Lista de pontos
Permiti-me que regresse à naturalidade, à simplicidade da vida de Jesus, que já vos fiz considerar tantas vezes. Esses anos ocultos do Senhor não são desprovidos de significado, nem são uma simples preparação para os anos que viriam depois, os da sua vida pública. A partir de 1928, compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem como exemplo toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a sua vida escondida, a sua vida normal de trabalho no meio dos homens: o Senhor quer que muitas almas encontrem o seu caminho nos anos de vida silenciosa e sem brilho. Obedecer à vontade de Deus, portanto, é sempre sair do nosso egoísmo; mas não tem de se traduzir principalmente no afastamento das circunstâncias habituais da vida dos homens, nossos iguais em estado, profissão e situação social.
Sonho – e o sonho já se tornou realidade – com multidões de filhos de Deus santificando-se na sua vida de cidadãos comuns, partilhando ideais, anseios e esforços com as outras pessoas. Sinto necessidade de lhes gritar esta verdade divina: se permaneceis no meio do mundo, não é porque Deus Se tenha esquecido de vós, não é porque o Senhor vos não tenha chamado; Ele convidou-vos a permanecer nas atividades e nas inquietações da Terra porque vos fez saber que a vossa vocação humana, a vossa profissão e as vossas qualidades não só não são alheias aos seus desígnios divinos, mas foram por Ele santificadas como oferenda gratíssima ao Pai.
Para servir, servir
Para viver assim, para santificar a profissão, é necessário, primeiro que tudo, trabalhar bem, com seriedade humana e sobrenatural. Quero recordar agora, por contraste, o que conta um dos antigos relatos dos evangelhos apócrifos: «O pai de Jesus, que era carpinteiro, fazia arados e jugos. Certa vez, uma pessoa de boa posição encomendou-lhe uma cama. Ora, um dos varões ficou mais curto que o outro e José não sabia o que havia de fazer. Então, o Menino Jesus disse ao pai: “Põe os dois paus no chão e acerta-os numa extremidade”. José assim fez. Jesus colocou-Se do outro lado, pegou no varal mais curto e esticou-o até ficar do tamanho do outro. José, seu pai, cheio de admiração perante aquele prodígio, cumulou o Menino de abraços e beijos dizendo: “Feliz de mim, porque Deus me deu este Menino.”»
José não daria graças a Deus por um motivo destes; o seu trabalho não podia ser assim. São José não é o homem das soluções fáceis e milagreiras, mas o homem da perseverança, do esforço e, quando é necessário, do engenho. O cristão sabe que Deus faz milagres; que os fez há séculos, que voltou a fazê-los e que continua a fazê-los ainda hoje, porque «non est abbreviata manus Domini», o poder de Deus não diminuiu.
Mas os milagres são uma manifestação da omnipotência salvadora de Deus, não são um expediente para sanar as consequências da inépcia ou para facilitar o vossa comodismo. O milagre que o Senhor vos pede é a perseverança na nossa vocação cristã e divina, a santificação do trabalho de cada dia: o milagre de converter a prosa do dia a dia em decassílabos, verso heroico, pelo amor com que realizais o vosso trabalho habitual. É aí que Deus vos espera, de maneira que sejais almas com sentido de responsabilidade, com zelo apostólico, com competência profissional.
Por isso, posso dar-vos um lema para o vosso trabalho: para servir, servir. Porque, para fazer uma coisa, é necessário, em primeiro lugar, saber fazê-la. Não acredito na retidão da intenção de uma pessoa que não se esforça por adquirir a competência necessária para realizar adequadamente as tarefas de que foi encarregada. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se
queremos realmente, esse desejo traduzir-se-á no empenho em utilizar os meios adequados para acabar bem as coisas, com perfeição humana.
Mas esse servir humano, essa capacidade a que poderíamos chamar técnica, esse saber fazer o próprio ofício, deve incluir uma característica que foi fundamental no trabalho de São José e que devia ser fundamental para todo o cristão: o espírito de serviço, o desejo de trabalhar para contribuir para o bem dos outros homens. O trabalho de São José não foi uma atividade que visasse a autoafirmação, ainda que a dedicação de uma vida laboriosa tenha forjado nele uma personalidade madura, bem delineada. O patriarca trabalhava com a consciência de cumprir a vontade de Deus, pensando no bem dos seus, Jesus e Maria, e no bem de todos os habitantes da pequena Nazaré.
José seria um dos poucos, se não mesmo o único artesão de Nazaré; carpinteiro, possivelmente, mas, como é costume nas pequenas povoações, também capaz de fazer outras coisas: reparar um moinho que se tinha avariado, arranjar as fendas de um teto antes do inverno. José tiraria certamente muitos conterrâneos seus de apuros com um trabalho bem feito. O seu trabalho profissional era uma ocupação orientada para o serviço, para tornar agradável a vida das outras famílias da aldeia, e acompanhada de um sorriso, de uma palavra simpática, de um comentário feito como que de passagem, mas que devolve a fé e a alegria a quem está prestes a perdê-las.
Não há nenhuma realidade que possa ser alheia ao afã de Cristo. Falando com profundidade teológica, isto é, não nos limitando a uma classificação funcional, falando com rigor, não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres e até indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus fixou a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte; «porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na Terra como as que estão no Céu».
Havemos de amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom; o pecado de Adão é que quebrou a harmonia divina da criação. Mas Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito para restabelecer a paz, para que nós, tornados filhos por adoção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Deus.
Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que deve ser vivida com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com normalidade, mas em coerência com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31322/ (03/06/2026)