Lista de pontos
Não esqueçais que, por vezes, não é possível evitar os conflitos entre os esposos. Nunca discutais diante dos vossos filhos; fá-los-eis sofrer e eles tomarão partido, contribuindo talvez para aumentar inconscientemente a vossa desunião. Mas discutir, desde que não seja com frequência, também é uma expressão de amor, quase uma necessidade. A ocasião, não o motivo, costuma ser o cansaço do marido, esgotado pelo seu trabalho profissional; a fadiga – oxalá não seja aborrecimento – da mulher, que teve de lidar com os filhos, com a gestão da casa e com o seu próprio carácter, às vezes pouco firme – embora, quando querem, as mulheres sejam mais fortes que os homens.
Evitai a soberba, que é o maior inimigo da vossa relação conjugal: nos pequenos conflitos, nenhum dos dois tem razão. Aquele que estiver mais sereno dirá uma palavra que contenha o mau humor até uma ocasião posterior; e, nessa altura – já a sós –, então discuti, que depois fareis as pazes.
Vós, mulheres, pensai que talvez vos descuideis um pouco no arranjo pessoal e recordai aquele provérbio de que a mulher composta tira o homem de outra porta. O dever de vos mostrardes agradáveis como quando éreis namoradas não perde atualidade, e é um dever de justiça, porque pertenceis ao vosso marido; e ele também não deve esquecer que é vosso e que tem a obrigação de
ser, durante toda a vida, carinhoso como um namorado. Será mau sinal se sorrirdes com ironia ao ler este parágrafo; será uma demonstração evidente de que o afeto familiar se transformou numa indiferença que gela.
Lares luminosos e alegres
Não se pode falar do casamento sem pensar na família, que é o fruto e a continuação daquilo que se inicia com o casamento. A família não é constituída apenas pelo marido e pela mulher, mas também pelos filhos e, em maior ou menor grau, pelos avós, os outros parentes e as empregadas. A todos eles há de chegar a intimidade cálida da qual depende o bom ambiente familiar. É certo que há casais a quem o Senhor não concede filhos; é sinal de que lhes pede que continuem a amar-se com o mesmo afeto e que, se puderem, dediquem as suas energias a serviços e tarefas em benefício de outras almas. Habitualmente, porém, um casal terá descendência, e a primeira preocupação destes esposos
tem de ser os filhos. A paternidade e a maternidade não terminam com o nascimento; essa participação no poder de Deus que é a faculdade de gerar há de prolongar-se na cooperação com o Espírito Santo, culminando na formação de autênticos homens cristãos e autênticas mulheres cristãs.
Os pais são os principais educadores dos próprios filhos, tanto no aspeto humano como no sobrenatural, e hão de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e devem esforçar-se por dar bom exemplo. A imposição autoritária e violenta não é um caminho acertado para a educação. O ideal é os pais tornarem-se amigos dos filhos; amigos a quem eles confiam as suas preocupações, a quem consultam sobre os seus problemas, de quem esperam uma ajuda eficaz e amável.
Os pais têm de arranjar tempo para estar com os filhos e falar com eles. Os filhos são o mais importante: são mais importantes que os negócios, que o trabalho, que o descanso. Nessas conversas, convém escutá-los com atenção, tentar compreendê-los, saber reconhecer a parte de verdade – ou a verdade inteira – que possa haver em algumas rebeldias. E, ao mesmo tempo, ajudá-los a canalizar retamente anseios e aspirações, ensiná-los a ponderar as coisas e a
raciocinar; não lhes impor comportamentos, mas mostrar-lhes os motivos, sobrenaturais e humanos, que os aconselham. Numa palavra, respeitar a sua liberdade, pois não há verdadeira educação sem responsabilidade pessoal, nem responsabilidade sem liberdade.
Escutai os vossos filhos, dedicai-lhes o vosso tempo, mostrai que tendes confiança neles; acreditai em tudo o que vos disserem, mesmo que alguma vez vos enganem; não vos assusteis com as suas rebeldias, pois também vós, na idade deles, fostes mais ou menos rebeldes; ide ao seu encontro até meio do caminho, e rezai por eles. Vereis que recorrerão aos pais com simplicidade – podeis ter a certeza disso, se assim fizerdes, como bons cristãos –, em vez de
recorrerem a um amigalhaço desavergonhado ou brutal para satisfazerem
a sua legítima curiosidade. A vossa confiança, a vossa relação de amizade com os filhos, receberá como resposta a sinceridade deles convosco; e é nisto que consiste a paz familiar, a vida cristã, mesmo que haja discussões e incompreensões de pouca monta.
Pergunta um escritor dos primeiros séculos: «Como descreverei a felicidade do casamento que a Igreja realiza, que a entrega confirma, que a bênção sela, que os anjos testemunham e que Deus Pai dá por celebrado? [...] Os esposos são como irmãos, servos um do outro, sem que entre eles se dê separação alguma, nem na carne nem no espírito. Porque são verdadeiramente dois numa só carne, e onde há uma só carne deve haver um só espírito. [...] Ao contemplar
estas famílias, Cristo alegra-Se e envia-lhes a sua paz; onde estão dois,
aí está também Ele, e onde Ele está não pode haver nada mau.»
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/31571/ (18/05/2026)