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Há 4 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Amor humano .

Para um cristão, o matrimónio não é uma simples instituição social e menos ainda um remédio para as fraquezas humanas; é uma autêntica vocação sobrenatural. Sacramento grande em Cristo e na Igreja, como diz São Paulo, é, simultânea e inseparavelmente, um contrato que um homem e uma mulher fazem para sempre, pois, quer queiramos quer não, o matrimónio instituído por Jesus Cristo é indissolúvel, sinal sagrado que santifica, ação de Jesus que invade a alma dos cônjuges e os convida a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino pela Terra.

As pessoas casadas são chamadas a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união; cometeriam, por isso, um grave erro se edificassem a sua vida espiritual de costas para a própria família e à margem dela. A vida em casa, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço para sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social – tudo isso são situações humanas e vulgares que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar.

A fé e a esperança hão de evidenciar-se na serenidade com que se encaram os grandes ou pequenos problemas que surgem em todas as famílias, no empenho com que se persevera no cumprimento do próprio dever. Deste modo, a caridade preencherá todos os momentos, levando a partilhar alegrias e possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo as preocupações pessoais para dar atenção aos outros; a escutar o outro cônjuge e os filhos, mostrando-lhes que são deveras amados e compreendidos; a não dar valor a pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a realizar com grande amor os pequenos serviços que compõem a convivência diária.

Santificar o quotidiano doméstico, criando um autêntico e afetuoso ambiente de família: é disso que se trata. Para santificar cada um dos dias, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs; primeiro as teologais, e depois todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, o trabalho, a alegria... Ao falar do matrimónio e da vida matrimonial, temos de começar por uma referência clara ao amor dos cônjuges.

A santidade do amor humano

O amor puro e limpo dos esposos é uma realidade santa que eu, como sacerdote, abençoo com ambas as mãos. A tradição cristã viu frequentemente na presença de Jesus nas bodas de Caná uma confirmação do valor divino do matrimónio: «O nosso Salvador foi às bodas santificar o princípio da geração humana», escreve São Cirilo de Alexandria.

O matrimónio é um sacramento que faz de dois corpos uma só carne; diz a teologia, com expressão forte, que a matéria deste sacramento são os próprios corpos dos contraentes. O Senhor santifica e abençoa o amor do marido à mulher e o amor da mulher ao marido; e não ordenou apenas a fusão das suas almas, mas também a dos corpos. Nenhum cristão, esteja ou não chamado à vida matrimonial, pode depreciá-la.

O Criador deu-nos inteligência, que é uma centelha do entendimento divino e nos permite – juntamente com a vontade livre, outro dom de Deus – conhecer e amar; e concedeu ao nosso corpo a possibilidade de gerar, que é uma participação no seu poder criador. Deus quis servir-Se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da sua Igreja. O sexo não é uma realidade vergonhosa; é uma dádiva divina, que se ordena limpamente à vida, ao amor e à fecundidade.

É esse o contexto, o pano de fundo da doutrina cristã sobre a sexualidade. A nossa fé não ignora nenhuma realidade bela, generosa e genuinamente humana deste mundo; e ensina-nos que a regra do nosso viver não deve ser a busca egoísta do prazer, porque só a renúncia e o sacrifício levam ao verdadeiro amor. Deus amou-nos e convida-nos a amá-lo e a amar os outros com a verdade e a autenticidade com que Ele nos ama. «Aquele que conservar a vida para si há de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de Mim há de salvá-la», escreve São Mateus no seu Evangelho, com uma frase que parece paradoxal.

Uma pessoa autocentrada, que procura antes de mais a própria satisfação, põe em risco a sua salvação eterna e, já aqui na Terra, é inevitavelmente infeliz. Só quem se esquece de si para se entregar a Deus e aos outros – também no casamento – pode ser feliz neste mundo, com uma felicidade que é uma preparação e uma antecipação do Céu.

