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Há 5 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Castidade.

A concupiscência da carne não é só a tendência desordenada dos sentidos em geral, ou da apetência sexual, que não é má em si mesma, pois é uma realidade humana nobre e santificável, mas deve ser ordenada. Notai que nunca falo de impureza, mas de pureza, porque aquelas palavras de Cristo: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» se aplicam a todos. Por vocação divina, uns viverão essa pureza no matrimónio; outros, renunciando aos amores humanos para corresponderem única e apaixonadamente ao amor de Deus. Nem uns nem outros serão escravos da sensualidade, mas senhores do seu corpo e do seu coração para poderem dá-los, sacrificadamente, a outros.

Ao tratar a virtude da pureza, costumo acrescentar o qualificativo de «santa». A pureza cristã, a santa pureza, não é o orgulho de se sentir puro, não contaminado; é saber que temos os pés de barro, embora a graça de Deus nos livre, dia após dia das ciladas do inimigo. Considero que a insistência de alguns em escrever ou pregar quase exclusivamente sobre esta matéria, esquecendo outras virtudes que são capitais para o cristão e, em geral, para a convivência entre os homens, é uma deformação do cristianismo.

A santa pureza não é a única nem a principal virtude cristã; contudo, é indispensável para perseverar no esforço diário pela nossa santificação e, sem ela, a dedicação ao apostolado não é possível. A pureza é uma consequência do amor com que entregámos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação, é uma afirmação jubilosa.

Dizia que a concupiscência da carne não se reduz à desordem da sensualidade; também se traduz no comodismo, na falta de vibração que incita a procurar o que é mais fácil, o que é mais agradável, o atalho aparentemente mais curto, mesmo à custa de ceder na fidelidade a Deus.

Ter esse comportamento é render-se incondicionalmente ao império de uma das leis, a lei do pecado, contra a qual São Paulo nos previne: «Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável sou eu! Quem me há de libertar deste corpo que pertence à morte?». Ouvi a resposta do apóstolo: a graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Podemos e devemos lutar contra a concupiscência da carne, porque, se formos humildes, a graça do Senhor nunca nos faltará.

A santidade do amor humano

O amor puro e limpo dos esposos é uma realidade santa que eu, como sacerdote, abençoo com ambas as mãos. A tradição cristã viu frequentemente na presença de Jesus nas bodas de Caná uma confirmação do valor divino do matrimónio: «O nosso Salvador foi às bodas santificar o princípio da geração humana», escreve São Cirilo de Alexandria.

O matrimónio é um sacramento que faz de dois corpos uma só carne; diz a teologia, com expressão forte, que a matéria deste sacramento são os próprios corpos dos contraentes. O Senhor santifica e abençoa o amor do marido à mulher e o amor da mulher ao marido; e não ordenou apenas a fusão das suas almas, mas também a dos corpos. Nenhum cristão, esteja ou não chamado à vida matrimonial, pode depreciá-la.

O Criador deu-nos inteligência, que é uma centelha do entendimento divino e nos permite – juntamente com a vontade livre, outro dom de Deus – conhecer e amar; e concedeu ao nosso corpo a possibilidade de gerar, que é uma participação no seu poder criador. Deus quis servir-Se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da sua Igreja. O sexo não é uma realidade vergonhosa; é uma dádiva divina, que se ordena limpamente à vida, ao amor e à fecundidade.

É esse o contexto, o pano de fundo da doutrina cristã sobre a sexualidade. A nossa fé não ignora nenhuma realidade bela, generosa e genuinamente humana deste mundo; e ensina-nos que a regra do nosso viver não deve ser a busca egoísta do prazer, porque só a renúncia e o sacrifício levam ao verdadeiro amor. Deus amou-nos e convida-nos a amá-lo e a amar os outros com a verdade e a autenticidade com que Ele nos ama. «Aquele que conservar a vida para si há de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de Mim há de salvá-la», escreve São Mateus no seu Evangelho, com uma frase que parece paradoxal.

Uma pessoa autocentrada, que procura antes de mais a própria satisfação, põe em risco a sua salvação eterna e, já aqui na Terra, é inevitavelmente infeliz. Só quem se esquece de si para se entregar a Deus e aos outros – também no casamento – pode ser feliz neste mundo, com uma felicidade que é uma preparação e uma antecipação do Céu.

