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A esperança do Advento
Nada mais quero dizer-vos neste primeiro domingo do Advento, quando começamos a contar os dias que nos aproximam do Natal do Salvador. Vimos a realidade da vocação cristã: que o Senhor confia em nós para levar almas à santidade, para as aproximar de Si, para as unir à Igreja e fazer chegar o Reino de Deus a todos os corações. O Senhor quer-nos entregues, fiéis, dedicados, com amor. Quer-nos santos, muito seus.
De um lado, estão a soberba, a sensualidade e o tédio, o egoísmo; do outro, o amor, a entrega, a misericórdia, a humildade, o sacrifício, a alegria. Tens de escolher. Foste chamado a uma vida de fé, de esperança e de caridade. Não podes cruzar os braços e deixar-te ficar num isolamento medíocre.
Em certa ocasião, vi uma águia fechada numa jaula de ferro. Estava suja, meio depenada e tinha entre as garras um pedaço de carne podre. Pensei no que seria de mim se abandonasse a vocação que recebi de Deus. Tive pena daquele animal solitário, aprisionado, que nascera para subir muito alto e olhar o Sol de frente. Nós temos capacidade de ascender às humildes alturas do amor de Deus, do serviço a todos os homens; mas, para isso, não pode haver na nossa alma recantos onde o sol de Cristo não consiga entrar. Temos de deitar fora todas as preocupações que nos afastem dele; e, depois, Cristo na tua inteligência, Cristo nos teus lábios, Cristo no teu coração, Cristo nas tuas obras: toda a vida – o coração e as obras, a inteligência e as palavras – cheia de Deus.
«Cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima», lemos no Evangelho. O tempo do Advento é um tempo de esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, essa unidade de vida que tem como fio condutor a presença de Deus nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária.
Pede-o a Nossa Senhora comigo, imaginando como terá passado aqueles meses, à espera do Filho que haveria de nascer. E Nossa Senhora, Santa Maria, fará que sejas alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo!
*Homilia proferida a 2 de março de 1952, Domingo I da Quaresma
Entrámos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cómodo; não basta estar na Igreja e deixar passar os anos. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão – esse momento único que cada um de nós recorda, em que percebemos claramente tudo o que o Senhor nos pedia – é importante; mas ainda mais importantes, e mais difíceis, são as conversões sucessivas. Ora, para facilitar o trabalho da graça nessas conversões sucessivas, é preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que estamos a fazer mal, pedir perdão.
«Invocabit me et ego exaudiam eum», lemos na liturgia deste domingo: quando Me invocar, hei de atendê-lo, diz o Senhor. Reparai nesta maravilha que é o cuidado de Deus por nós: está sempre disposto a ouvir-nos, atento à palavra do homem em todos os momentos. Ele ouve-nos em qualquer altura – mas de modo especial agora, porque o nosso coração tem boas disposições, está decidido a purificar-se –, e não deixará de atender o que Lhe pedir «um coração
contrito e arrependido».
O Senhor ouve-nos para intervir, para Se meter na nossa vida, para nos livrar do mal e nos encher de bem: «Eripiam eum et glorificabo eum», hei de libertá-lo e dar-lhe glória, diz do homem. Esperança de glória, portanto; e já aqui temos, como doutras vezes, o começo desse movimento íntimo que é a vida espiritual. A esperança da glorificação acentua a nossa fé e estimula a nossa caridade: e assim foram postas em movimento as três virtudes teologais, virtudes divinas que nos assemelham a Deus nosso Pai.
Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a fé, a esperança, a caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma oportunidade para intensificarmos as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era apenas isso, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são, repito, fruto da fé, da esperança e do amor.
«Instaurare omnia in Christo», dar forma a tudo segundo o espírito de Jesus, é o lema que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso. Colocar Cristo no âmago de todas as coisas: «Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», Eu, quando for erguido da terra, atrairei tudo a Mim. Com a sua Encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e os seus milagres por terras da Judeia e da Galileia, com a sua morte na cruz, com a sua Ressurreição, Cristo é o centro da criação, o Primogénito e Senhor de toda a criatura.
A nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo; anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras. O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da Terra: chama alguns ao deserto, para viverem distanciados das preocupações da sociedade humana, a fim de recordarem aos outros homens, com o seu testemunho, que Deus existe; confia a outros o ministério sacerdotal; mas quer a grande maioria no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes
cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes onde se desenvolve o trabalho humano: às fábricas, aos laboratórios, aos campos, às oficinas dos artesãos, às ruas das grandes cidades e às veredas de montanha.
A este propósito, gosto de recordar a cena da conversa de Cristo com os discípulos de Emaús. Jesus caminha ao lado daqueles dois homens, que perderam quase por completo a esperança, de modo que a existência começa a parecer-lhes desprovida de sentido; compreende a sua dor, penetra no seu coração, comunica-lhes algo da vida que nele habita.
