Lista de pontos
O outro inimigo, escreve São João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas aquilo que se pode tocar. Os olhos ficam como que agarrados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não são capazes de descobrir as realidades sobrenaturais. Podemos, portanto, utilizar esta expressão da Sagrada Escritura para referir a avareza dos bens materiais, mas também aquela deformação que nos leva a observar aquilo que nos rodeia – os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo – com uma visão apenas humana.
Os olhos da alma embotam-se; a razão julga-se autossuficiente, capaz de tudo compreender, prescindindo de Deus. É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência de que Deus nosso Pai dotou o homem, a fim de poder conhecê-lo e amá-lo livremente. Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do Universo, entusiasma-se de novo com o «sereis como Deus» e, enchendo-se de amor a si mesma, vira as costas ao amor de Deus.
Quando tal acontece, a nossa existência pode entregar-se sem condições nas mãos do terceiro inimigo, a superbia vitæ. Não se trata apenas de pensamentos efémeros de vaidade e amor-próprio; é uma presunção generalizada. Não nos enganemos, porque este é o pior dos males, a raiz de todos os extravios. A luta contra a soberba há de ser constante, pois não é em vão que se diz, de modo gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da pessoa. É a altivez do fariseu, que Deus Se mostra renitente em justificar, porque encontra nele uma barreira de autossuficiência; é a arrogância que leva a desprezar os outros, a dominá-los, a maltratá-los, porque onde há soberba, há também ofensa e desonra.
Não esqueçais que, por vezes, não é possível evitar os conflitos entre os esposos. Nunca discutais diante dos vossos filhos; fá-los-eis sofrer e eles tomarão partido, contribuindo talvez para aumentar inconscientemente a vossa desunião. Mas discutir, desde que não seja com frequência, também é uma expressão de amor, quase uma necessidade. A ocasião, não o motivo, costuma ser o cansaço do marido, esgotado pelo seu trabalho profissional; a fadiga – oxalá não seja aborrecimento – da mulher, que teve de lidar com os filhos, com a gestão da casa e com o seu próprio carácter, às vezes pouco firme – embora, quando querem, as mulheres sejam mais fortes que os homens.
Evitai a soberba, que é o maior inimigo da vossa relação conjugal: nos pequenos conflitos, nenhum dos dois tem razão. Aquele que estiver mais sereno dirá uma palavra que contenha o mau humor até uma ocasião posterior; e, nessa altura – já a sós –, então discuti, que depois fareis as pazes.
Vós, mulheres, pensai que talvez vos descuideis um pouco no arranjo pessoal e recordai aquele provérbio de que a mulher composta tira o homem de outra porta. O dever de vos mostrardes agradáveis como quando éreis namoradas não perde atualidade, e é um dever de justiça, porque pertenceis ao vosso marido; e ele também não deve esquecer que é vosso e que tem a obrigação de
ser, durante toda a vida, carinhoso como um namorado. Será mau sinal se sorrirdes com ironia ao ler este parágrafo; será uma demonstração evidente de que o afeto familiar se transformou numa indiferença que gela.
*Homilia proferida a 6 de janeiro de 1956, solenidade da Epifania do Senhor
Há relativamente pouco tempo, tive oportunidade de admirar um baixo-relevo em mármore que representa a cena da adoração de Deus Menino pelos Reis Magos. Emoldurando esse baixo-relevo, havia quatro anjos, cada um com seu símbolo: um diadema, o mundo coroado pela cruz, uma espada e um cetro. Ficava assim graficamente ilustrado, com recurso a sinais reconhecíveis, o acontecimento que hoje comemoramos: uns homens sábios – diz a tradição que eram reis – prostram-se diante de um Menino depois de perguntarem em Jerusalém: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?»
Também eu, instado por esta pergunta, contemplo Jesus «deitado numa manjedoura», que é própria apenas para animais. Onde está, Senhor, a tua realeza: o diadema, a espada, o cetro? Pertencem-Lhe e Ele não os quer; reina envolto em paninhos. É um rei inerme, que Se nos apresenta indefeso: é uma criança pequena. Como não havemos de recordar aquelas palavras do apóstolo: «Esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo»?
Nosso Senhor encarnou para nos dar a conhecer a vontade do Pai. E começa a instruir-nos logo do berço. Jesus procura-nos – com uma vocação que é vocação para a santidade – para com Ele consumarmos a redenção. Considerai o seu primeiro ensinamento: havemos de corredimir procurando triunfar não sobre o próximo, mas sobre nós mesmos. Tal como Cristo, precisamos de nos
apagar, de nos sentir servos dos outros, para os levarmos a Deus.