Durante o nosso caminhar terreno, a dor é a pedra de toque do amor. Considerando as coisas de maneira descritiva, poderíamos dizer que, no estado matrimonial, há anverso e reverso: por um lado, a alegria de se saber amado, o entusiasmo por edificar e manter uma família, o amor conjugal, o consolo de ver crescer os filhos; por outro, dores e contrariedades, o passar do tempo, que consome o corpo e ameaça azedar o carácter, a monotonia dos dias aparentemente sempre iguais.

Teria fraco conceito do casamento e do afeto humano quem pensasse que o amor e a alegria acabam quando surgem estas dificuldades. Pelo contrário, é precisamente nessa altura que os sentimentos que animavam as duas pessoas revelam a sua verdadeira natureza, que a entrega e a ternura ganham raízes e se exprimem com um afeto autêntico e profundo, mais poderoso que a morte.

Essa autenticidade do amor exige fidelidade e retidão em todas as relações matrimoniais. Comenta São Tomás de Aquino que Deus uniu um prazer, uma satisfação, às diversas funções da vida humana; prazer e satisfação esses que são, por conseguinte, bons. Mas se o homem, invertendo a ordem das coisas, procura essa emoção como valor último, desprezando o bem e o fim a que deve estar ligada e ordenada, perverte-a e desnaturaliza-a, convertendo-a em pecado ou em ocasião de pecado.

A castidade – que não é simples continência, mas afirmação decidida de uma vontade apaixonada – é uma virtude que mantém a juventude do amor em qualquer estado de vida. Existe uma castidade dos que sentem despertar neles o desenvolvimento da puberdade, uma castidade dos que se preparam para casar, uma castidade daqueles que Deus chama ao celibato, uma castidade dos que foram escolhidos por Deus para viver no matrimónio.

Como não recordar as palavras fortes e claras com que a Vulgata nos transmitiu a recomendação que o arcanjo Rafael fez a Tobias antes de ele desposar Sara? «Disse-lhe o anjo: “Escuta-me e mostrar-te-ei quem são aqueles contra quem o demónio pode prevalecer. São os que abraçam o casamento de tal modo que excluem Deus do seu coração e da sua mente e se entregam à paixão como o cavalo e o burro, que carecem de entendimento; é sobre esses que o demónio tem poder.”»

No casamento, só há amor humano claro, franco e alegre quando os cônjuges vivem a virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o ordena à fecundidade e à entrega. Nunca falei de impureza e evitei sempre descer a casuísticas mórbidas e sem sentido; mas falei muitíssimas vezes, e devo falar, de castidade e de pureza, da afirmação jubilosa do amor.

No que respeita à castidade conjugal, garanto aos esposos que não devem ter medo de manifestar o seu afeto, antes pelo contrário, porque essa inclinação é a base da sua vida familiar. O que o Senhor lhes pede é que se respeitem mutuamente e sejam mutuamente leais, que se comportem com delicadeza, com naturalidade, com modéstia. Dir-lhes-ei também que as relações conjugais são dignas quando são uma prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos.

Secar as fontes da vida é um crime contra os dons que Deus concedeu à humanidade, e manifestação de que o comportamento não é inspirado pelo amor, mas pelo egoísmo. Então, tudo se turva, porque os cônjuges acabam por se olhar como cúmplices; e surgem dissensões que, continuando nessa linha, são quase sempre insanáveis.

Quando a castidade conjugal está presente no amor, a vida matrimonial é expressão de uma conduta autêntica, marido e mulher compreendem-se e sentem-se unidos; pelo contrário, quando o bem divino da sexualidade se perverte, a intimidade destrói-se, e marido e mulher deixam de conseguir olhar-se de frente com nobreza.

Os esposos devem edificar a sua convivência sobre um afeto sincero e puro, e sobre a alegria de terem trazido ao mundo os filhos que Deus lhes deu a possibilidade de terem, sabendo, se for necessário, renunciar a comodidades pessoais e confiando na Providência divina. Formar uma família numerosa, se tal for a vontade de Deus, é uma garantia de felicidade e de eficácia, mesmo que os defensores equivocados de um triste hedonismo afirmem outra coisa.

A figura de São José no Evangelho

Tanto São Mateus como São Lucas nos dizem que São José era descendente de uma estirpe ilustre, a estirpe de David e Salomão, reis de Israel. Historicamente, os pormenores dessa ascendência são algo confusos: não sabemos qual das duas genealogias enunciadas pelos evangelistas corresponde a Maria – Mãe de Jesus segundo a carne – e qual corresponde a São José, que era seu pai segundo a lei judaica. Nem sabemos se a cidade natal de José era Belém, onde foi recensear-se, ou Nazaré, onde vivia e trabalhava.

