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Há 3 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é São José → relação com Jesus.

A relação de José com Jesus

Há bastante tempo que gosto de recitar uma comovedora invocação a São José, que a própria Igreja nos propõe como oração preparatória da Missa: «São José, varão feliz, que tivestes a dita de ver e ouvir o próprio Deus a quem muitos reis quiseram ver e não viram, ouvir e não ouviram; e não só ver e ouvir, mas também trazê-lo nos braços, beijá-lo, vesti-lo e guardá-lo! Rogai por nós.» Esta oração servir-nos-á para entrar no último tema que vou tocar hoje: a íntima relação de José com Jesus.

Para São José, a vida de Jesus foi uma contínua descoberta da própria vocação. Recordámos atrás os primeiros anos, cheios de circunstâncias aparentemente contrastantes: glorificação e fuga, majestade dos Magos e pobreza da gruta, canto dos anjos e silêncio dos homens. Quando chega o momento de apresentar o Menino no Templo, José, que leva uma oferenda modesta, um par de rolas, ouve Simeão e Ana proclamarem que Jesus é o Messias. «Seu pai e sua
mãe estavam admirados com o que se dizia dele», relata São Lucas. Mais tarde, o Menino fica no Templo sem que Maria e José saibam, e, quando voltam a encontrá-lo depois de O procurarem durante três dias, o mesmo evangelista narra que «ficaram assombrados».

José surpreende-se, José admira-se. Deus vai-lhe revelando os seus desígnios e ele esforça-se por compreendê-los. Como qualquer alma que queira seguir Jesus de perto, descobre rapidamente que não é possível andar com passo ronceiro, que não se pode viver da rotina. Porque Deus não Se conforma com a estabilidade de um nível alcançado, com o descanso no que já se tem. Deus exige continuamente mais, e os seus caminhos não são os nossos caminhos
humanos. São José aprendeu com Jesus, como nenhum outro homem antes ou depois dele, a estar atento para reconhecer as maravilhas de Deus, a ter a alma e o coração abertos.

Mas, se José aprendeu com Jesus a viver de um modo divino, atrever-me-ia a dizer que, em termos humanos, ensinou muitas coisas ao Filho de Deus. O título de pai adotivo com que às vezes se designa José não me agrada totalmente, porque pode levar a pensar que as relações entre José e Jesus eram frias e exteriores. É certo que a fé nos diz que ele não era pai segundo a carne, mas essa não é a única paternidade.

Diz Santo Agostinho num dos seus sermões: «O nome de pai não só é devido a José, como lhe é devido mais que a qualquer outro. Como era pai? Era pai tanto mais profundamente quanto mais casta foi a sua paternidade. Alguns pensavam que ele era pai de Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma forma que são pais aqueles que geram segundo a carne e não recebem os filhos apenas como
fruto do seu afeto espiritual. É por isso que São Lucas diz que se supunha que era pai de Jesus. Porque diz apenas que se supunha? Porque o pensamento e o juízo humanos referem-se àquilo que costuma acontecer entre os homens. E o Senhor não nasceu do gérmen de José. Contudo, da Virgem Maria nasceu à piedade e caridade de José um filho, que era Filho de Deus.»

José amou Jesus como um pai ama o seu filho, dando-Lhe sempre o melhor que tinha. Cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, José fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício; por isso, os habitantes de Nazaré chamavam a Jesus, indistintamente, faber e faber filius, carpinteiro e filho do carpinteiro. Jesus trabalhou na oficina de José e junto de José. Como seria José, como teria a graça operado nele, para ser capaz de realizar a missão de educar o Filho de Deus a nível humano?

Porque Jesus devia ser parecido com José no modo de trabalhar, nos traços de carácter, na maneira de falar. No realismo de Jesus, no seu espírito de observação, no seu modo de se sentar à mesa e de partir o pão, no seu gosto por expor a doutrina de forma concreta, dando exemplos do dia a dia, reflete-se o que foram a sua infância e a sua juventude, e, portanto, a sua relação com José.

Não é possível ignorar a sublimidade deste mistério. Esse Jesus, que é homem, que fala com a pronúncia de uma região específica de Israel, que Se parece com um artesão chamado José, é o Filho de Deus. E quem pode ensinar o que quer que seja a Deus? Mas também é realmente homem e vive normalmente: primeiro como criança, depois como rapaz que ajuda José na sua oficina,
finalmente como homem maduro, na plenitude da idade: «Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.»

José foi, no aspeto humano, mestre de Jesus; conviveu com Ele diariamente, com afeto delicado, cuidou d’Ele com abnegação alegre; não será isto uma boa razão para termos este varão justo, este Santo Patriarca, no qual culmina a fé da antiga Aliança, por mestre de vida interior? A vida interior não é senão o trato assíduo e íntimo com Cristo, para nos identificarmos com Ele. E José saberá dizer-nos muitas coisas sobre Jesus. Por isso, não deixeis nunca de lhe ter devoção, «ite ad Joseph», como diz a tradição cristã com uma frase do Antigo Testamento.

Mestre da vida interior, trabalhador dedicado ao seu ofício, servo fiel de Deus em relação contínua com Jesus: assim é José. «Ite ad Joseph.» Com São José, o cristão aprende o que é ser de Deus e estar plenamente entre os homens, santificando o mundo. Convivei com José e encontrareis Jesus. Convivei com José e encontrareis Maria, que sempre encheu de paz a aprazível oficina de Nazaré.

Referências da Sagrada Escritura
Referências da Sagrada Escritura