Onde está o Rei? Não será que Jesus quer reinar, antes de mais, no coração, no teu coração? É por isso que Se faz Menino: pois quem pode deixar de amar uma criancinha? Onde está o Rei? Onde está o Cristo que o Espírito Santo procura formar na nossa alma? Não pode estar na soberba, que nos separa de Deus, não pode estar na falta de caridade, que nos isola. Cristo não pode estar
aí; aí, o homem fica só.
No dia da Epifania, prostrados aos pés de Jesus Menino, diante de um Rei que não ostenta sinais exteriores de realeza, podeis dizer-Lhe: Senhor, tira a soberba da minha vida; quebra o meu amor-próprio, esta vontade de me afirmar e me impor aos outros. Faz que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo.
Colírio nos olhos
O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em se fecharem voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é a luz, lhes abrisse os olhos. Esta intransigência tem resultados imediatos na vida de relação com os nossos semelhantes. O fariseu que, por considerar que é luz, não deixa que Deus lhe abra os olhos tratará o próximo com soberba e injustiça: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos», reza; e insulta o cego de nascença, que insiste em contar a verdade sobre a cura milagrosa: «“Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?” E puseram-no fora».
Entre os que não conhecem Cristo, há muitos homens honrados que, por elementar consideração, sabem portar-se delicadamente: são sinceros, cordiais, educados. Se eles e nós não nos opusermos a que Cristo cure a cegueira que ainda existe nos nossos olhos, se permitirmos que o Senhor nos aplique essa lama que, nas suas mãos, se converte no mais eficaz colírio, captaremos as
realidades terrenas e vislumbraremos as eternas com uma luz nova, a luz da fé: teremos adquirido um olhar limpo.
Esta é a vocação do cristão: a plenitude dessa caridade que é paciente, prestável, não é invejosa, não é arrogante nem orgulhosa, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade de Cristo não é apenas um bom sentimento em relação ao próximo; não se limita ao gosto pela filantropia. A caridade infundida por Deus na alma transforma a inteligência e a vontade a partir de dentro, fundamentando sobrenaturalmente a amizade e a alegria de fazer o bem.
Contemplai a cena da cura do coxo que os Atos dos Apóstolos nos contam. Pedro e João subiam ao Templo e, ao passar, encontraram sentado à porta um homem que era coxo de nascença. Tudo recorda a cura do cego de que falávamos; desta vez, porém, os discípulos não pensam que aquela desgraça se deve aos pecados pessoais do doente ou às faltas dos seus pais, e dizem-lhe: «Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!» Anteriormente,
eram todos incompreensão, agora misericórdia; anteriormente, julgavam com temeridade, agora curam milagrosamente em nome do Senhor. É sempre Cristo que passa! Cristo, que continua a passar pelas ruas e pelas praças do mundo através dos seus discípulos, os cristãos. Peço-Lhe fervorosamente que passe pela alma de alguns dos que me escutam nestes momentos.
Ao considerar a dignidade da missão a que Deus nos chama, talvez possa surgir presunção e soberba na alma humana. Mas uma consciência da vocação cristã que nos cegue, fazendo-nos esquecer que somos feitos de barro, que somos pó e miséria, será uma falsa consciência. Na verdade, o mal não existe apenas no mundo, à nossa volta; o mal está dentro de nós, abriga-se no nosso próprio coração, tornando-nos capazes de vilanias e de egoísmos. Só a graça de Deus é rocha firme; nós somos areia, e areia movediça.
Percorrendo com o olhar a história dos homens ou a situação atual do mundo, é doloroso verificar que, passados vinte séculos, são tão poucos os que se chamam cristãos, e os que se adornam com esse nome são tantas vezes infiéis à sua vocação. Há anos, uma pessoa que não tinha mau coração, mas não tinha fé, apontando-me o mapa-múndi, comentou: «Eis o fracasso de Cristo. Tantos séculos a tentar meter a sua doutrina na alma dos homens, e veja
o resultado: não há cristãos.»
Não falta hoje quem pense assim. Mas Cristo não fracassou; a sua palavra e a sua vida fecundam continuamente o mundo. A obra de Cristo, a tarefa que o Pai Lhe encomendou, está a realizar-se, a sua força atravessa a história, trazendo vida verdadeira; e, «quando todas as coisas Lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho Se submeterá àquele que tudo Lhe submeteu, a fim de que Deus seja tudo em todos».
Deus quis que sejamos seus cooperadores nesta tarefa que vai realizando no mundo, quis correr o risco da nossa liberdade. Emociona-me profundamente contemplar a figura de Jesus recém-nascido em Belém: é um menino indefeso, inerme, incapaz de oferecer resistência. Deus entrega-Se nas mãos dos homens, aproxima-Se, desce até nós.
Jesus Cristo, «que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo». Deus condescende com a nossa liberdade, com a nossa imperfeição, com as nossas misérias. Consente que os tesouros divinos sejam levados em vasos de barro, que os dêmos a conhecer misturando as nossas deficiências
com a sua força divina.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31277/ (23/05/2026)