Lista de pontos
*Homilia proferida a 4 de maio de 1957
Um olhar pelo mundo, um olhar sobre o povo de Deus, neste mês de maio que agora começa, permite-nos contemplar o espetáculo da devoção mariana, que se expressa em muitos costumes, antigos ou novos, mas sempre vividos com um mesmo espírito de amor.
É uma alegria verificar que a devoção a Nossa Senhora continua viva, despertando nas almas cristãs o impulso sobrenatural que as leva a comportarem-se como «domestici Dei», como membros da família de Deus.
Nestes dias, vendo tantos cristãos expressarem o seu afeto à Virgem Santa Maria dos mais diversos modos, também vós certamente vos sentis mais dentro da Igreja, mais irmãos de todos esses vossos irmãos. É uma espécie de reunião de família, como quando os filhos adultos que a vida separou voltam a encontrar-se em redor da mãe por ocasião de uma festa. Ainda que tenham ocasionalmente discutido uns com os outros e se tenham tratado mal, naquele dia não: naquele dia sentem-se unidos, reconhecendo-se todos no afeto comum.
Maria edifica continuamente a Igreja, reúne-a, mantém-na coesa. É difícil ter autêntica devoção a Nossa Senhora sem nos sentirmos mais ligados aos outros membros do corpo místico e mais unidos à sua cabeça visível, o Papa; por isso, gosto de repetir: «Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam!», todos com Pedro a Jesus por Maria! Reconhecendo-nos como parte da Igreja e convidados a sentirmo-nos irmãos na fé, descobrimos mais profundamente a fraternidade que nos une a toda a humanidade, porque a Igreja foi enviada por Cristo a todos os homens e a todos os povos.
Já todos experienciámos o que acabo de dizer, pois não nos têm faltado ocasiões de comprovar os efeitos sobrenaturais de uma sincera devoção à Virgem Maria. Cada um de vós poderia contar muitas coisas a esse propósito; e eu também. Vem-me agora à memória uma romaria que fiz em 1935 a uma ermida de Nossa Senhora em terra castelhana: Sonsoles.
Não foi uma romaria no sentido habitual, ruidosa e multitudinária: fomos apenas três pessoas. Respeito e estimo essas manifestações públicas de piedade, mas, pessoalmente, prefiro tentar oferecer a Maria o mesmo afeto e o mesmo entusiasmo por meio de visitas pessoais, ou em pequenos grupos, com sabor de intimidade.
Naquela romaria a Sonsoles, fiquei a conhecer a origem desta invocação da Virgem Maria – um pormenor sem grande importância, mas que é uma expressão filial das gentes daquela terra. A imagem de Nossa Senhora que se venera no local esteve escondida durante algum tempo, na época das lutas entre cristãos e muçulmanos em Espanha; alguns anos depois, foi encontrada por uns pastores, que, segundo conta a tradição, exclamaram, ao vê-la: «Que lindos olhos! São sóis*!»
*Em castelhano, «son soles».
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31250/ (23/05/2026)