Lista de pontos

Há 3 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Coração de Cristo → o coração de Deus encarnado.

Não podemos deixar de ver que ainda está muito por fazer.

Em determinada ocasião, talvez contemplando o suave movimento das espigas já maduras, Jesus disse aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.» Tal como então, também agora faltam homens que queiram suportar «o cansaço do dia e o seu calor». E se nós, que trabalhamos, não formos fiéis, acontecerá o que escreveu o profeta Joel: «Os campos estão devastados, a terra enlutada porque o trigo foi destruído, o vinho, perdido e o azeite, estragado. Os lavradores estão desiludidos, os vinhateiros lamentam-se, por causa do trigo e da cevada, pois a colheita perdeu-se.»

Só há colheita para quem está disposto a aceitar generosamente o trabalho constante, que pode tornar-se longo e fatigante: lavrar a terra, semear, cuidar do campo, fazer a ceifa e a debulha... O Reino de Deus edifica-se na história, no tempo; é uma tarefa que o Senhor nos confiou a todos e da qual ninguém pode sentir-se dispensado. Hoje, adorando e contemplando Cristo na Eucaristia, pensemos que ainda não chegou a hora do descanso, que a jornada continua.

Diz o livro dos Provérbios que «aquele que cultiva a sua terra será saciado de pão». Tiremos a lição espiritual que estas palavras encerram: quem não lavra o terreno de Deus, quem não é fiel à missão divina de se entregar aos outros, ajudando-os a conhecer Cristo, dificilmente conseguirá entender o que é o Pão eucarístico. Ninguém aprecia aquilo que não lhe custou alcançar. Para apreciar e amar a Sagrada Eucaristia, é preciso percorrer o caminho de Jesus: ser trigo, morrer para si próprio, ressuscitar cheio de vida e dar fruto abundante, cem por um!

Esse caminho resume-se numa única palavra: amar. Amar é ter o coração grande, sentir as preocupações de quem nos rodeia, saber perdoar e compreender: sacrificar-se, com Jesus Cristo, por todas as almas. Se amarmos com o coração de Cristo, aprenderemos a servir, e defenderemos a verdade com clareza e com amor. Para amar desta maneira, cada um terá de expulsar da sua vida tudo o que estorva a vida de Cristo em nós: o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência para a exaltação pessoal. Só
poderemos transmitir a vida de Cristo aos outros reproduzindo-a em nós; só experimentando a morte do grão de trigo poderemos trabalhar nas entranhas da terra, transformá-la por dentro, torná-la fecunda.

*Homilia proferida a 17 de junho de 1966, solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Deus Pai dignou-Se conceder-nos, no coração de seu Filho, «infinitos dilectionis thesauros», tesouros infinitos de amor, de misericórdia, de ternura. Se queremos ter a prova de que Deus nos ama – de que não só escuta as nossas orações, mas Se nos antecipa –, basta-nos seguir o raciocínio de São Paulo: aquele «que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?»

A graça renova o homem por dentro e converte-o, de pecador e rebelde, em servo bom e fiel3. E a fonte de todas as graças é o amor que Deus tem por nós e nos revelou não só com palavras, mas também com atos. O amor divino fez que a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, o Filho de Deus Pai, tomasse a nossa carne, isto é, a nossa condição humana, menos o pecado. E o

Verbo, a Palavra de Deus, é Verbum spirans amorem, Palavra da qual procede o Amor.

O amor revela-se-nos na Encarnação, nessa caminhada redentora de Jesus Cristo pela Terra, até ao sacrifício supremo da cruz. E, já na cruz, exprime-se com novo sinal: «Um dos soldados traspassou-Lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água.» Água e sangue de Jesus que nos falam de uma entrega realizada até ao extremo, até ao «consummatum est», tudo está
consumado, por amor. Na festa de hoje, ao considerarmos uma vez mais os mistérios centrais da nossa fé, maravilhamo-nos com o facto de as realidades mais profundas – o amor de Deus Pai, que entrega o seu Filho, o amor do Filho, que O leva a caminhar sereno até ao Gólgota – se traduzirem em gestos muito próximos dos homens. Deus não Se dirige a nós numa atitude de poder e de domínio; aproxima-Se «tomando a condição de servo, tornando-Se
semelhante aos homens». Jesus nunca Se mostra distante e altivo, ainda que, durante os seus anos de pregação, O vejamos por vezes desgostoso, porque a maldade humana Lhe dói; mas, se repararmos melhor, percebemos que o desgosto ou a cólera provêm do amor, são um novo convite a abandonarmos a infidelidade e o pecado. «Porventura Me hei de comprazer com a morte do pecador – oráculo do Senhor Deus – e não com o facto de ele se converter
e viver?»: estas palavras explicam toda a vida de Cristo e permitem-nos compreender porque foi que Se apresentou diante de nós com um coração de carne, com um coração como o nosso, prova irrefutável de amor e testemunho constante do inefável mistério da caridade divina.

Evocámos há pouco o episódio de Naim. Poderíamos citar outros, porque os Evangelhos estão cheios de cenas semelhantes, relatos que comoveram e hão de continuar a comover o coração dos homens, porque não são apenas um gesto sincero de um homem que se compadece dos seus semelhantes, são essencialmente a revelação da imensa caridade do Senhor. O coração de Jesus é o coração de Deus Encarnado, do Emanuel, Deus connosco.

«Do coração aberto corra o manancial dos mistérios pascais da nossa redenção»: é esse coração aberto de par em par que nos transmite a vida. Como não recordar aqui, mesmo que de passagem, os sacramentos, através dos quais Deus opera em nós e nos faz participantes da força redentora de Cristo? Como não recordar com particular gratidão o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, o santo sacrifício do Calvário e a sua constante renovação incruenta na nossa Missa? É Jesus que Se nos entrega como alimento; e,
porque Jesus vem até nós, tudo muda e há no nosso ser forças – a ajuda do Espírito Santo – que enchem a alma, que conformam as nossas ações, o nosso modo de pensar e de sentir. O coração de Cristo é paz para o cristão.

O fundamento da entrega que o Senhor nos pede não são só os nossos desejos e as nossas forças, tantas vezes limitados e impotentes; são sobretudo as graças que o Amor do coração de Deus feito homem conquistou para nós. Por isso, podemos e devemos perseverar na nossa vida interior de filhos do Pai que está nos Céus, sem dar acolhimento ao desânimo nem ao desalento. Gosto de fazer considerar que o cristão, na sua existência vulgar e quotidiana,
nos mais simples pormenores, nas circunstâncias normais do seu dia a dia, exercita a fé, a esperança e a caridade, porque é nisso que reside a essência do comportamento de uma alma que conta com o auxílio divino e que encontra a alegria, a força e a serenidade na prática dessas virtudes teologais.

São estes os frutos da paz de Cristo, da paz que nos vem do seu Sacratíssimo Coração. Porque – digamo-lo uma vez mais – o amor de Jesus aos homens é um aspeto insondável do mistério divino, do amor do Filho ao Pai e ao Espírito Santo. O Espírito Santo, laço de amor entre o Pai e o Filho, encontra no Verbo um coração humano.

Não é possível falar destas realidades centrais da nossa fé sem tomar consciência das limitações da nossa inteligência e da grandeza da Revelação. Mas, embora não sejamos capazes de abarcar estas verdades, e embora a nossa razão se encha de pasmo ao contemplá-las, cremos nelas com humildade e firmeza, pois sabemos, apoiados no testemunho de Cristo, que são assim: que, no seio da Trindade, o Amor se derrama sobre todos os homens por intermédio do amor do coração de Jesus.