Durante o nosso caminhar terreno, a dor é a pedra de toque do amor. Considerando as coisas de maneira descritiva, poderíamos dizer que, no estado matrimonial, há anverso e reverso: por um lado, a alegria de se saber amado, o entusiasmo por edificar e manter uma família, o amor conjugal, o consolo de ver crescer os filhos; por outro, dores e contrariedades, o passar do tempo, que consome o corpo e ameaça azedar o carácter, a monotonia dos dias aparentemente sempre iguais.

Teria fraco conceito do casamento e do afeto humano quem pensasse que o amor e a alegria acabam quando surgem estas dificuldades. Pelo contrário, é precisamente nessa altura que os sentimentos que animavam as duas pessoas revelam a sua verdadeira natureza, que a entrega e a ternura ganham raízes e se exprimem com um afeto autêntico e profundo, mais poderoso que a morte.

A figura de São José no Evangelho

Tanto São Mateus como São Lucas nos dizem que São José era descendente de uma estirpe ilustre, a estirpe de David e Salomão, reis de Israel. Historicamente, os pormenores dessa ascendência são algo confusos: não sabemos qual das duas genealogias enunciadas pelos evangelistas corresponde a Maria – Mãe de Jesus segundo a carne – e qual corresponde a São José, que era seu pai segundo a lei judaica. Nem sabemos se a cidade natal de José era Belém, onde foi recensear-se, ou Nazaré, onde vivia e trabalhava.

Sabemos, no entanto, que não era uma pessoa rica: era um trabalhador, como milhões de homens de todo o mundo, e exercia o fatigante e humilde ofício que Deus tinha escolhido para Si ao tomar a nossa carne e decidir viver trinta anos como um de nós. 

A Sagrada Escritura diz que José era artesão, e vários Padres acrescentam que foi carpinteiro. São Justino, ao falar da vida de trabalho de Jesus, afirma que fazia arados e jugos; talvez com base nestas palavras, Santo Isidoro de Sevilha concluiu que José era ferreiro. Seja como for, era um operário que trabalhava ao serviço dos seus concidadãos, que tinha uma ocupação manual, fruto de anos de esforço e de suor.

As narrações evangélicas revelam a grande personalidade humana de São José: em nenhum momento nos aparece como um homem acanhado ou assustado perante a vida; pelo contrário, sabe enfrentar os problemas, ultrapassar as situações difíceis, assumir com responsabilidade e iniciativa as tarefas que lhe são encomendadas.

Não estou de acordo com a forma clássica de representar São José como um homem de idade avançada, apesar da intenção positiva de salientar a virgindade perpétua de Maria. Por mim, imagino-o jovem, forte, talvez com mais alguns anos que Nossa Senhora, mas na pujança da idade e das forças humanas.

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pela falta de vigor. A pureza nasce do amor, e a robustez e alegria da juventude não são obstáculos ao amor limpo. Jovens eram o coração e o corpo de São José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o mistério da sua maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria legar ao mundo como mais um sinal da sua vinda ao meio das criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade.

Como dizíamos, José era um artesão da Galileia, um homem como tantos outros. E que pode esperar da vida um habitante de uma aldeia perdida como Nazaré? Apenas trabalho, todos os dias, sempre com o mesmo esforço; e, no fim da jornada, uma casa pobre e pequena, para recuperar forças e recomeçar a faina no dia seguinte.

Mas o nome de José significa, em hebraico, «Deus acrescentará»: Deus acrescenta dimensões insuspeitadas à vida santa daqueles que cumprem a sua vontade; acrescenta o importante, o que dá valor a tudo, o divino. À vida humilde e santa de São José, Deus acrescentou – se me é permitido falar assim – a vida da Virgem Maria e a de Jesus Nosso Senhor. Deus nunca permite que Lhe ganhem em generosidade. José podia fazer suas aquelas palavras de Santa Maria, sua esposa: «quia fecit mihi magna qui potens est», o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, «quia respexit humilitatem», porque pôs os olhos na humildade da sua serva.

