Lista de pontos
A correspondência humana
É neste contexto da misericórdia de Deus que a existência do cristão se desenvolve; este é o âmbito do seu esforço para se comportar como filho do Pai. E quais são os principais meios para conseguir que a vocação se consolide? Hoje vou apontar-te dois, que são como que eixos vivos do comportamento cristão: a vida interior e a formação doutrinal, o conhecimento profundo da nossa fé.
Em primeiro lugar, a vida interior. São tão poucos ainda os que a compreendem! Ao ouvir falar de vida interior, pensam logo na obscuridade do templo, quando não no ambiente rarefeito de algumas sacristias. Há mais de um quarto de século que ando a dizer que não se trata disso. Falo da vida interior de cristãos comuns, que andam habitualmente pela rua, ao ar livre; e que passam o dia unidos a Jesus, seja na rua, no trabalho, na família ou nos momentos de diversão. O que é isto senão vida de oração contínua? Pois não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusares-te? A fé cristã é isto, e foi sempre assim que as almas de oração a conceberam: «Torna-se Deus aquele homem que quer o mesmo que Deus quer», escreve Clemente de Alexandria.
A princípio, custa. Temos de nos esforçar para nos dirigirmos ao Senhor, agradecendo a sua piedade paternal e concreta connosco. Pouco a pouco, o amor de Deus torna-se palpável – embora não seja uma questão de sentimentos – como um arranhão na alma, pois Cristo persegue-nos amorosamente: «Eu estou à porta e bato.» Como vai a tua vida de oração? Não sentes por vezes, durante o dia, o desejo de falar calmamente com Ele? Não Lhe dizes: mais logo, conto-Te isto, depois conversaremos sobre aquilo?
Nos períodos expressamente dedicados a esse colóquio com o Senhor, o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência – ajudada pela graça – enche as realidades humanas de realidades sobrenaturais. E, como fruto, farás propósitos claros, práticos, de melhorar o teu comportamento, de tratar todos os homens com fina caridade, de te empenhares a fundo – com o empenho dos bons desportistas – nesta luta cristã de amor e de paz.
A oração torna-se contínua, como o bater do coração, como a pulsação. Sem essa presença de Deus, não há vida contemplativa; e, sem vida contemplativa, de pouco vale trabalhar por Cristo, pois em vão trabalham os construtores se o Senhor não edificar a casa.
A arriscada segurança do Cristão
«Qui habitat in adiutorio Altissimi, in protectione Dei coeli commorabitur»: habitar sob a proteção de Deus, viver com Deus, eis a arriscada segurança do cristão. Temos de estar convencidos de que Deus nos ouve, de que está sempre atento; assim, o nosso coração encher-se-á de paz. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta em partilhar: quer tudo. E aproximar-se um pouco mais d’Ele significa estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir com mais atenção as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.
Certamente que, desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua palavra. Mas não é verdade que ainda há tanto por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É indubitavelmente necessária uma nova mudança, uma lealdade mais plena, uma humildade mais profunda,
de modo que, diminuindo o nosso egoísmo, Cristo cresça em nós, pois «illum oportet crescere, me autem minui», Ele é que deve crescer, e eu diminuir.
Não podemos ficar parados. Temos de avançar para a meta que São Paulo apontava: «Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim». A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas, para quem deseja ser coerente com a vida divina que, pelo batismo, Deus fez nascer na nossa alma, não há outro caminho: o avanço é progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo
do amor de Deus tem de ser alimentado, tem de aumentar todos os dias, arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, quando não aumenta, está a caminho de se extinguir. Recordai as palavras de Santo Agostinho: «Se disseres basta, estás perdido. Procura sempre mais, caminha sempre, progride sempre. Não permaneças no mesmo sítio, não retrocedas, não te desvies.»
A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo, em desejos de santidade, em generosidade apostólica no meu dia a dia, no meu trabalho habitual entre os meus companheiros de profissão?
Cada um responda a estas perguntas sem ruído de palavras e verá que é necessária uma nova transformação, para que Cristo viva em nós, para que a sua imagem se reflita limpidamente no nosso comportamento.
