou maternalmente as inquietações da alma, fez aspirar a uma mudança, a uma vida nova. E assim, o «fazei o que Ele vos disser» resultou numa realidade de entrega amorosa, numa vocação cristã que, desde então, ilumina toda a nossa vida.

Este tempo de conversa diante do Senhor, durante o qual meditámos sobre a devoção e o afeto à sua e nossa Mãe, poderá, pois, servir para reavivar a nossa fé. Está a começar o mês de maio. O Senhor quer que não desaproveitemos esta ocasião de crescer no seu amor através da intimidade com sua Mãe. Que todos os dias saibamos ter com ela pormenores filiais – pequenas coisas, atenções delicadas –, que se irão tornando realidades grandes de santidade
pessoal e de apostolado, isto é, de empenho constante em contribuir para a salvação que Cristo veio trazer ao mundo.

Sancta Maria, spes nostra, ancilla Domini, sedes sapientiæ, ora pro nobis! Santa Maria, esperança nossa, escrava do Senhor, sede de Sabedoria, rogai por nós!