Lista de pontos
Cumpriu a vontade de Deus, seu Pai
Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos disser que Jesus continua a procurar pousada no nosso coração. Temos de Lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão, e a graça de nunca mais Lhe fecharmos a porta da nossa alma.
O Senhor não nos esconde que a obediência rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega, porque o amor não reclama direitos: quer servir. Ele foi o primeiro a percorrer este caminho. Jesus, como obedeceste Tu? «Usque ad mortem, mortem autem crucis», até à morte, e morte de cruz. Temos de sair de nós próprios, de permitir que a nossa vida se complique, de perder a vida por amor a Deus e às almas. «Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa. São duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a vontade de Deus, e não a de Deus torcida para se acomodar à tua.»
Com alegria, tenho visto muitas almas entregarem a vida – como Tu, Senhor, usque ad mortem – cumprindo o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando o seu esforço e o seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.
Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir; não há maior nobreza que querer entregar-se voluntariamente a ser útil aos outros. Quando sentimos o orgulho a ferver dentro de nós, a soberba a fazer-nos pensar que somos super-homens, é altura de dizer não, de dizer que o nosso único triunfo há de ser o da humildade. Assim, identificar-nos-emos com Cristo na cruz, e não o faremos incomodados, ou inquietos, ou de mau humor, mas alegres, porque essa alegria no esquecimento de si mesmo é a melhor prova de amor.
Colírio nos olhos
O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em se fecharem voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é a luz, lhes abrisse os olhos. Esta intransigência tem resultados imediatos na vida de relação com os nossos semelhantes. O fariseu que, por considerar que é luz, não deixa que Deus lhe abra os olhos tratará o próximo com soberba e injustiça: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos», reza; e insulta o cego de nascença, que insiste em contar a verdade sobre a cura milagrosa: «“Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?” E puseram-no fora».
Entre os que não conhecem Cristo, há muitos homens honrados que, por elementar consideração, sabem portar-se delicadamente: são sinceros, cordiais, educados. Se eles e nós não nos opusermos a que Cristo cure a cegueira que ainda existe nos nossos olhos, se permitirmos que o Senhor nos aplique essa lama que, nas suas mãos, se converte no mais eficaz colírio, captaremos as
realidades terrenas e vislumbraremos as eternas com uma luz nova, a luz da fé: teremos adquirido um olhar limpo.
Esta é a vocação do cristão: a plenitude dessa caridade que é paciente, prestável, não é invejosa, não é arrogante nem orgulhosa, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade de Cristo não é apenas um bom sentimento em relação ao próximo; não se limita ao gosto pela filantropia. A caridade infundida por Deus na alma transforma a inteligência e a vontade a partir de dentro, fundamentando sobrenaturalmente a amizade e a alegria de fazer o bem.
Contemplai a cena da cura do coxo que os Atos dos Apóstolos nos contam. Pedro e João subiam ao Templo e, ao passar, encontraram sentado à porta um homem que era coxo de nascença. Tudo recorda a cura do cego de que falávamos; desta vez, porém, os discípulos não pensam que aquela desgraça se deve aos pecados pessoais do doente ou às faltas dos seus pais, e dizem-lhe: «Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!» Anteriormente,
eram todos incompreensão, agora misericórdia; anteriormente, julgavam com temeridade, agora curam milagrosamente em nome do Senhor. É sempre Cristo que passa! Cristo, que continua a passar pelas ruas e pelas praças do mundo através dos seus discípulos, os cristãos. Peço-Lhe fervorosamente que passe pela alma de alguns dos que me escutam nestes momentos.
A verdadeira devoção ao coração de Cristo
Consideremos toda a riqueza que se encerra nestas palavras: Sagrado Coração de Jesus. Quando falamos de um coração humano, não nos referimos apenas aos sentimentos; aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que se relaciona com os outros; e, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é considerado o resumo e a fonte, a expressão e o fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das ações. Um homem vale o que vale o seu coração, diríamos em linguagem corrente.