José era efetivamente um homem comum, em quem Deus confiou para fazer coisas grandes. Soube viver todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida exatamente como o Senhor queria; por isso, a Sagrada Escritura louva José afirmando que era justo, um termo que, em hebraico, significa piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade divina; outras vezes significa bom e caritativo com o próximo. Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor cumprindo os seus mandamentos e orientando toda a sua vida para o serviço dos homens seus irmãos.

Levar o amor de Cristo aos outros

Mas reparai que Deus não nos declara: em vez do coração, dar-vos-ei uma vontade de espíritos puros. Não; Ele dá-nos um coração, e um coração de carne, como o de Cristo. Não tenho um coração para amar Deus e outro para amar as pessoas da Terra; é com o coração com que amei os meus pais e amo os meus amigos, é com esse mesmo coração que amo a Cristo, o Pai, o Espírito Santo e Santa Maria. Não me cansarei de vos repetir: temos de ser muito humanos, senão também não podemos ser divinos.

O amor humano, o amor deste mundo, quando é verdadeiro, ajuda-nos a saborear o amor divino. Desta maneira, entrevemos o amor com que havemos de gozar de Deus e o que teremos entre nós no Céu, quando o Senhor for «tudo em todos». Este começar a entender o que é o amor divino levar-nos-á a ser habitualmente mais compassivos, mais generosos, mais entregues.

Havemos de dar o que recebemos, de ensinar o que aprendemos; de levar os outros a participarem – sem presunção, com simplicidade – desse conhecimento do amor de Cristo. Ao fazer, cada um de vós, o seu trabalho, no exercício da sua profissão na sociedade, podeis e deveis transformar essa ocupação num serviço. O trabalho bem feito, que progride e faz progredir, que tem em conta os desenvolvimentos da cultura e da técnica, realiza uma função
importante, útil a toda a humanidade, quando o seu motor não é o egoísmo, mas a generosidade, não é o proveito próprio, mas o bem de todos; quando está cheio do sentido cristão da vida.

No contexto desse trabalho e da rede de relações humanas que ele promove, haveis de mostrar a caridade de Cristo e os seus resultados concretos de amizade, de compreensão, de afeto humano e de paz. Assim como Cristo andou por todos os caminhos da Palestina fazendo o bem, assim também vós tendes de fazer uma grande sementeira de paz nos caminhos humanos da família, da
sociedade civil, das relações profissionais, da cultura e do descanso. Esta será a prova mais acabada de que o Reino de Deus chegou ao vosso coração: «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos», escreve o apóstolo São João.

Mas ninguém vive esse amor se não se formar na escola do coração de Jesus. Só olhando e contemplando o coração de Cristo conseguiremos que o nosso se liberte do ódio e da indiferença; só assim saberemos reagir cristãmente diante dos sofrimentos alheios, diante da dor.

Recordai a cena da entrada de Cristo na cidade de Naim, que São Lucas nos conta: ao ver a angústia daquelas pessoas, com quem Se cruzou por acaso, Jesus podia ter passado ao largo, ou ter esperado que O chamassem e Lhe pedissem alguma coisa; mas nem Se vai embora nem fica na expectativa. Toma a iniciativa, comovido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa
que lhe restava, o filho.

Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu; talvez a sua comoção tivesse manifestações exteriores, como aquando da morte de Lázaro. Jesus não era, não é, insensível à dor que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais; Ele venceu a morte para dar a vida, para que aqueles que se amam possam estar juntos, embora exija, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve conformar uma existência autenticamente cristã.

Cristo sabe que está rodeado por uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que apregoará o sucedido por toda a região. Mas o gesto do Senhor não é artificial, não visa dar nas vistas; Jesus ficou realmente afetado pelo sofrimento daquela mulher e não pode deixar de a consolar. Por isso, aproxima-Se e diz-lhe: «Não chores»; que é como se lhe dissesse: Não quero ver-te nesse pranto, porque Eu vim trazer alegria e paz a este mundo. E, a seguir, faz o milagre, manifestação do poder de Cristo Deus. Mas primeiro a sua alma comoveu-se, em manifestação evidente da ternura do coração de Cristo Homem.