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Connosco, sucedeu algo semelhante. Não teríamos grande dificuldade em identificar, na nossa família, entre os nossos amigos e colegas – já para não falar no imenso panorama do mundo –, tantas pessoas mais dignas do que nós de receber o chamamento de Cristo: mais simples, mais sábias, mais influentes, mais importantes, mais gratas, mais generosas.
Ao pensar nisto, sinto-me envergonhado. Mas também compreendo que a nossa lógica humana não se aplica às realidades da graça. Deus costuma procurar instrumentos fracos, para que seja claro e evidente que a obra é sua. São Paulo evoca a sua vocação com assombro: «Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus», escreve Saulo de Tarso, homem de uma personalidade e de um vigor que a história mais não fez do que engrandecer.
Não houve mérito algum da nossa parte, dizia-vos; porque a vocação tem por base o conhecimento da nossa miséria, a consciência de que as luzes que iluminam a alma – a fé –, o amor com que amamos – a caridade – e o desejo pelo qual nos mantemos – a esperança – são dons gratuitos de Deus. Por isso, não crescer em humildade significa perder de vista o objetivo da escolha divina: «ut essemus sancti», a santidade pessoal.
Pelo contrário, partindo dessa humildade, podemos compreender toda a maravilha do chamamento divino. A mão de Cristo colheu-nos num trigal e o semeador aperta o punhado de trigo na sua mão chagada. O sangue de Cristo banha a semente, empapa-a; depois, o Senhor atira esse trigo ao ar, para que, morrendo, seja vida e, afundando-se na terra, seja capaz de se multiplicar em espigas de ouro.
Um caminho de fé é um caminho de sacrifício. A vocação cristã não nos tira do nosso lugar, mas exige que abandonemos tudo o que estorva o querer de Deus. A luz que se acende é apenas o começo; se queremos que essa claridade seja estrela, e depois sol, temos de a seguir. Escreve São João Crisóstomo: «Enquanto estavam na Pérsia, os Magos apenas viam uma estrela; quando, porém, abandonaram a sua pátria, viram o próprio Sol da Justiça. Pode dizer-se que, se tivessem permanecido no seu país, não teriam continuado a ver a estrela. Apressemo-nos, pois, nós também; e, mesmo que
todos no-lo impeçam, corramos à casa desse Menino.»
Firmeza na vocação
«“Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.” Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele.» Esta cena repete-se nos nossos dias: perante a grandeza de Deus, perante uma decisão – seriamente humana e profundamente cristã – de viver de modo coerente com a própria fé, não falta quem estranhe, e até se escandalize, desconcertado. Dir-se-ia que estas pessoas não concebem outra realidade para além dos seus limitados horizontes terrenos. Perante as expressões de generosidade que observam no comportamento dos que ouviram o chamamento do Senhor, sorriem com displicência, assustam-se, ou então – em casos que parecem verdadeiramente patológicos – obstinam-se em levantar obstáculos à santa determinação tomada por uma consciência com plena liberdade.
Presenciei várias vezes aquilo que é uma espécie de mobilização geral contra quem havia decidido dedicar toda a sua vida ao serviço de Deus e dos outros homens. Há pessoas que estão convencidas de que o Senhor não pode escolher quem quiser sem lhes pedir autorização; e de que o homem não tem inteira liberdade para aceitar ou rejeitar o Amor. Para quem pensa desse modo, a vida sobrenatural de cada alma é um aspeto secundário, ao qual se deve dar atenção, mas só depois de satisfazer os pequenos comodismos e os egoísmos
humanos. Se fosse assim, que seria do cristianismo? As palavras de Jesus, cheias de amor e ao mesmo tempo exigentes, são apenas para serem ouvidas, ou para serem ouvidas e postas em prática? Ora, Ele disse: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.»
Nosso Senhor dirige-Se a todos os homens, chamando-os a ir ao seu encontro, para serem santos. Não chama só os Reis Magos, que eram sábios e poderosos; antes disso, tinha enviado aos pastores de Belém não já uma estrela, mas um dos seus anjos. Mas pobres e ricos, sábios e menos sábios têm de fomentar na sua alma aquela disposição humilde que permite ouvir a voz de Deus.
Considerai o caso de Herodes. Era um poderoso deste mundo e tem oportunidade de recorrer à colaboração dos sábios: «Reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.» Mas o poder e a ciência não o levam ao conhecimento de Deus. Para o seu coração empedernido, o poder e a ciência são instrumentos de maldade, do desejo inútil de aniquilar Deus, do desprezo pela vida de um punhado de crianças inocentes.
