Lista de pontos
A filiação divina
Como se explica esta oração confiada, esta certeza de que não pereceremos na batalha? É uma convicção que assenta numa realidade que nunca me cansarei de admirar: a nossa filiação divina. O Senhor que nesta Quaresma pede a nossa conversão não é um dominador tirânico nem um juiz rígido e implacável; é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles, para nos prometer a sua amizade e o seu amor. A consciência da nossa filiação divina imprime alegria à nossa conversão: diz-nos que estamos a regressar à casa do Pai.
A filiação divina é o fundamento do espírito do Opus Dei. Todos os homens são filhos de Deus; mas um filho pode reagir de muitos modos diante de seu pai. Temos de nos esforçar por ser filhos que procuram lembrar-se de que o Senhor, amando-nos como filhos, fez que vivamos em sua casa, no meio deste mundo, que sejamos da sua família, que o que é seu seja nosso e o nosso seu, que
tenhamos com Ele aquela familiaridade e confiança que nos levam a pedir, como as crianças, a própria Lua!
Um filho de Deus trata o Senhor como Pai; não tem com Ele uma relação obsequiosa e servil, nem de reverência formal, de mera cortesia, mas uma relação cheia de sinceridade e confiança. Deus não Se escandaliza com os homens. Deus não Se cansa das nossas infidelidades. O nosso Pai do Céu perdoa qualquer ofensa quando o filho volta para Ele, quando se arrepende e pede perdão. Nosso Senhor é tão Pai que prevê os nossos desejos de sermos perdoados e Se adianta, abrindo-nos os braços com a sua graça.
Notai que não estou a inventar nada. Recordai a parábola que o Filho de Deus nos contou para nos fazer entender o amor do Pai que está nos Céus: a parábola do filho pródigo. Diz a Escritura: «Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.» São estas as palavras do livro sagrado: «cobriu-o de beijos». Será
possível falar de modo mais humano? Poderá descrever-se com maior expressividade o amor paternal de Deus pelos homens?
Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos, mas dir-Lhe-emos com São Paulo: «Abba, Pater!», Pai, meu Pai! Pois, sendo Ele o criador do Universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que O tratemos por Pai, que saboreemos essa palavra, que nos enche a alma de alegria. De certo modo, a vida humana é um constante voltar à casa do nosso Pai. E voltamos mediante a contrição, mediante uma conversão do coração que pressupõe o desejo de mudar, a firme
decisão de melhorar a nossa vida, e que, portanto, se exprime em obras de sacrifício e de entrega; voltamos à casa do Pai por meio do sacramento do perdão, no qual, confessando os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus.
Deus espera-nos como o pai da parábola, de braços abertos, embora nós não o mereçamos. Pouco importa o que Lhe devemos; tal como no caso do filho pródigo, só precisamos de Lhe abrir o coração, de ter saudades do lar paterno, de nos maravilharmos e alegrarmos com este dom divino de nos podermos chamar, e de sermos, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte,
verdadeiramente seus filhos.
Entramos assim no cânone, com a confiança filial que nos leva a chamar clementíssimo a Deus nosso Pai. Pedimos-Lhe pela Igreja e por todos os que dela fazem parte, pelo Papa, pela nossa família, pelos nossos amigos e colegas. E o católico, que tem um coração universal, pede pelo mundo inteiro, porque nada pode ficar excluído do seu zelo entusiasta. Para que a petição seja acolhida, tornamos presente a nossa memória e a nossa comunicação com a gloriosa sempre Virgem Maria e com um punhado de homens que foram os primeiros a seguir Cristo e por Ele morreram.
