Lista de pontos
Cumpriu a vontade de Deus, seu Pai
Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos disser que Jesus continua a procurar pousada no nosso coração. Temos de Lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão, e a graça de nunca mais Lhe fecharmos a porta da nossa alma.
O Senhor não nos esconde que a obediência rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega, porque o amor não reclama direitos: quer servir. Ele foi o primeiro a percorrer este caminho. Jesus, como obedeceste Tu? «Usque ad mortem, mortem autem crucis», até à morte, e morte de cruz. Temos de sair de nós próprios, de permitir que a nossa vida se complique, de perder a vida por amor a Deus e às almas. «Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa. São duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a vontade de Deus, e não a de Deus torcida para se acomodar à tua.»
Com alegria, tenho visto muitas almas entregarem a vida – como Tu, Senhor, usque ad mortem – cumprindo o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando o seu esforço e o seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.
Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir; não há maior nobreza que querer entregar-se voluntariamente a ser útil aos outros. Quando sentimos o orgulho a ferver dentro de nós, a soberba a fazer-nos pensar que somos super-homens, é altura de dizer não, de dizer que o nosso único triunfo há de ser o da humildade. Assim, identificar-nos-emos com Cristo na cruz, e não o faremos incomodados, ou inquietos, ou de mau humor, mas alegres, porque essa alegria no esquecimento de si mesmo é a melhor prova de amor.
Recordar a um cristão que o sentido da sua vida é obedecer à vontade de Deus não é separá-lo dos outros homens. Pelo contrário, em muitos casos, o mandamento recebido do Senhor é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou, vivendo junto dos outros e tal como os outros, entregando-nos ao serviço do Senhor no mundo, para dar a conhecer melhor a todas as almas o amor de Deus; para lhes dizer que se abriram os caminhos divinos da Terra.
O Senhor não Se limitou a dizer que nos amava; demonstrou-o com obras. Não nos esqueçamos de que Jesus encarnou para nos ensinar a viver a vida dos filhos de Deus. Recordai o preâmbulo dos Atos dos Apóstolos, pela mão do evangelista São Lucas: «Primum quidem sermonem feci de omnibus, o Theophile, quæ cœpit Jesus facere et docere», falei das coisas mais notáveis que Jesus fez e ensinou. Ele veio ensinar, mas fazendo; veio ensinar, mas sendo modelo, sendo Mestre e exemplo com o seu comportamento.
Aqui, diante de Jesus Menino, podemos prosseguir o nosso exame pessoal: estamos decididos a procurar que a nossa vida sirva de modelo e de ensinamento aos homens nossos irmãos, nossos iguais? Estamos decididos a ser outros Cristos? Não basta dizer de boca. Tu – pergunto-o a cada um de vós e pergunto-o a mim mesmo –, tu, que, por seres cristão, estás chamado a ser outro Cristo, mereces que se repita de ti que vieste facere et docere, fazer tudo como um filho de Deus, atento à vontade de seu Pai, para, deste modo, poderes levar todas as almas a participar das coisas boas, nobres, divinas e humanas da redenção? Estás a viver a vida de Cristo no teu dia a dia no meio do mundo?
Fazer as obras de Deus não é um bonito jogo de palavras; é um convite a gastar-se por amor. Temos de morrer para nós próprios a fim de renascermos para uma vida nova. Porque foi assim que Jesus obedeceu, até à morte de cruz, «mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum», e por isso Deus O exaltou. Se obedecermos à vontade de Deus, a cruz será também ressurreição, exaltação. A vida de Cristo cumprir-se-á em nós, passo a passo; poder-se-á dizer que vivemos procurando ser bons filhos de Deus, que passámos fazendo o bem, apesar da nossa fraqueza e dos nossos erros pessoais, por mais numerosos que sejam.
E, quando vier a morte, que virá inexoravelmente, esperá-la-emos com júbilo, como vi que souberam esperá-la tantas pessoas santas no meio da sua existência comum. Com alegria, porque, se imitámos Cristo a fazer o bem – a obedecer e a carregar a cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: «surrexit Dominus vere!», que ressuscitou realmente.
Jesus, que Se fez menino – meditai nisto –, venceu a morte. Com o aniquilamento, com a simplicidade, com a obediência, com a divinização do vulgar dia a dia das criaturas, o Filho de Deus foi vencedor. Este foi o triunfo de Cristo. Deste modo, elevou-nos ao seu nível, ao nível dos filhos de Deus, descendo ao nosso terreno, o terreno dos filhos dos homens.
Ao narrar estas cenas no seu Evangelho, São Mateus ressalta constantemente a fidelidade de José, que cumpre os mandatos de Deus sem vacilar, ainda que, por vezes, o sentido desses mandatos possa parecer-lhe obscuro ou se lhe oculte a relação dos mesmos com o resto dos planos divinos.
Os Padres da Igreja e os autores espirituais fazem ressaltar múltiplas vezes a firmeza da fé de São José. Referindo-se às palavras do anjo, que lhe ordena que fuja de Herodes e se refugie no Egito, comenta o Crisóstomo: «Ao ouvir isto, São José não se escandalizou nem disse: “Isto é um enigma; ainda há pouco me davas a conhecer que Ele salvaria o seu povo e agora não é sequer capaz de Se salvar a Si próprio e temos de fugir, de empreender uma viagem e fazer uma grande deslocação; isto é contrário à tua promessa”. José não discorre deste modo, porque é um varão fiel. Também não pergunta pelo tempo de regresso, apesar de o anjo o não ter determinado, posto que lhe tinha dito: “Fica lá – no Egito – até que eu te diga”. Nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê, e suporta alegremente todas as provas»
A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre rigorosa e rápida. Para compreendermos melhor esta lição do Santo Patriarca, consideremos que a sua fé é ativa e a sua docilidade não é a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque não há coisa que mais se oponha ao conformismo ou à falta de atividade e de energia interiores do que a fé cristã.
José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca fugiu a refletir sobre os acontecimentos, o que lhe permitiu alcançar do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria. Deste modo, aprendeu a pouco e pouco que os desígnios sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.
Nas diversas circunstâncias da sua vida, o patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando regressa do Egito, «tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá»: aprendeu a operar dentro do plano divino e, como confirmação de
que Deus queria efetivamente o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.
A fé de São José foi assim: plena, confiada, íntegra, expressa numa entrega eficaz à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a fé, a caridade, o amor. A sua fé funde-se com o Amor: com o amor a Deus, que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o seu afeto de esposo por Maria e com o seu afeto de pai por Jesus. Fé e amor na esperança da grande missão a que Deus, servindo-Se também dele – um carpinteiro da
Galileia –, estava a dar início no mundo: a redenção dos homens.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31188/ (23/05/2026)