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Há 2 pontos em «Em diálogo com o Senhor» cujo tema é Jesus Cristo .

Lógica humana e lógica divina

Quem é capaz de precisar como se toma a decisão inicial de entrega, quando nasce essa primeira ingenuidade e – repito – essa falta de lógica? Uma entrega – eu tenho a minha experiência, e cada um de vós tem a sua – que é necessário renovar a cada instante, cada dia e, em algumas ocasiões, muitas vezes por dia, talvez perdida já a candura dos primeiros momentos. Por nos termos aproximado de Cristo e termos sentido bater com força, com muita força, o seu coração, e termos chegado a saborear as suas delícias, que são «estar Ele com os filhos dos homens»3 – por tudo isso, sabemos o que vale o amor de Deus.

Sim, é preciso renovar a entrega; é preciso voltar a pronunciar: Senhor, amo-Te, e dizê-lo com toda a alma. Ainda que a parte sensível não nos acompanhe, dir-Lho-emos com o calor da graça e com a nossa vontade: Meu Jesus, Rei do universo, nós amamos-Te.

Quero insistir na falta de lógica humana a que assistimos ao longo destes quarenta e dois anos da nossa história. Encontrámos, meus filhos, o Herodes que quis matar esta grande realidade divina – não é uma ilusão – da nossa vida, uma realidade que nos fez mudar totalmente. A Obra também encontrou Herodes, mais de uma vez, no seu caminho. Mas tranquilos, tranquilos! Não deixámos tantas coisas – os magos fizeram o mesmo, abandonando o seu lugar de residência, onde teriam provavelmente poder e seriam considerados pessoas de muita categoria –, não deixámos os nossos interesses pessoais a troco de uma bagatela. Agora, sabemos muito claramente que o motivo divino que nos inquietou e nos arrancou da nossa indolência é um motivo que vale a pena. Vale a pena! Convém-nos ser fiéis; convém-nos ter tanto amor que na nossa vida não haja lugar para o temor.

O mundo está revolto e a Igreja também. Talvez o mundo esteja como está porque a Igreja se encontra assim... Gostaria que tivésseis no centro do coração aquele grito do ceguinho do Evangelho1, para Ele nos fazer ver as coisas do mundo com segurança e com clareza. Para isso, basta-vos obedecer no pouco que vos mandam, seguindo as indicações que os diretores vos dão.

Dizei muitas vezes ao Senhor, procurando a sua presença: Domine, ut videam!: Senhor, faz com que eu veja! Ut videamus!: que vejamos as coisas claras, no meio desta espécie de revolução, que não o é; é uma coisa satânica... Amemos cada dia mais a Igreja e o Romano Pontífice – que título tão bonito, o de Romano Pontífice! –, e amemos cada dia mais tudo o que Cristo Jesus nos ensinou nos seus anos de peregrinação pela Terra.

Tende muito amor à Santíssima Trindade. Tende um carinho constante pela Mãe de Deus, invocando-a muitas vezes. Só assim andaremos bem. Não separeis José de Jesus e de Maria, porque o Senhor uniu-os de maneira maravilhosa. E depois, que cada um cumpra o seu dever, que cada um faça o seu trabalho, que é oração. Todos os instantes da nossa vida são oração. O trabalho, se o fizermos com a ordem devida, não nos tira o pensamento de Deus; reforça-nos o desejo de fazer tudo por Ele, de viver por Ele, com Ele, nele.

Dir-vos-ei o mesmo de sempre, porque a verdade só tem um caminho: Deus está nos nossos corações. Ele tomou posse da nossa alma em graça, e podemos procurá-lo dentro de nós; não só no tabernáculo, onde sabemos que Se encontra verdadeiramente – façamos um ato de fé explícita –, com o seu corpo, o seu sangue, a sua alma e a sua divindade, o Filho de Maria, aquele que trabalhou em Nazaré e nasceu em Belém, que morreu no Calvário, que ressuscitou; aquele que veio à Terra e padeceu tanto por nosso amor. Isto não vos diz nada, meus filhos? Amor! A nossa vida tem de ser de amor; o nosso protesto tem de ser amar, responder com um ato de amor a tudo o que seja desamor, falta de amor.

