6
O outro inimigo, escreve São João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas aquilo que se pode tocar. Os olhos ficam como que agarrados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não são capazes de descobrir as realidades sobrenaturais. Podemos, portanto, utilizar esta expressão da Sagrada Escritura para referir a avareza dos bens materiais, mas também aquela deformação que nos leva a observar aquilo que nos rodeia – os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo – com uma visão apenas humana.
Os olhos da alma embotam-se; a razão julga-se autossuficiente, capaz de tudo compreender, prescindindo de Deus. É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência de que Deus nosso Pai dotou o homem, a fim de poder conhecê-lo e amá-lo livremente. Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do Universo, entusiasma-se de novo com o «sereis como Deus» e, enchendo-se de amor a si mesma, vira as costas ao amor de Deus.
Quando tal acontece, a nossa existência pode entregar-se sem condições nas mãos do terceiro inimigo, a superbia vitæ. Não se trata apenas de pensamentos efémeros de vaidade e amor-próprio; é uma presunção generalizada. Não nos enganemos, porque este é o pior dos males, a raiz de todos os extravios. A luta contra a soberba há de ser constante, pois não é em vão que se diz, de modo gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da pessoa. É a altivez do fariseu, que Deus Se mostra renitente em justificar, porque encontra nele uma barreira de autossuficiência; é a arrogância que leva a desprezar os outros, a dominá-los, a maltratá-los, porque onde há soberba, há também ofensa e desonra.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/6/ (18/05/2026)