Prossigamos a leitura do Santo Evangelho: «Eles responderam: "Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: ‘E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel.’”» Estes pormenores da misericórdia divina não podem passar-nos despercebidos: Aquele que veio
redimir o mundo nasce numa aldeia perdida. É que Deus não faz aceção de pessoas, como nos repete insistentemente a Escritura; e, ao convidar uma alma para uma vida de plena coerência com a fé, não tem em conta méritos de fortuna, nobreza de família, altos graus de ciência. A vocação precede todos os méritos: «A estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou.»
A vocação é anterior a tudo; Deus ama-nos antes de sabermos sequer dirigir-nos a Ele e infunde em nós o amor com que podemos corresponder-Lhe. Na sua bondade paternal, Deus vem ao nosso encontro14. Nosso Senhor não é apenas justo, é muito mais do que isso: é misericordioso. Não espera que nos dirijamos a Ele; antecipa-Se a nós, com expressões inequívocas de carinho paterno.
A arriscada segurança do Cristão
«Qui habitat in adiutorio Altissimi, in protectione Dei coeli commorabitur»: habitar sob a proteção de Deus, viver com Deus, eis a arriscada segurança do cristão. Temos de estar convencidos de que Deus nos ouve, de que está sempre atento; assim, o nosso coração encher-se-á de paz. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta em partilhar: quer tudo. E aproximar-se um pouco mais d’Ele significa estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir com mais atenção as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.
Certamente que, desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua palavra. Mas não é verdade que ainda há tanto por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É indubitavelmente necessária uma nova mudança, uma lealdade mais plena, uma humildade mais profunda,
de modo que, diminuindo o nosso egoísmo, Cristo cresça em nós, pois «illum oportet crescere, me autem minui», Ele é que deve crescer, e eu diminuir.
Não podemos ficar parados. Temos de avançar para a meta que São Paulo apontava: «Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim». A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas, para quem deseja ser coerente com a vida divina que, pelo batismo, Deus fez nascer na nossa alma, não há outro caminho: o avanço é progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo
do amor de Deus tem de ser alimentado, tem de aumentar todos os dias, arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, quando não aumenta, está a caminho de se extinguir. Recordai as palavras de Santo Agostinho: «Se disseres basta, estás perdido. Procura sempre mais, caminha sempre, progride sempre. Não permaneças no mesmo sítio, não retrocedas, não te desvies.»
A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo, em desejos de santidade, em generosidade apostólica no meu dia a dia, no meu trabalho habitual entre os meus companheiros de profissão?
Cada um responda a estas perguntas sem ruído de palavras e verá que é necessária uma nova transformação, para que Cristo viva em nós, para que a sua imagem se reflita limpidamente no nosso comportamento.
«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me.» Cristo diz-no-lo de novo, a nós, intimamente: a cruz de cada dia. Escreve São Jerónimo: «Não só em tempo de perseguição, ou quando se apresenta a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo
que éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo.»
Na verdade, estas considerações mais não são que o eco das do apóstolo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz – pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade –, procurando discernir o que é agradável ao Senhor.»
A conversão é coisa de um instante; a santificação é uma tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs na nossa alma, aspira a crescer, a expressar-se em obras, a dar frutos que sejam, em cada momento, agradáveis ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar – nas novas situações da nossa vida – a luz e o impulso da primeira conversão. E é por essa razão que havemos de nos preparar com um
exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para podermos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor a nós próprios. Não há outro caminho para nos convertermos de novo.
A luta interior
São Paulo recomenda-nos que suportemos os trabalhos como bons soldados de Cristo. A vida do cristão é milícia, guerra, uma belíssima guerra de paz, que em nada coincide com os empreendimentos bélicos dos homens, porque estes se inspiram em divisões e, muitas vezes, em ódios, enquanto a guerra dos filhos de Deus contra o seu próprio egoísmo assenta na unidade e no amor. «Pois, embora vivamos numa natureza frágil, não lutamos por motivos humanos. As armas do nosso combate não são de origem humana, mas, por Deus, são capazes de destruir fortalezas. Destruímos os sofismas e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus.» É a escaramuça sem tréguas contra o orgulho, contra a prepotência que nos dispõe a fazer o mal, contra os juízos soberbos.
Neste Domingo de Ramos em que Nosso Senhor dá início à semana decisiva para a nossa salvação, deixemo-nos de considerações superficiais e vamos ao que é central, ao que é verdadeiramente importante. Pensai no seguinte: aquilo que havemos de pretender é ir para o Céu; senão, nada vale a pena. Para irmos para o Céu, é indispensável sermos fiéis à doutrina de Cristo. Para sermos fiéis, é indispensável porfiarmos com constância no combate contra os obstáculos que se opõem à nossa felicidade eterna.