O Senhor vai empurrando a Obra. Tantas vocações em todo o mundo! Este ano, espero muitas vocações em Itália, como em todo o mundo, mas isso depende, em boa medida, de vós e de mim, de que vivamos uma vida de fé, de que estejamos constantemente unidos – como acabo de dizer – a Jesus, Maria e José.

Meus filhos, parece-vos que estou sério, mas não estou. Estou só um bocadinho cansado.

Diga cada um, por si mesmo e pelos outros: Domine, ut videam!: Senhor, que eu veja; que eu veja com os olhos da minha alma, com os olhos da fé, com os olhos da obediência, com a limpeza da minha vida. Que eu veja com a minha inteligência, para defender o Senhor em todos os ambientes do mundo, porque em todos eles há uma revolta que visa expulsar Cristo, até de sua casa.

O demónio existe e trabalha muito. O demónio tem um empenho particular em desfazer a Igreja e nos roubar a alma, em nos afastar do nosso caminho divino, de cristãos que querem viver como cristãos. Vós e eu temos de lutar, meus filhos, todos os dias. Teremos de lutar até ao último dia da nossa vida! Quem não o fizer, não somente sentirá no fundo da sua alma um grito que lhe recordará que é um cobarde – Domine, ut videam!, ut videamus!, ut videant!, peço por todos, fazei vós o mesmo –, mas compreenderá que vai ser infeliz e tornar infelizes os outros; porque tem obrigação de enviar a todos a ajuda do seu bom espírito e, se tiver mau espírito, enviar-nos-á sangue podre, um sangue que não deveria vir até nós.

Padre, o Padre tem chorado? Um pouco, porque todos os homens choram de vez em quando. Não sou chorão, mas, vez por outra, choro. Não vos envergonheis de chorar: só os animais é que não choram. Não vos envergonheis de amar: temos de nos querer com todo o coração, pondo entre nós o coração de Cristo e o coração dulcíssimo de Santa Maria. E assim, deixa de haver medo. Vamos querer-nos bem, tratar-nos com afeto. Que ninguém se sinta só!

Meus filhos, amai a todos. Nós não queremos mal a ninguém; mas o que é verdade, e era verdade ontem, e era verdade há vinte séculos, continua a ser verdade hoje! O que era falso não pode converter-se em verdadeiro. O que era um vício não passou a ser uma virtude. Não posso dizer o contrário. Continua a ser um vício!

Meus filhos, apesar deste prelúdio, tenho de vos repetir que estejais alegres. O Padre está muito contente, e quer que as suas filhas e os seus filhos de todo o mundo estejam muito contentes. Insisto: invocai no vosso coração, com um trato constante, a trindade da Terra, Jesus, Maria e José, para que estejamos perto dos três, e possamos vencer todas as coisas do mundo, e todas as ciladas de Satanás. Desta maneira, cada um de nós será uma ajuda para todos os que fazem parte desta grande família do Opus Dei, que é uma família que trabalha. Quem não trabalha tem de perceber que não está a fazer bem... Um trabalho que não é somente humano – somos homens, tem de ser um trabalho humano –, mas sobrenatural, porque nunca nos falta a presença de Deus, o trato com Deus, a conversa com Deus. Com São Paulo, diremos que a nossa conversa está nos Céus.

Portanto, meus filhos, o Padre está contente. O Padre tem coração e dá graças a Deus Nosso Senhor por lho ter concedido. Por isso, posso amar-vos, e amo-vos – bem o sabeis – com todo o coração. Vamos dizer, todos unidos, esta jaculatória: Domine, ut videam!: que cada um veja. Ut videamus!: que nos lembremos de pedir que os outros vejam. Ut videant!: que peçamos a luz divina para todas as almas sem exceção.

Notas
3

Prov 8, 31.

Referências da Sagrada Escritura
Notas
1

Cf. Lc 28, 41.

Referências da Sagrada Escritura