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A esperança do Advento
Nada mais quero dizer-vos neste primeiro domingo do Advento, quando começamos a contar os dias que nos aproximam do Natal do Salvador. Vimos a realidade da vocação cristã: que o Senhor confia em nós para levar almas à santidade, para as aproximar de Si, para as unir à Igreja e fazer chegar o Reino de Deus a todos os corações. O Senhor quer-nos entregues, fiéis, dedicados, com amor. Quer-nos santos, muito seus.
De um lado, estão a soberba, a sensualidade e o tédio, o egoísmo; do outro, o amor, a entrega, a misericórdia, a humildade, o sacrifício, a alegria. Tens de escolher. Foste chamado a uma vida de fé, de esperança e de caridade. Não podes cruzar os braços e deixar-te ficar num isolamento medíocre.
Em certa ocasião, vi uma águia fechada numa jaula de ferro. Estava suja, meio depenada e tinha entre as garras um pedaço de carne podre. Pensei no que seria de mim se abandonasse a vocação que recebi de Deus. Tive pena daquele animal solitário, aprisionado, que nascera para subir muito alto e olhar o Sol de frente. Nós temos capacidade de ascender às humildes alturas do amor de Deus, do serviço a todos os homens; mas, para isso, não pode haver na nossa alma recantos onde o sol de Cristo não consiga entrar. Temos de deitar fora todas as preocupações que nos afastem dele; e, depois, Cristo na tua inteligência, Cristo nos teus lábios, Cristo no teu coração, Cristo nas tuas obras: toda a vida – o coração e as obras, a inteligência e as palavras – cheia de Deus.
«Cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima», lemos no Evangelho. O tempo do Advento é um tempo de esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, essa unidade de vida que tem como fio condutor a presença de Deus nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária.
Pede-o a Nossa Senhora comigo, imaginando como terá passado aqueles meses, à espera do Filho que haveria de nascer. E Nossa Senhora, Santa Maria, fará que sejas alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo!
A fé em Cristo morto e ressuscitado, presente em todos e cada um dos momentos da vida, ilumina a nossa consciência, instigando-nos a participar com todas as forças nas vicissitudes e nos problemas da história humana. Nessa história, que teve início com a criação do mundo e terminará com a consumação dos séculos, o cristão não é um apátrida; é um cidadão da cidade dos homens, com a alma cheia de desejo de Deus, cujo amor começa a entrever já nesta etapa temporal, e no qual reconhece o fim a que são chamados todos os habitantes da Terra.
Se o meu testemunho pessoal tem interesse, posso dizer que sempre entendi o meu trabalho de sacerdote e de pastor de almas como uma tarefa que visa situar cada pessoa perante as exigências totais da sua vida, ajudando-a a descobrir aquilo que Deus lhe pede em concreto, sem pôr limites à santa independência e à bendita responsabilidade individual que são características de uma consciência cristã. Este comportamento e este espírito baseiam-se no respeito pela transcendência da verdade revelada e no amor à liberdade da criatura humana; poderia acrescentar que se baseiam também na certeza da indeterminação da história, aberta a múltiplas possibilidades, que Deus não quis limitar.
Seguir Cristo não significa refugiar-se no templo, encolhendo os ombros perante o desenvolvimento da sociedade, perante os acertos ou as aberrações dos homens e dos povos. Pelo contrário, a fé cristã leva-nos a ver o mundo como criação do Senhor, apreciando, portanto, tudo o que é nobre e belo, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, feita à imagem de Deus, e admirando esse dom especialíssimo que é a liberdade, pela qual somos senhores dos nossos atos e capazes, com a graça do Céu, de construir o nosso destino eterno.
Seria empequenecer a fé reduzi-la a uma ideologia terrena, arvorando um estandarte político-religioso para condenar, não se sabe em nome de que investidura divina, aqueles que têm opiniões diversas em matérias que são, pela sua própria natureza, suscetíveis de receber numerosas e diversas soluções.