«Quam oblationem...»: aproxima-se o momento da consagração. Agora, na Missa, a atuação é novamente de Cristo, através do sacerdote: «Isto é o meu Corpo», «Este é o cálice do meu Sangue». Jesus está connosco! Com a transubstanciação, renova-se a infinita loucura divina, ditada pelo Amor. Quando esse momento se repetir hoje, que cada um de nós saiba dizer ao Senhor, sem ruído de palavras, que nada poderá afastar-nos d’Ele, que a sua disponibilidade de Se deixar ficar – indefeso – nas frágeis aparências do pão e do vinho fez de nós seus escravos voluntários: «Præsta meæ menti de te vivere, et te illi semper dulce sapere», que a minha alma sempre de Ti viva, que sempre lhe seja doce o teu sabor.
Mais petições, porque nós, homens, estamos quase sempre inclinados a pedir: pelos nossos irmãos defuntos e por nós próprios. Aqui, também cabem todas as nossas infidelidades e misérias; a carga é muita, mas Ele quer levá-la por nós e connosco. O cânone vai terminar com outra invocação à Santíssima Trindade: «Per ipsum, et cum ipso, et in ipso...», por Cristo, com Cristo e em Cristo, nosso Amor, a Ti, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.
Serenos, filhos de Deus
Talvez me digais: Mas são poucos os que querem ouvir isto e menos ainda os que querem pô-lo em prática. Bem sei que a liberdade é uma planta forte e sã, que se dá mal entre pedras e espinhos, ou nos caminhos calcados pelas gentes. Isto já nos tinha sido anunciado, mesmo antes de Cristo vir à Terra.
Recordai o salmo segundo: «Porque se amotinam as nações e os povos fazem planos insensatos? Revoltam-se os reis da Terra e os príncipes conspiram juntos contra o Senhor e contra o seu ungido.» Vedes? Não há nada de novo. Os homens opunham-se a Cristo antes de Ele nascer; opuseram-se a Ele enquanto percorria pacificamente os caminhos da Palestina; perseguiram-no, depois e agora, atacando os membros do seu Corpo Místico e real. Porquê tanto ódio,
porquê este encarniçamento contra a cândida simplicidade, porquê este universal esmagamento da liberdade de cada consciência?
«Quebremos as algemas e atiremos para longe de nós o seu jugo»: quebram o jugo suave, lançam fora a sua carga, maravilhosa carga de santidade e de justiça, de graça, de amor e de paz; enfurecem-se perante o amor, riem-se da bondade inerme de um Deus que renuncia ao uso das suas legiões de anjos para Se defender. Se o Senhor fizesse concessões, se sacrificasse uns quantos
inocentes para satisfazer uma maioria de culpados, ainda poderiam tentar algum entendimento com Ele. Mas a lógica de Deus não é essa. O nosso Pai é verdadeiramente pai, e está disposto a perdoar a milhares de fautores do mal, contanto que haja ao menos dez justos. Os que se movem pelo ódio não podem entender esta misericórdia, e afincam-se na sua aparente impunidade terrena, alimentando-se da injustiça.
«Aquele que habita nos Céus sorri; o Senhor escarnece deles. Depois, atemoriza-os com a sua ira e com a sua cólera confunde-os.» Que legítima é a ira de Deus, que justo é o seu furor, e que grande é também a sua clemência!
«“Fui Eu que consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!” Vou anunciar o decreto do Senhor. Ele disse-Me: “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”» A misericórdia de Deus Pai deu-nos o seu Filho como rei. Quando ameaça, enternece-Se; anuncia a sua ira e entrega-nos o seu amor. «Tu és meu filho», diz a Cristo e diz-nos a ti e a mim, se tomarmos a decisão de ser alter Christus,
ipse Christus.
As palavras não conseguem seguir o coração, que se emociona diante da bondade de Deus: «Tu és meu filho.» Não um estranho, não um servo tratado com benevolência, não um amigo, que já seria muito. Filho! Dá-nos via livre para que vivamos com Ele uma piedade de filhos e, atrever-me-ia a afirmar, também a desvergonha de filhos de um Pai que é incapaz de lhes negar o que
quer que seja.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32220/ (18/05/2026)