Lista de pontos
Recordar a um cristão que o sentido da sua vida é obedecer à vontade de Deus não é separá-lo dos outros homens. Pelo contrário, em muitos casos, o mandamento recebido do Senhor é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou, vivendo junto dos outros e tal como os outros, entregando-nos ao serviço do Senhor no mundo, para dar a conhecer melhor a todas as almas o amor de Deus; para lhes dizer que se abriram os caminhos divinos da Terra.
O Senhor não Se limitou a dizer que nos amava; demonstrou-o com obras. Não nos esqueçamos de que Jesus encarnou para nos ensinar a viver a vida dos filhos de Deus. Recordai o preâmbulo dos Atos dos Apóstolos, pela mão do evangelista São Lucas: «Primum quidem sermonem feci de omnibus, o Theophile, quæ cœpit Jesus facere et docere», falei das coisas mais notáveis que Jesus fez e ensinou. Ele veio ensinar, mas fazendo; veio ensinar, mas sendo modelo, sendo Mestre e exemplo com o seu comportamento.
Aqui, diante de Jesus Menino, podemos prosseguir o nosso exame pessoal: estamos decididos a procurar que a nossa vida sirva de modelo e de ensinamento aos homens nossos irmãos, nossos iguais? Estamos decididos a ser outros Cristos? Não basta dizer de boca. Tu – pergunto-o a cada um de vós e pergunto-o a mim mesmo –, tu, que, por seres cristão, estás chamado a ser outro Cristo, mereces que se repita de ti que vieste facere et docere, fazer tudo como um filho de Deus, atento à vontade de seu Pai, para, deste modo, poderes levar todas as almas a participar das coisas boas, nobres, divinas e humanas da redenção? Estás a viver a vida de Cristo no teu dia a dia no meio do mundo?
Fazer as obras de Deus não é um bonito jogo de palavras; é um convite a gastar-se por amor. Temos de morrer para nós próprios a fim de renascermos para uma vida nova. Porque foi assim que Jesus obedeceu, até à morte de cruz, «mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum», e por isso Deus O exaltou. Se obedecermos à vontade de Deus, a cruz será também ressurreição, exaltação. A vida de Cristo cumprir-se-á em nós, passo a passo; poder-se-á dizer que vivemos procurando ser bons filhos de Deus, que passámos fazendo o bem, apesar da nossa fraqueza e dos nossos erros pessoais, por mais numerosos que sejam.
E, quando vier a morte, que virá inexoravelmente, esperá-la-emos com júbilo, como vi que souberam esperá-la tantas pessoas santas no meio da sua existência comum. Com alegria, porque, se imitámos Cristo a fazer o bem – a obedecer e a carregar a cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: «surrexit Dominus vere!», que ressuscitou realmente.
Jesus, que Se fez menino – meditai nisto –, venceu a morte. Com o aniquilamento, com a simplicidade, com a obediência, com a divinização do vulgar dia a dia das criaturas, o Filho de Deus foi vencedor. Este foi o triunfo de Cristo. Deste modo, elevou-nos ao seu nível, ao nível dos filhos de Deus, descendo ao nosso terreno, o terreno dos filhos dos homens.
Convém aprofundarmos aquilo que a morte de Cristo nos revela, sem nos ficarmos por formas exteriores ou por frases estereotipadas. Temos de nos integrar efetivamente nas cenas que revivemos durante estes dias da Semana Santa: a dor de Jesus, as lágrimas de sua Mãe, a fuga dos discípulos, a coragem das santas mulheres, a audácia de José e Nicodemos, que pedem a Pilatos o corpo do Senhor.
Em suma, aproximemo-nos de Jesus morto, dessa cruz que se recorta sobre o cume do Gólgota. Mas aproximemo-nos com sinceridade, sabendo encontrar aquele recolhimento interior que é sinal de maturidade cristã. Desta forma, os acontecimentos divinos e humanos da Paixão penetrarão na nossa alma como palavra que Deus nos dirige, para desvelarem os segredos do nosso coração e nos revelarem o que Ele espera da nossa vida.
Há já muitos anos, vi um quadro que se gravou profundamente no meu íntimo. Representava a cruz de Cristo e, junto ao madeiro, três anjos: um chorava desconsoladamente; outro tinha um prego na mão, como que para se convencer de que aquilo era verdade; o terceiro estava recolhido em oração. Eis um programa sempre atual para cada um de nós: chorar, crer e orar.
Diante da cruz, dor pelos nossos pecados, pelos pecados da humanidade, que levaram Jesus à morte; fé, para entrarmos a fundo nessa verdade sublime que ultrapassa todo o entendimento e nos maravilharmos com o amor de Deus; oração, para que a vida e a morte de Cristo sejam o modelo e o estímulo da nossa vida e da nossa entrega. Só assim nos chamaremos vencedores; porque Cristo ressuscitado vencerá em nós, e a morte transformar-se-á em vida.
