Lista de pontos
O outro inimigo, escreve São João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas aquilo que se pode tocar. Os olhos ficam como que agarrados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não são capazes de descobrir as realidades sobrenaturais. Podemos, portanto, utilizar esta expressão da Sagrada Escritura para referir a avareza dos bens materiais, mas também aquela deformação que nos leva a observar aquilo que nos rodeia – os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo – com uma visão apenas humana.
Os olhos da alma embotam-se; a razão julga-se autossuficiente, capaz de tudo compreender, prescindindo de Deus. É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência de que Deus nosso Pai dotou o homem, a fim de poder conhecê-lo e amá-lo livremente. Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do Universo, entusiasma-se de novo com o «sereis como Deus» e, enchendo-se de amor a si mesma, vira as costas ao amor de Deus.
Quando tal acontece, a nossa existência pode entregar-se sem condições nas mãos do terceiro inimigo, a superbia vitæ. Não se trata apenas de pensamentos efémeros de vaidade e amor-próprio; é uma presunção generalizada. Não nos enganemos, porque este é o pior dos males, a raiz de todos os extravios. A luta contra a soberba há de ser constante, pois não é em vão que se diz, de modo gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da pessoa. É a altivez do fariseu, que Deus Se mostra renitente em justificar, porque encontra nele uma barreira de autossuficiência; é a arrogância que leva a desprezar os outros, a dominá-los, a maltratá-los, porque onde há soberba, há também ofensa e desonra.
Ouro, incenso e mirra
«Videntes autem stellam, gavisi sunt gaudio magno valde», diz o texto latino com admirável reiteração: ao descobrirem novamente a estrela, alegraram-se com grande alegria. E porquê tanta alegria? Porque os Magos, que nunca duvidaram, recebem do Senhor a prova de que a estrela não tinha desaparecido; haviam deixado de a contemplar sensivelmente, mas tinham-na conservado sempre na alma. O mesmo se passa com a vocação do cristão:
se não perder a fé, se mantiver a esperança em Jesus Cristo, que estará connosco «até ao fim dos tempos», a estrela reaparece. E, ao ver novamente demonstrada a realidade da vocação, nasce uma alegria maior, que aumenta em nós a fé, a esperança e o amor.
«Entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe. Prostrando-se, adoraram-no.» Também nós nos prostramos diante de Jesus, do Deus escondido na humanidade, repetindo-Lhe que não queremos voltar as costas ao seu chamamento divino, que nunca nos afastaremos dele, que arredaremos do nosso caminho tudo o que for um estorvo para a fidelidade; que desejamos sinceramente ser dóceis às suas inspirações. Tu, na tua alma, e eu também
– porque estou a fazer uma oração íntima, com um profundo clamor silencioso – dizemos agora ao Menino que aspiramos a ser tão cumpridores como os servos da parábola, para que também a nós se possa dizer: «Muito bem, servo bom e fiel.»
«E, abrindo os cofres, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.» Detenhamo-nos um pouco a analisar este passo do Santo Evangelho. Como é possível que nós, que nada somos e nada valemos, façamos oferendas a Deus? Diz a Escritura que «toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto». O homem nem sequer consegue compreender por completo a profundidade e a beleza das dádivas do Senhor: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar», diz Jesus à mulher samaritana. Cristo ensinou-nos a esperar tudo do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o resto nos será dado por acréscimo, e Ele conhece bem as nossas necessidades.
Na economia da salvação, o nosso Pai cuida de cada alma com delicadeza amorosa: «Cada um recebe de Deus o seu próprio carisma, um de uma maneira, outro de outra.» Poderia, pois, parecer inútil tentarmos apresentar ao Senhor algo de que Ele tivesse necessidade; dada a nossa situação de devedores que não têm com que saldar as dívidas, as nossas ofertas assemelhar-se-iam às da
antiga Lei, que Deus já não aceita: «Não quiseste nem Te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados», que eram oferecidos segundo a Lei.
Mas o Senhor sabe que dar é próprio dos apaixonados e até nos diz o que deseja de nós: não Lhe interessam riquezas, nem frutos nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso Lhe pertence; quer algo íntimo, que havemos de Lhe entregar com liberdade: «Meu filho, dá-me o teu coração.» Vedes? Não Lhe basta partilhar: quer tudo. Repito, Ele não pretende o que é nosso; quer-
-nos a nós. É daí, e só daí, que advêm todas as outras oferendas que podemos fazer ao Senhor.
Dêmos-Lhe, portanto, ouro: o ouro fino do espírito de desprendimento do dinheiro e dos bens materiais. Não esqueçamos que são coisas boas, que vêm de Deus. Mas o Senhor dispôs que as utilizemos sem nelas deixarmos o coração, fazendo-as render em proveito da humanidade.
Os bens da terra não são maus. Quando o homem os toma como ídolos e se prostra diante deles, pervertem-se; mas tornam-se nobres quando os transformamos em instrumentos para o bem, com uma atitude cristã de justiça e de caridade. Não podemos ir atrás dos bens económicos como quem anda à procura de um tesouro; o nosso tesouro está aqui, deitado num presépio: é Cristo, e nele se hão de centrar todos os nossos amores, porque «onde estiver o
teu tesouro, aí estará também o teu coração».
A impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante as injustiças individuais e sociais que o coração humano é capaz de criar são perfeitamente compreensíveis. Tantos séculos de convivência entre os homens e ainda há tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.
Os bens da Terra divididos por muito poucos; os bens da cultura encerrados em cenáculos; e, lá fora, fome de pão e de sabedoria, vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de estatísticas. Compreendo e compartilho essa impaciência, que me leva a erguer os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor.
Todas as situações da nossa vida nos trazem uma mensagem divina, nos pedem uma resposta de amor, de entrega aos outros. «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-Se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me , estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo.” Então, os justos vão responder-Lhe: “Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-
Te?” E o Rei vai dizer-lhes em resposta: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.”»
Temos de reconhecer, nos homens nossos irmãos, Cristo que vem ao nosso encontro. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; todas se entrelaçam. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31220/ (24/05/2026)