Lista de pontos
Fé, amor, esperança: estes são os eixos da vida de São José, e de toda a vida cristã. A entrega de São José aparece-nos tecida pelo entrecruzar de um amor fiel, de uma fé amorosa e de uma esperança confiada. A sua festa é, por isso, uma boa altura para renovarmos a nossa entrega à vocação de cristãos que o Senhor concedeu a cada um de nós.
Quando se deseja sinceramente viver de fé, de amor e de esperança, a renovação da entrega não consiste em retomar uma coisa que tinha entrado em desuso. Quando há fé, amor e esperança, renovar-se é – apesar dos erros pessoais, das quedas, das debilidades – manter-se nas mãos de Deus, confirmando um caminho de fidelidade. Renovar a entrega é, repito, renovar a fidelidade àquilo que o Senhor quer de nós: um amor com obras.
O amor tem, naturalmente, manifestações próprias. Às vezes, fala-se do amor como se fosse uma procura de satisfação pessoal ou um mero recurso para completar egoisticamente a própria personalidade. E não é assim; o amor verdadeiro consiste em sair de si mesmo, em entregar-se. O amor é fonte de alegria, mas é uma alegria que tem as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos neste mundo e não tivermos chegado à plenitude da vida futura,
não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que pode ser amada, que é uma fonte de satisfação profunda, mas que é uma dor real, porque implica vencer o nosso egoísmo e tomar o Amor como regra de todas e cada uma das nossas ações.
A consideração da morte de Cristo traduz-se num convite para nos situarmos com absoluta sinceridade perante os nossos afazeres diários, para levarmos a sério a fé que professamos. A Semana Santa não pode ser, pois, um parêntesis sagrado no contexto de um viver motivado exclusivamente por interesses humanos; tem de ser uma oportunidade para penetrarmos na profundidade do Amor de Deus, a fim de podermos mostrá-lo aos outros homens com a palavra e com as obras.
Mas o Senhor impõe condições. Há uma declaração sua, conservada por São Lucas, da qual não se pode prescindir: «Se alguém vem ter comigo e não Me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo.» São palavras duras. Decerto que nem o odiar nem o aborrecer exprimem bem o pensamento original de Jesus. De qualquer maneira, as palavras do Senhor foram fortes, pois não se reduzem a um amor menor, como por vezes se interpreta frouxamente, para suavizar a frase. A expressão é taxativa, e tremenda, não porque implique uma atitude negativa ou impiedosa, pois o Jesus que fala agora é o mesmo que manda amar os outros como a própria alma e que entrega a sua vida pelos homens; a locução indica, muito simplesmente, que, perante Deus, não pode haver meias-tintas. As palavras de Cristo podem ser traduzidas por amar mais, amar melhor, mais propriamente por não amar com um amor egoísta nem com um amor de vistas curtas: devemos amar com o Amor de Deus, é disso que se trata.
Reparemos na última das exigências de Jesus: «et animam suam»; o que o Senhor pede é a vida, a própria alma. Se somos fátuos, se nos preocupamos apenas com a nossa comodidade, se centramos a existência dos outros e até o próprio mundo em nós mesmos, não temos o direito de nos chamar cristãos, de nos considerar discípulos de Cristo. A entrega não pode ser só de boca, tem de ser com obras e com verdade. O amor a Deus convida-nos a levar a cruz a pulso, a sentir sobre nós o peso de toda a humanidade e a cumprir, nas circunstâncias próprias do estado e do trabalho de cada um, os desígnios, simultaneamente claros e amorosos, da vontade do Pai.
Na passagem que comentámos, Jesus prossegue: «Quem não tomar a sua cruz para Me seguir não pode ser meu discípulo.» Aceitemos sem medo a vontade de Deus, formulemos sem vacilações o propósito de edificar toda a nossa vida de acordo com o que nos ensina e nos exige a fé. Podemos estar certos de que haverá luta, sofrimento e dor; mas, se realmente tivermos fé, nunca nos
sentiremos amargurados; seremos felizes – também com sofrimentos e até com calúnias –, com uma felicidade que nos levará a amar os outros, para os fazer participar da nossa alegria sobrenatural.
Permiti-me narrar um facto da minha vida pessoal, ocorrido há muitos anos. Certo dia, um amigo de bom coração, mas que não tinha fé, disse-me, apontando para um mapa-múndi: «Ora veja, de norte a sul e de leste a oeste.» «Que queres que veja?», perguntei-lhe. «O fracasso de Cristo. Tantos séculos a tentar meter a sua doutrina na vida dos homens e veja os resultados.» Num primeiro momento, enchi-me de tristeza: efetivamente, é uma grande dor considerar que há muita gente que ainda não conhece o Senhor e que, entre aqueles que O conhecem, há também muitos que vivem como se O não conhecessem.
Mas essa impressão durou apenas um instante, dando lugar ao amor e ao agradecimento, porque Jesus quis fazer de cada homem um colaborador livre da sua obra redentora. Não fracassou: a sua doutrina e a sua vida continuam a fecundar o mundo. A redenção por Ele operada é suficiente e superabundante.
Deus não quer escravos, mas filhos, e respeita a nossa liberdade. A salvação prossegue e nós participamos dela: é vontade de Cristo que – nas palavras fortes de São Paulo – cumpramos na nossa carne, na nossa vida, o que falta à sua Paixão, «pro corpore eius, quod est Ecclesia», pelo seu corpo, que é a Igreja.