Sei que, ao ouvir falar em combate, pensamos imediatamente na nossa debilidade e prevemos as quedas, os erros. Deus conta com isso. É inevitável que, ao caminhar, levantemos pó. Somos criaturas e estamos cheios de defeitos; eu diria até que eles têm de existir sempre, pois são a sombra que faz destacar mais, por contraste, a graça de Deus e o nosso esforço por corresponder aos favores divinos. E esse claro-escuro tornar-nos-á humanos, humildes, compreensivos, generosos.
Não nos enganemos: se contamos com brio e com vitórias na nossa vida, também temos de contar com quedas e derrotas. Essa foi sempre a peregrinação terrena do cristão, incluindo a daqueles que veneramos nos altares. Recordai Pedro, Agostinho, Francisco. Nunca gostei das biografias dos santos que, com ingenuidade, mas também com falta de doutrina, nos apresentam as façanhas desses homens como se estivessem confirmados em graça desde o seio materno. Não. As verdadeiras biografias dos heróis cristãos
são como a nossa vida: lutavam e ganhavam, lutavam e perdiam; e então, contritos, voltavam à luta.
Não nos cause estranheza o facto de sermos derrotados com relativa frequência, habitualmente, ou talvez sempre, em matérias de pouca importância, que nos ferem como se tivessem muita. Quando há amor de Deus, quando há humildade, quando há perseverança e tenacidade na nossa peleja, essas derrotas não terão demasiada importância; porque virão as vitórias, que serão glória aos olhos de Deus. Quando agimos com retidão de intenção e queremos cumprir a vontade de Deus, contando sempre com a sua graça e com o nosso nada, não há fracassos.
Ter intimidade com o Espírito Santo
Viver segundo o Espírito Santo é viver de fé, de esperança, de caridade; é deixar que Deus tome posse de nós e nos transforme radicalmente o coração, fazendo-o à sua medida. Uma vida cristã madura, profunda e firme não se improvisa; é fruto do crescimento da graça de Deus em nós. Nos Atos dos Apóstolos, a situação da primitiva comunidade cristã é descrita numa frase breve, mas cheia de sentido: «Eram assíduos ao ensino dos apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações.»
Foi assim que viveram os primeiros cristãos e é assim que nós devemos viver. A substância última do nosso comportamento há de ser a meditação da doutrina da fé até a tornarmos nossa, o encontro com Cristo na Eucaristia, e o diálogo pessoal – a oração sem anonimato – cara a cara com Deus. Sem isso, talvez haja reflexão
erudita, atividade mais ou menos intensa, devoções e práticas piedosas; não haverá, porém, uma existência cristã autêntica, porque faltará a compenetração com Cristo, a participação real e vivida na obra divina da salvação.
Esta doutrina aplica-se a qualquer cristão, porque todos estamos igualmente chamados à santidade. Não há cristãos de segunda, que só estejam obrigados a pôr em prática uma versão reduzida do Evangelho; todos recebemos o mesmo batismo e, embora exista uma ampla diversidade de carismas e de situações humanas, um mesmo é o Espírito que distribui os dons divinos, uma mesma a fé, uma mesma a esperança, uma a caridade.
Podemos, pois, assumir que aquela pergunta do apóstolo: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?» também nos foi dirigida, e recebê-la como um convite a um trato mais pessoal e direto com Deus. Infelizmente, o Paráclito é, para alguns cristãos, o Grande Desconhecido: um nome que se pronuncia, mas que não é Alguém, uma das três Pessoas do Deus único, com quem se fala e de quem se vive.
Ora, é indispensável tratá-lo com assídua simplicidade e com confiança, como a Igreja nos ensina a fazer através da liturgia. Assim, conheceremos melhor Nosso Senhor e, ao mesmo tempo, teremos uma consciência mais plena do imenso dom que é chamarmo-nos cristãos, compreendendo a grandeza e a verdade do endeusamento, da participação na vida divina a que atrás me referi.
Porque «o Espírito Santo não é um artista que desenhe em nós a substância divina como se a ela fosse alheio; não é assim que Ele nos conduz à semelhança divina. Ele mesmo, que é Deus e de Deus procede, Se imprime nos corações que O recebem, à maneira de selo sobre a cera, e é assim, por comunicação de Si e por semelhança, que restabelece a natureza segundo a beleza do modelo
divino, restituindo ao homem a imagem de Deus».
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/33083/ (18/05/2026)