Sabemos, no entanto, que não era uma pessoa rica: era um trabalhador, como milhões de homens de todo o mundo, e exercia o fatigante e humilde ofício que Deus tinha escolhido para Si ao tomar a nossa carne e decidir viver trinta anos como um de nós. 

A Sagrada Escritura diz que José era artesão, e vários Padres acrescentam que foi carpinteiro. São Justino, ao falar da vida de trabalho de Jesus, afirma que fazia arados e jugos; talvez com base nestas palavras, Santo Isidoro de Sevilha concluiu que José era ferreiro. Seja como for, era um operário que trabalhava ao serviço dos seus concidadãos, que tinha uma ocupação manual, fruto de anos de esforço e de suor.

As narrações evangélicas revelam a grande personalidade humana de São José: em nenhum momento nos aparece como um homem acanhado ou assustado perante a vida; pelo contrário, sabe enfrentar os problemas, ultrapassar as situações difíceis, assumir com responsabilidade e iniciativa as tarefas que lhe são encomendadas.

Não estou de acordo com a forma clássica de representar São José como um homem de idade avançada, apesar da intenção positiva de salientar a virgindade perpétua de Maria. Por mim, imagino-o jovem, forte, talvez com mais alguns anos que Nossa Senhora, mas na pujança da idade e das forças humanas.

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pela falta de vigor. A pureza nasce do amor, e a robustez e alegria da juventude não são obstáculos ao amor limpo. Jovens eram o coração e o corpo de São José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o mistério da sua maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria legar ao mundo como mais um sinal da sua vinda ao meio das criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade.

Como dizíamos, José era um artesão da Galileia, um homem como tantos outros. E que pode esperar da vida um habitante de uma aldeia perdida como Nazaré? Apenas trabalho, todos os dias, sempre com o mesmo esforço; e, no fim da jornada, uma casa pobre e pequena, para recuperar forças e recomeçar a faina no dia seguinte.

Mas o nome de José significa, em hebraico, «Deus acrescentará»: Deus acrescenta dimensões insuspeitadas à vida santa daqueles que cumprem a sua vontade; acrescenta o importante, o que dá valor a tudo, o divino. À vida humilde e santa de São José, Deus acrescentou – se me é permitido falar assim – a vida da Virgem Maria e a de Jesus Nosso Senhor. Deus nunca permite que Lhe ganhem em generosidade. José podia fazer suas aquelas palavras de Santa Maria, sua esposa: «quia fecit mihi magna qui potens est», o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, «quia respexit humilitatem», porque pôs os olhos na humildade da sua serva.

José era efetivamente um homem comum, em quem Deus confiou para fazer coisas grandes. Soube viver todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida exatamente como o Senhor queria; por isso, a Sagrada Escritura louva José afirmando que era justo, um termo que, em hebraico, significa piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade divina; outras vezes significa bom e caritativo com o próximo. Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor cumprindo os seus mandamentos e orientando toda a sua vida para o serviço dos homens seus irmãos.

Fé, amor, esperança: estes são os eixos da vida de São José, e de toda a vida cristã. A entrega de São José aparece-nos tecida pelo entrecruzar de um amor fiel, de uma fé amorosa e de uma esperança confiada. A sua festa é, por isso, uma boa altura para renovarmos a nossa entrega à vocação de cristãos que o Senhor concedeu a cada um de nós.

Quando se deseja sinceramente viver de fé, de amor e de esperança, a renovação da entrega não consiste em retomar uma coisa que tinha entrado em desuso. Quando há fé, amor e esperança, renovar-se é – apesar dos erros pessoais, das quedas, das debilidades – manter-se nas mãos de Deus, confirmando um caminho de fidelidade. Renovar a entrega é, repito, renovar a fidelidade àquilo que o Senhor quer de nós: um amor com obras.

O amor tem, naturalmente, manifestações próprias. Às vezes, fala-se do amor como se fosse uma procura de satisfação pessoal ou um mero recurso para completar egoisticamente a própria personalidade. E não é assim; o amor verdadeiro consiste em sair de si mesmo, em entregar-se. O amor é fonte de alegria, mas é uma alegria que tem as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos neste mundo e não tivermos chegado à plenitude da vida futura,
não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que pode ser amada, que é uma fonte de satisfação profunda, mas que é uma dor real, porque implica vencer o nosso egoísmo e tomar o Amor como regra de todas e cada uma das nossas ações.