Quando, ao chegar à aldeia, Jesus faz menção de seguir caminho, os dois discípulos retêm-no e quase O obrigam a ficar com eles; depois, reconhecem-no ao partir o pão: o Senhor esteve connosco, exclamam. «Disseram, então, um ao outro: “Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”» Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os
homens, vivendo de tal maneira que aqueles com quem contacta sintam o «bonus odor Christi», o bom aroma de Cristo; comportando-se de forma que, através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre.
A festa da Ascensão do Senhor sugere-nos ainda outra realidade: o Cristo que nos incentiva a realizar esta tarefa no mundo espera-nos no Céu. Por outras palavras: a vida na Terra, que amamos, não é a definitiva, porque «não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura» cidade imutável.
Evitemos, contudo, interpretar a palavra de Deus nos limites de um horizonte estreito. O Senhor não nos incentiva a ser infelizes enquanto caminhamos, esperando como única consolação o além. Deus também nos quer felizes aqui, embora ansiando pelo cumprimento definitivo da outra felicidade, que só Ele pode realizar completamente.
Neste mundo, a contemplação das realidades sobrenaturais, a ação da graça na nossa alma, o amor ao próximo como fruto saboroso do amor a Deus são uma antecipação do Céu, uma incoação destinada a crescer dia a dia. Nós, cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida simples e forte, na qual se fundam e se interpenetram todas as nossas ações.
Cristo espera-nos. Sendo plenamente cidadãos da Terra, no meio de dificuldades, injustiças e incompreensões – mas também da alegria e da serenidade que resultam de nos sabermos filhos amados de Deus –, vivamos já como cidadãos do Céu. Perseveremos no serviço do nosso Deus e veremos aumentar, em número e santidade, este exército cristão de paz, este povo de corredenção. Sejamos almas contemplativas, com um diálogo constante, privando com o Senhor a toda a hora, desde o primeiro pensamento do dia até ao último da noite, pondo continuamente o nosso coração em Jesus Cristo Nosso Senhor, chegando a Ele por intermédio da nossa Mãe, Santa Maria, e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo.
E se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos Céus nos deixa na alma um rasto amargo de tristeza, recorramos a sua Mãe, como fizeram os apóstolos: «Foram a Jerusalém […], e entregavam-se assiduamente à oração, com […] Maria, Mãe de Jesus.»
Uma única receita: santidade pessoal
O melhor caminho para nunca perder a audácia apostólica, o desejo eficaz de servir todos os homens, é a plenitude da vida de fé, de esperança e de amor; numa palavra, a santidade. Não conheço outra receita além desta: santidade pessoal.
Hoje, em união com toda a Igreja, celebramos o triunfo da Mãe, Filha e Esposa de Deus. E, assim como nos sentimos contentes na Páscoa da Ressurreição do Senhor, três dias depois da sua morte, agora estamos alegres porque Maria, depois de ter acompanhado Jesus desde Belém até à cruz, está junto dele em corpo e alma, desfrutando da sua glória por toda a eternidade. Esta é a
misteriosa economia divina: Nossa Senhora, participando plenamente na obra da nossa salvação, tinha de seguir de perto os passos de seu Filho: a pobreza de Belém, a vida oculta de trabalho quotidiano em Nazaré, a manifestação da divindade em Caná da Galileia, as afrontas da Paixão, o sacrifício divino da cruz, e a bem-aventurança eterna do Paraíso.
Tudo isto nos afeta diretamente, porque este itinerário sobrenatural há de ser também o nosso caminho. Maria mostra-nos que esta senda é factível e segura. Ela precedeu-nos na via da imitação de Cristo, e a glorificação da nossa Mãe é a firme esperança da nossa salvação. É por isso que lhe chamamos spes nostra e
causa nostræ lætitiæ, esperança nossa e causa da nossa alegria.
Não podemos abandonar nunca a confiança de chegar a ser santos, de aceitar os convites do Senhor, de ser perseverantes até ao final. Deus, que em nós começou a obra da santificação, há de levá-la a cabo. Porque, «se Deus está por nós, quem pode estar contra nós? Ele, que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo
juntamente com Ele?».
Nesta festa, tudo convida à alegria. A firme esperança na nossa santificação pessoal é um dom de Deus. Mas o homem não pode permanecer passivo; recordai as palavras de Cristo: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me.» Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sine cruce!, nenhum dia sem cruz: que em nenhum dia deixemos
de carregar a cruz do Senhor, deixemos de aceitar o seu jugo. Foi por isto que não quis deixar de vos recordar que a alegria da ressurreição é uma consequência da dor da cruz.
Não temais, contudo, porque o próprio Senhor nos diz: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.» Comenta São João Crisóstomo: «Vinde não para prestar contas, mas para ser libertados dos vossos pecados; vinde, porque Eu não preciso
da glória que possais dar-Me, mas preciso da vossa salvação. […] Não temais ao ouvir falar de jugo, porque é suave; não temais se falo de fardo, porque é leve.»
O caminho da nossa santificação pessoal passa pela cruz quotidiana; não é um caminho de infelicidade, porque é o próprio Cristo que nos ajuda e, com Ele, não há lugar para a tristeza. In lætitia, nulla dies sine cruce!, gosto de repetir: com a alma trespassada de alegria, nenhum dia sem cruz.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32099/ (18/05/2026)