Ao coração pertence a alegria: «O meu coração alegra-se com a tua salvação»; o arrependimento: «O meu coração tornou-se como cera e derreteu-se dentro do peito»; o louvor a Deus: «O meu coração vibra com belas palavras»; a decisão de ouvir o Senhor: «O meu coração está firme»; a vigília amorosa:
«Eu dormia, mas de coração desperto». E ainda a dúvida e o temor: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em Mim».
O coração não se limita a sentir; também sabe e entende. A lei de Deus é recebida no coração e nele permanece escrita18; e a Escritura acrescenta: «A boca fala da abundância do coração». O Senhor lançou em cara a uns escribas: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações?»; e, para resumir todos os pecados que um homem pode cometer, esclareceu: «Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias».
Quando a Sagrada Escritura fala do coração, não se refere a um sentimento passageiro, que emociona ou faz nascer as lágrimas. Fala-se do coração para referir a pessoa, que, como disse o próprio Jesus, se orienta, toda ela – alma e corpo –, para aquilo que considera o seu bem, uma vez que «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração».
Por isso, quando falamos do coração de Jesus, estamos a salientar a certeza do amor de Deus e a verdade da sua entrega a nós. Recomendar a devoção a esse Sagrado Coração é o mesmo que dizer que devemos orientar-nos integralmente, com tudo o que somos – a nossa alma, os nossos sentimentos e pensamentos, as nossas palavras e ações, os nossos trabalhos e as nossas alegrias –, para Jesus todo.
É nisto que se concretiza a verdadeira devoção ao coração de Jesus: em conhecer Deus e nos conhecermos a nós próprios, e em olhar para Jesus – que nos anima, nos ensina, nos guia – e recorrer a Ele. A única superficialidade que pode haver nesta devoção é a de um homem que, não sendo integralmente humano, não consegue perceber a realidade de Deus encarnado.
Imitar Maria
A nossa Mãe é modelo de correspondência à graça; contemplando a sua vida, o Senhor dar-nos-á luz para aprendermos a divinizar a nossa existência vulgar. Nós, cristãos, pensamos muitas vezes em Nossa Senhora, quer ao longo do ano, quando celebramos as festas marianas, quer em diversos momentos do nosso dia; se aproveitarmos esses instantes para imaginar como faria a nossa Mãe as tarefas que temos de realizar, iremos aprendendo pouco a pouco e acabaremos por nos parecer com ela, como os filhos se parecem com a mãe.
Podemos imitar, em primeiro lugar, o seu amor. A caridade não se fica pelos sentimentos: há de estar presente nas palavras e, sobretudo, nas obras; a Virgem Maria não se limitou a dizer «fiat», mas cumpriu em cada momento essa decisão firme e irrevogável. Também nós, quando o amor de Deus nos ferir e soubermos o que Ele quer, devemos comprometer-nos a ser fiéis, leais, e sê-lo efetivamente; porque «nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu».
Havemos de imitar a sua elegância, natural e sobrenatural. Maria é uma criatura privilegiada na história da salvação, porque nela «o Verbo fez-Se homem e veio habitar connosco». Foi uma testemunha delicada, que soube passar despercebida, porque não foi amiga de receber louvores nem ambicionou a própria glória. Maria assiste aos mistérios da infância de seu Filho, mistérios, se assim se pode dizer, cheios de normalidade; mas, aquando dos grandes
milagres e das aclamações das massas, desaparece. Em Jerusalém, quando Cristo – montado sobre um jumentinho – é vitoriado como Rei, Maria não está presente; mas reaparece junto da cruz, quando todos fogem. Este comportamento tem um sabor de grandeza discreta, de profundidade, de santidade da alma.
Seguindo o seu exemplo de obediência a Deus, procuremos aprender essa delicada combinação de submissão e fidalguia. Maria não tem aquela atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas; Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe, e depois entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» Vedes que maravilha? Santa Maria, mestra de todo o nosso proceder, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, mas move-nos interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31569/ (18/05/2026)