Ao considerar a dignidade da missão a que Deus nos chama, talvez possa surgir presunção e soberba na alma humana. Mas uma consciência da vocação cristã que nos cegue, fazendo-nos esquecer que somos feitos de barro, que somos pó e miséria, será uma falsa consciência. Na verdade, o mal não existe apenas no mundo, à nossa volta; o mal está dentro de nós, abriga-se no nosso próprio coração, tornando-nos capazes de vilanias e de egoísmos. Só a graça de Deus é rocha firme; nós somos areia, e areia movediça.
Percorrendo com o olhar a história dos homens ou a situação atual do mundo, é doloroso verificar que, passados vinte séculos, são tão poucos os que se chamam cristãos, e os que se adornam com esse nome são tantas vezes infiéis à sua vocação. Há anos, uma pessoa que não tinha mau coração, mas não tinha fé, apontando-me o mapa-múndi, comentou: «Eis o fracasso de Cristo. Tantos séculos a tentar meter a sua doutrina na alma dos homens, e veja
o resultado: não há cristãos.»
Não falta hoje quem pense assim. Mas Cristo não fracassou; a sua palavra e a sua vida fecundam continuamente o mundo. A obra de Cristo, a tarefa que o Pai Lhe encomendou, está a realizar-se, a sua força atravessa a história, trazendo vida verdadeira; e, «quando todas as coisas Lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho Se submeterá àquele que tudo Lhe submeteu, a fim de que Deus seja tudo em todos».
Deus quis que sejamos seus cooperadores nesta tarefa que vai realizando no mundo, quis correr o risco da nossa liberdade. Emociona-me profundamente contemplar a figura de Jesus recém-nascido em Belém: é um menino indefeso, inerme, incapaz de oferecer resistência. Deus entrega-Se nas mãos dos homens, aproxima-Se, desce até nós.
Jesus Cristo, «que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo». Deus condescende com a nossa liberdade, com a nossa imperfeição, com as nossas misérias. Consente que os tesouros divinos sejam levados em vasos de barro, que os dêmos a conhecer misturando as nossas deficiências
com a sua força divina.
A liberdade pessoal
Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão «abençoar as atividades humanas» significasse anular ou escamotear a dinâmica própria destas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também porque, em certas ocasiões, a etiqueta «católico» foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos.
Se o mundo e tudo o que nele há – menos o pecado – é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus, que é uma luta positiva de amor, há de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno lado a lado com os outros cidadãos, e tem a obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.
E há um bem que deverá sempre promover de modo especial: a liberdade pessoal. Só quem defende a liberdade individual dos outros, com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá defender com honradez humana e cristã a sua. Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos presenteou com uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra dádiva maravilhosa, esta humana, a liberdade pessoal, que exige de nós – a fim de não se corromper, transformando-se em libertinagem – integridade e empenho eficaz em proceder dentro da lei divina, porque «onde está o Espírito do
Senhor, aí está a liberdade».
O Reino de Cristo é um reino de liberdade, onde não há outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos torna livres! Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos dá na gana.
Alguns de vós que me escutais conheceis-me há muitos anos; e podeis testemunhar que toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e continuo a procurá-la por toda a Terra, como Diógenes procurava um homem; e amo-a cada dia mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca apreciaremos suficientemente.
Quando falo de liberdade pessoal, não pretendo referir-me a outros problemas, talvez muito legítimos, que não competem ao meu ofício de sacerdote. Sei que não me compete tratar de matérias seculares e transitórias, que pertencem à esfera temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, porque nos sabemos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção.
Celebramos hoje a festa de Cristo Rei. E não me afasto do meu ofício de sacerdote quando digo que quem entende o Reino de Cristo como um programa político não compreendeu devidamente a finalidade sobrenatural da fé e está a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus, porque o seu jugo é suave e o seu fardo é leve. Amemos seriamente todos os homens, amemos Cristo acima de tudo; e não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32587/ (27/05/2026)