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Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem
O Filho de Deus fez-Se carne e é «perfectus Deus, perfectus homo», perfeito Deus e perfeito Homem. Há neste mistério qualquer coisa que deveria tocar os cristãos. Fiquei e continuo comovido; gostava de regressar a Loreto. Vou em desejo, para reviver os anos da infância de Jesus, repetindo e considerando: «Hic Verbum caro factum est».
Jesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo, Deus Homem, é uma das «magnalia Dei», das maravilhas de Deus, em que temos de meditar e que temos de agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na Terra aos homens de boa vontade, a todos os homens que querem unir a sua vontade à vontade boa de Deus: não só aos ricos, nem só aos pobres, mas a todos os homens, a todos os irmãos! Porque todos somos irmãos em Jesus; filhos de Deus, irmãos de Cristo: sua Mãe é nossa Mãe.
Na Terra há apenas uma raça: a raça dos filhos de Deus. Todos havemos de falar a mesma língua, a língua que nos ensina o nosso Pai que está no Céu, que é a língua do diálogo de Jesus com seu Pai, a língua que se fala com o coração e com a cabeça, a que estais a usar agora na vossa oração. A língua das almas contemplativas, dos homens que são espirituais por terem consciência da sua filiação divina; uma língua que se exprime em mil moções da vontade, em luzes claras do entendimento, em afetos do coração, em decisões de retidão de vida, de bem, de alegria, de paz.
Temos de olhar o Menino, nosso Amor, no berço; havemos de olhar para Ele sabendo que estamos perante um mistério. Necessitamos de aceitar o mistério pela fé e, também pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso, fazem-nos falta as disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério é, na sua obscuridade, uma luz que guia a vida dos homens.
Diz São João Crisóstomo: «Vemos que Jesus saiu de nós, da nossa substância humana, e que nasceu de Mãe virgem; mas não entendemos como pode semelhante prodígio ter-se realizado. Não nos cansemos a tentar descobri-lo; aceitemos com humildade o que Deus nos revelou, sem esquadrinharmos com curiosidade o que Deus nos escondeu.» Com este acatamento, saberemos compreender e amar; e o mistério será para nós um esplêndido ensinamento, mais convincente que qualquer outro raciocínio humano.
O cristão sabe que está incorporado em Cristo pelo batismo; habilitado a lutar por Cristo pela confirmação; chamado a operar no mundo pela participação na função real, profética e sacerdotal de Cristo; feito uma só coisa com Cristo pela Eucaristia, sacramento da unidade e do amor. Por isso, tal como Cristo, há de viver voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, e para toda a humanidade.
A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-lo como nosso salvador, a identificarmo-nos com Ele, agindo como Ele agiu. Depois de arrancar o apóstolo Tomé às suas dúvidas, mostrando-lhe as suas chagas, o Ressuscitado exclama: «Felizes os que creem sem terem visto.» Comenta São Gregório Magno: «Aqui, fala-se de nós de modo particular, porque possuímos espiritualmente Aquele a quem não vimos corporalmente. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações sejam conformes com a nossa fé. Só crê verdadeiramente aquele que põe em prática aquilo em que crê. Por isso, a propósito daqueles que, da fé, apenas possuem as palavras, diz São Paulo que professam conhecer Deus, mas O negam com as obras.»
Não é possível separar, em Cristo, o seu ser de Deus Homem e a sua função de redentor. O Verbo fez-Se carne e veio ao mundo «ut omnes homines salvi fiant», para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, nós somos outros Cristos, o próprio Cristo, também chamados a servir todos os homens.
É necessário que aquele mandamento que continuará a ser novo ao longo dos séculos ressoe uma e outra vez. Escreve São João: «Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Não obstante, digo-vos que o mandamento de que vos falo é um mandamento novo, que é verdadeiro em si mesmo e em vós, pois as trevas passaram e já
brilha a luz verdadeira. Quem diz que está na luz, mas aborrece o seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e nele não há escândalo.»
Nosso Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida, a todos os homens. Não só aos ricos, nem só aos pobres; não só aos sábios, nem só aos simples. A todos. Aos irmãos, pois somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, Deus. Por isso, só há uma raça: a raça dos filhos de Deus; só há uma cor: a cor dos filhos de Deus; só há uma língua: a língua que fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros.
A impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante as injustiças individuais e sociais que o coração humano é capaz de criar são perfeitamente compreensíveis. Tantos séculos de convivência entre os homens e ainda há tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.
Os bens da Terra divididos por muito poucos; os bens da cultura encerrados em cenáculos; e, lá fora, fome de pão e de sabedoria, vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de estatísticas. Compreendo e compartilho essa impaciência, que me leva a erguer os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor.
Todas as situações da nossa vida nos trazem uma mensagem divina, nos pedem uma resposta de amor, de entrega aos outros. «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-Se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me , estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo.” Então, os justos vão responder-Lhe: “Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-
Te?” E o Rei vai dizer-lhes em resposta: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.”»
Temos de reconhecer, nos homens nossos irmãos, Cristo que vem ao nosso encontro. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; todas se entrelaçam. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade.
Maria faz-nos sentir irmãos uns dos outros
Não é possível tratar filialmente a Virgem Maria e pensar apenas em si próprio e nos próprios problemas. Não é possível privar com Maria e ter problemas pessoais e egoístas. Maria leva a Jesus, e Jesus é «primogenitus in multis fratribus», primogénito de muitos irmãos. Por isso, conhecer Jesus é compreender que a nossa vida não pode ter outro sentido senão entregarmo-nos ao serviço dos demais. Um cristão não se pode ficar pelos seus problemas pessoais, pois tem de viver voltado para a Igreja universal, pensando na salvação de todas as almas.
Deste modo, nem aquelas facetas que poderiam ser consideradas mais íntimas e privadas – como a preocupação com o próprio progresso interior – são, na realidade, pessoais, visto que a santificação e o apostolado formam uma unidade. Por isso, havemos de nos esforçar na nossa vida interior e no desenvolvimento das virtudes cristãs pensando no bem de toda a Igreja, dado que não poderíamos fazer o bem e dar a conhecer Cristo sem um esforço
sincero para praticar os ensinamentos do Evangelho.
Impregnadas deste espírito, as nossas orações, ainda que comecem por temas e propósitos aparentemente pessoais, acabam sempre por desembocar no serviço aos outros. E, se caminharmos pela mão da Virgem Santíssima, ela far-nos-á sentir irmãos de todos os homens, porque todos somos filhos desse Deus de quem ela é Filha, Esposa e Mãe.
Os problemas dos outros devem ser problemas nossos. A fraternidade cristã deve estar bem enraizada na nossa alma, de modo que nenhuma pessoa nos seja indiferente. Maria, Mãe de Jesus, que O criou, O educou e O acompanhou durante a sua vida terrena, e está junto dele nos Céus, ajudar-nos-á a reconhecer Jesus que passa ao nosso lado e Se nos torna presente nas necessidades dos homens nossos irmãos.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31281/ (23/05/2026)