«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me.» Cristo diz-no-lo de novo, a nós, intimamente: a cruz de cada dia. Escreve São Jerónimo: «Não só em tempo de perseguição, ou quando se apresenta a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo
que éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo.»
Na verdade, estas considerações mais não são que o eco das do apóstolo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz – pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade –, procurando discernir o que é agradável ao Senhor.»
A conversão é coisa de um instante; a santificação é uma tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs na nossa alma, aspira a crescer, a expressar-se em obras, a dar frutos que sejam, em cada momento, agradáveis ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar – nas novas situações da nossa vida – a luz e o impulso da primeira conversão. E é por essa razão que havemos de nos preparar com um
exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para podermos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor a nós próprios. Não há outro caminho para nos convertermos de novo.
Tenhamos, pois, fé, sem nos deixarmos dominar pelo desalento; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para vencer os obstáculos, temos de começar a trabalhar, envolvendo-nos por completo nessa tarefa, de maneira que o próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos. Perante qualquer dificuldade, o remédio é sempre este: santidade pessoal, entrega ao Senhor.
Ser santo é viver como o nosso Pai do Céu dispôs que vivêssemos. Dir-me-eis que é difícil. Sim, o ideal é muito elevado. Mas ao mesmo tempo é fácil: está ao alcance da mão. Quando uma pessoa adoece, nem sempre se consegue encontrar o remédio necessário. No plano sobrenatural, porém, não é assim, pois temos o remédio sempre à mão: é Jesus Cristo, presente na Sagrada Eucaristia, que também nos dá a sua graça nos outros sacramentos que instituiu.
Repitamos, com a palavra e com as obras: Senhor, confio em Ti, basta-me a tua providência ordinária, a tua ajuda de cada dia. Não temos nada que pedir a Deus grandes milagres; pelo contrário, temos de Lhe suplicar que nos aumente a fé, nos ilumine a inteligência, nos fortaleça a vontade. Jesus está sempre junto de nós e comporta-Se sempre como quem é.
Desde o começo da minha pregação, preveni-vos contra um falso endeusamento. Não te perturbe conheceres-te como és: assim, de barro; não te preocupes. Porque tu e eu somos filhos de Deus – e este é o endeusamento bom –, escolhidos por vocação divina desde toda a eternidade: «Foi assim que Ele [o Pai] nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor.» Nós, que somos especialmente de Deus, seus instrumentos apesar da nossa pobre miséria pessoal, seremos eficazes se não perdermos o conhecimento da nossa fraqueza. As tentações dão-nos a dimensão da nossa própria debilidade.
Se sentis desalento ao experimentar – talvez de modo particularmente vivo – a vossa mesquinhez, abandonai-vos por completo, com docilidade, nas mãos de Deus. Conta-se que, certo dia, um mendigo interpelou Alexandre Magno, pedindo-lhe uma esmola; Alexandre deteve-se e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confuso e atordoado, exclamou: «Eu não pedia tanto!»; ao que Alexandre respondeu: «Tu pediste como quem és,
eu dou-te como quem sou».
Mesmo naqueles momentos em que temos uma consciência mais profunda das nossas limitações, podemos e devemos olhar para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, sabendo-nos participantes da vida divina. Não há nunca razões suficientes para olhar para trás30: o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, de assumir as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e ultrapassar os
nossos. Assim, todos esses desalentos – os teus, os meus, os de todos os homens – também servirão de suporte ao Reino de Cristo.
Reconheçamos as nossas fraquezas, mas confessemos o poder de Deus. A vida cristã há de estar repleta de otimismo, de alegria, da firme convicção de que o Senhor quer servir-Se de nós. Se nos sentirmos parte da Santa Igreja, se nos considerarmos sustentados pela rocha firme de Pedro e pela ação do Espírito Santo, cumpriremos decididamente o pequeno dever de cada instante: semear todos os dias um pouco. E a colheita fará transbordar os celeiros.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31145/ (23/05/2026)