Lista de pontos
Aplicação ao nosso dia a dia
Percorremos algumas páginas dos Santos Evangelhos, para contemplar o trato de Jesus com os homens e aprender a levar Cristo aos nossos irmãos, sendo nós próprios Cristo. Apliquemos esta lição ao nosso dia a dia, à vida de cada um. Porque a nossa vida normal, a vida que vivemos entre os nossos concidadãos, não é uma realidade desprovida de relevo; é precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique.
É necessário repetir, uma e outra vez, que Jesus não Se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Deus ama todos os homens, e de todos espera amor; de todos, quaisquer que sejam a sua condição, a sua posição social, a sua profissão ou o seu ofício. A nossa vida quotidiana não é desprovida de valor; todos os caminhos da Terra podem
ser oportunidades para um encontro com Cristo, que nos chama a identificar-nos com Ele, a fim de realizarmos a sua missão divina onde nos encontramos.
Deus chama-nos através dos acontecimentos do dia a dia, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos colegas, nas minudências da vida familiar. E também nos chama através dos grandes problemas, conflitos e empreendimentos que definem cada época histórica, atraindo esforços e sonhos de grande parte da humanidade.
A impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante as injustiças individuais e sociais que o coração humano é capaz de criar são perfeitamente compreensíveis. Tantos séculos de convivência entre os homens e ainda há tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.
Os bens da Terra divididos por muito poucos; os bens da cultura encerrados em cenáculos; e, lá fora, fome de pão e de sabedoria, vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de estatísticas. Compreendo e compartilho essa impaciência, que me leva a erguer os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor.
Todas as situações da nossa vida nos trazem uma mensagem divina, nos pedem uma resposta de amor, de entrega aos outros. «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-Se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me , estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo.” Então, os justos vão responder-Lhe: “Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-
Te?” E o Rei vai dizer-lhes em resposta: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.”»
Temos de reconhecer, nos homens nossos irmãos, Cristo que vem ao nosso encontro. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; todas se entrelaçam. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade.
Não há nenhuma realidade que possa ser alheia ao afã de Cristo. Falando com profundidade teológica, isto é, não nos limitando a uma classificação funcional, falando com rigor, não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres e até indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus fixou a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte; «porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na Terra como as que estão no Céu».
Havemos de amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom; o pecado de Adão é que quebrou a harmonia divina da criação. Mas Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito para restabelecer a paz, para que nós, tornados filhos por adoção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Deus.
Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que deve ser vivida com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com normalidade, mas em coerência com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32685/ (19/05/2026)