Terminemos este tempo de oração. Recordai – saboreando, na intimidade da alma, a infinita bondade divina – que, através das palavras da consagração, Cristo vai tornar-Se realmente presente na hóstia, com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Adorai-O com reverência e com devoção; renovai na sua presença o oferecimento sincero do vosso amor; dizei-Lhe sem medo que O amais; agradecei-Lhe esta prova diária de misericórdia tão cheia de ternura,
e fomentai o desejo de vos aproximardes da comunhão com confiança. Eu pasmo diante deste mistério de amor: o Senhor quer ter como trono o meu pobre coração e, se eu não me afastar dele, não me abandonará.
Reconfortados pela presença de Cristo, alimentados pelo seu Corpo, seremos fiéis durante esta vida terrena, e mais tarde, no Céu, junto de Jesus e de sua Mãe, chamar-nos-emos vencedores. «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? […] Sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.»
A paz de Cristo
Tenho ainda outra consideração a propor-vos: havemos de lutar sem descanso por fazer o bem, precisamente porque sabemos que nós, homens, temos dificuldade em levar a sério a decisão de exercitar a justiça, e falta ainda muito para que a convivência neste mundo seja inspirada pelo amor e não pelo ódio ou a indiferença. Por outro lado, mesmo que consigamos atingir um estado razoável de distribuição dos bens e uma organização harmoniosa da sociedade, continuaremos a confrontar-nos com a dor da doença, da incompreensão e da solidão, a dor da morte das pessoas que amamos e da experiência das nossas limitações.
O cristão só pode dar uma resposta autêntica a estas mágoas, uma resposta que é definitiva: Cristo na cruz, Deus que sofre e que morre, Deus que nos entrega o seu coração, aberto por uma lança por amor a todos. Nosso Senhor abomina as injustiças e condena quem as comete; mas, como respeita a liberdade de cada pessoa, permite que elas existam. Deus Nosso Senhor não provoca a dor das criaturas, mas tolera-a como parte que é – depois do pecado
original – da condição humana. No entanto, o seu coração cheio de Amor pelos homens levou-O a tomar sobre os seus ombros, juntamente com a cruz, todas essas torturas: o nosso sofrimento, a nossa tristeza, a nossa angústia, a nossa fome e sede de justiça.
Os ensinamentos cristãos sobre a dor não são um programa de consolações fáceis. São, antes de mais, uma doutrina de aceitação do sofrimento, como facto inseparável de qualquer vida humana. Não posso esconder-vos – com alegria, porque sempre preguei e procurei viver que onde está a cruz está Cristo, o Amor – que a dor esteve muitas vezes presente na minha vida; e que mais de
uma vez tive vontade de chorar. Noutras ocasiões, senti crescer a mágoa pela injustiça e pelo mal; e conheci o sabor da impotência ao ver que nada podia fazer, que, apesar dos meus desejos e dos meus esforços, não conseguia melhorar essas situações iníquas.
Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias. Nem me limito a recolher a experiência de outros quando vos confirmo que, se alguma vez sentis vacilar a alma perante a realidade do sofrimento, a solução é olhar para Cristo. A cena do Calvário proclama a todos que, se vivermos unidos à cruz, as aflições podem ser santificadas.
As nossas tribulações, vividas cristãmente, transformam-se em reparação, em desagravo, em participação no destino e na vida de Jesus, que experimentou voluntariamente, por amor aos homens, toda a espécie de dores, todo o género de tormentos: nasceu, viveu e morreu pobre; foi atacado, insultado, difamado, caluniado e condenado injustamente; conheceu a traição e o abandono dos discípulos; experimentou a solidão e as amarguras do suplício e da morte. E Cristo continua a sofrer nos seus membros, em toda a humanidade que povoa este mundo, da qual é Cabeça, Primogénito e Redentor.
A dor faz parte dos planos de Deus. A realidade é esta, embora nos custe entendê-la; enquanto homem, Jesus também teve dificuldade em aceitá-la: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» Nesta tensão entre sofrimento e aceitação da vontade do Pai, Jesus avança para a morte com serenidade, perdoando àqueles que O crucificaram.
Mas esta aceitação sobrenatural da dor constitui, por outro lado, a maior conquista: morrendo na cruz, Jesus venceu a morte. Deus tira, da morte, a vida. A atitude de um filho de Deus não é a de quem se resigna à sua trágica desventura, é a satisfação de quem saboreia antecipadamente a vitória. Em nome desse amor vitorioso de Cristo, nós, cristãos, devemos lançar-nos por todos os caminhos da Terra, para sermos semeadores de paz e de alegria com a nossa palavra e com as nossas obras. Temos de lutar – numa luta de paz – contra o mal, contra a injustiça, contra o pecado, proclamando assim que a atual condição humana não é a definitiva; que o amor de Deus, expresso no coração de Cristo, alcançará o glorioso triunfo espiritual dos homens.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31178/ (23/05/2026)