Lista de pontos
Cumpriu a vontade de Deus, seu Pai
Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos disser que Jesus continua a procurar pousada no nosso coração. Temos de Lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão, e a graça de nunca mais Lhe fecharmos a porta da nossa alma.
O Senhor não nos esconde que a obediência rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega, porque o amor não reclama direitos: quer servir. Ele foi o primeiro a percorrer este caminho. Jesus, como obedeceste Tu? «Usque ad mortem, mortem autem crucis», até à morte, e morte de cruz. Temos de sair de nós próprios, de permitir que a nossa vida se complique, de perder a vida por amor a Deus e às almas. «Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa. São duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a vontade de Deus, e não a de Deus torcida para se acomodar à tua.»
Com alegria, tenho visto muitas almas entregarem a vida – como Tu, Senhor, usque ad mortem – cumprindo o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando o seu esforço e o seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.
Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir; não há maior nobreza que querer entregar-se voluntariamente a ser útil aos outros. Quando sentimos o orgulho a ferver dentro de nós, a soberba a fazer-nos pensar que somos super-homens, é altura de dizer não, de dizer que o nosso único triunfo há de ser o da humildade. Assim, identificar-nos-emos com Cristo na cruz, e não o faremos incomodados, ou inquietos, ou de mau humor, mas alegres, porque essa alegria no esquecimento de si mesmo é a melhor prova de amor.
Imitar Maria
A nossa Mãe é modelo de correspondência à graça; contemplando a sua vida, o Senhor dar-nos-á luz para aprendermos a divinizar a nossa existência vulgar. Nós, cristãos, pensamos muitas vezes em Nossa Senhora, quer ao longo do ano, quando celebramos as festas marianas, quer em diversos momentos do nosso dia; se aproveitarmos esses instantes para imaginar como faria a nossa Mãe as tarefas que temos de realizar, iremos aprendendo pouco a pouco e acabaremos por nos parecer com ela, como os filhos se parecem com a mãe.
Podemos imitar, em primeiro lugar, o seu amor. A caridade não se fica pelos sentimentos: há de estar presente nas palavras e, sobretudo, nas obras; a Virgem Maria não se limitou a dizer «fiat», mas cumpriu em cada momento essa decisão firme e irrevogável. Também nós, quando o amor de Deus nos ferir e soubermos o que Ele quer, devemos comprometer-nos a ser fiéis, leais, e sê-lo efetivamente; porque «nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu».
Havemos de imitar a sua elegância, natural e sobrenatural. Maria é uma criatura privilegiada na história da salvação, porque nela «o Verbo fez-Se homem e veio habitar connosco». Foi uma testemunha delicada, que soube passar despercebida, porque não foi amiga de receber louvores nem ambicionou a própria glória. Maria assiste aos mistérios da infância de seu Filho, mistérios, se assim se pode dizer, cheios de normalidade; mas, aquando dos grandes
milagres e das aclamações das massas, desaparece. Em Jerusalém, quando Cristo – montado sobre um jumentinho – é vitoriado como Rei, Maria não está presente; mas reaparece junto da cruz, quando todos fogem. Este comportamento tem um sabor de grandeza discreta, de profundidade, de santidade da alma.
Seguindo o seu exemplo de obediência a Deus, procuremos aprender essa delicada combinação de submissão e fidalguia. Maria não tem aquela atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas; Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe, e depois entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» Vedes que maravilha? Santa Maria, mestra de todo o nosso proceder, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, mas move-nos interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32731/ (21/05/2026)