Vale a pena arriscar a vida, com uma entrega total, para corresponder ao amor e à confiança que Deus deposita em nós. Vale a pena, sobretudo, decidirmos levar a sério a nossa fé cristã. Quando recitamos o Credo, professamos crer em Deus Pai Todo-Poderoso, em seu Filho Jesus Cristo, que morreu e foi ressuscitado, no Espírito Santo, Senhor que dá a vida. Confessamos que a Igreja una, santa, católica e apostólica é o corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo. Alegramo-nos com a remissão dos nossos pecados e com a
esperança da ressurreição futura. Mas essas verdades penetrarão até ao fundo do coração ou ficarão apenas nos lábios? A mensagem divina de vitória, alegria e paz do Pentecostes deve ser o fundamento inquebrantável do modo de pensar, de reagir e de viver de qualquer cristão.
O mistério do sacrifício silencioso
Mas reparai: se Deus quis, por um lado, exaltar sua Mãe, por outro, durante a sua vida terrena, Maria não foi poupada à experiência da dor, nem ao cansaço do trabalho, nem ao claro-escuro da fé. Àquela mulher do povo que, certo dia, irrompe em louvores a Jesus, exclamando «Felizes as entranhas que Te trouxeram e os seios que Te amamentaram!», o Senhor responde: «Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.» Era o elogio de sua Mãe, do seu «fiat», do faça-se sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em ações aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia.
Ao meditar nestas verdades, percebemos um pouco melhor a lógica de Deus. Compreendemos que o valor sobrenatural da nossa vida não depende da realização das grandes façanhas que, por vezes, forjamos com a imaginação, mas da aceitação fiel da vontade divina, da disposição generosa nos pequenos sacrifícios diários.
Para sermos divinos, para nos endeusarmos, temos de começar por ser muito humanos, vivendo na presença de Deus a nossa condição de homens comuns, santificando essa aparente pequenez. Foi assim que Maria viveu. A cheia de graça, a que é objeto das complacências de Deus, a que está acima dos anjos e dos santos, teve uma existência normal. Maria é uma criatura como nós, com
um coração como o nosso, capaz de gozo e de alegrias, de sofrimento e de lágrimas. Antes de Gabriel lhe comunicar o querer de Deus, Nossa Senhora ignora que foi escolhida desde toda a eternidade para ser Mãe do Messias, e considera-se cheia de baixeza; por isso, reconhece depois, com profunda humildade, que «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas».
A pureza, a humildade e a generosidade de Maria contrastam com a nossa miséria e o nosso egoísmo. É razoável que, quando nos apercebemos disso, nos sintamos movidos a imitá-la; somos criaturas de Deus como ela, e basta que nos esforcemos por ser fiéis para que também em nós o Senhor faça maravilhas. A nossa pequenez não será obstáculo, porque Deus escolhe o que vale pouco para que, desse modo, o poder do seu amor se torne mais notório.
Cristo, Senhor do mundo
Gostaria de considerar convosco que esse Cristo, que – terna criança – vimos nascer em Belém, é o Senhor do mundo, já que por Ele foram criados todos os seres no Céu e na Terra; e Ele reconciliou todas as coisas com o Pai, restabelecendo a paz entre o Céu e a Terra por meio do sangue que derramou na cruz. Hoje, Cristo reina, sentado à direita do Pai; os dois anjos de vestes brancas declararam aos discípulos que, atónitos, contemplavam as nuvens depois da Ascensão do Senhor: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora O vistes partir para o Céu.»
É por Ele que «reinam os reis», com a diferença de que os reis, as autoridades humanas, passam e o Reino de Cristo permanecerá por toda a eternidade8, pois o seu reino é um reino eterno e o seu domínio «vai de geração em geração».
O Reino de Cristo não é um modo de dizer, nem uma imagem de retórica. Cristo vive, também como homem, com aquele mesmo corpo que assumiu na Encarnação, que ressuscitou depois da cruz e que subsiste, glorificado, na Pessoa do Verbo, juntamente com a sua alma humana. Cristo, Deus e Homem verdadeiro, vive e reina, e é o Senhor do mundo; é só por Ele que tudo o que vive se mantém na vida.
Mas então porque não aparece em toda a sua glória? Porque o seu reino «não é deste mundo», ainda que esteja no mundo. Replicou Jesus a Pilatos: «Eu sou Rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que vive da verdade escuta a minha voz.». Aqueles que esperavam do Messias um poder temporal visível enganaram-se, porque «o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo».
Verdade e justiça, paz e júbilo no Espírito Santo: é isso o Reino de Cristo. A ação divina que salva os homens culminará com o fim da história, quando o Senhor, que está sentado no mais alto do Paraíso, vier julgar definitivamente os homens.
Quando inicia a sua pregação na Terra, Cristo não apresenta um programa político, mas diz: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu»; mais adiante, encarrega os seus discípulos de anunciarem esta boa nova e ensina-os a pedir, na oração, o advento do Reino. O Reino do Céu e a sua justiça, uma vida santa: eis aquilo que temos de procurar em primeiro lugar, a única
coisa verdadeiramente necessária.
A salvação pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo é um convite dirigido a todos: «O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho e mandou os servos chamar os convidados para as bodas». Por isso, o Senhor revela que «o Reino de Deus está entre vós».
Ninguém está excluído da salvação, se aderir livremente às exigências amorosas de Cristo: nascer de novo, fazer-se criança, em simplicidade de espírito; afastar o coração de tudo aquilo que afasta de Deus. Jesus não Se contenta com palavras, quer factos; quer um esforço, denodado, porque só os que lutam serão merecedores da herança eterna.
A perfeição do Reino – o juízo definitivo de salvação ou de condenação – não ocorrerá neste mundo. Aqui, o Reino é como uma semente, como o crescimento do grão de mostarda; o seu fim será como a rede que apanha toda a espécie de peixes, de onde – depois de trazida para a areia – serão extraídos para destinos diferentes os que praticaram a justiça e os que fizeram a iniquidade. Mas, enquanto aqui vivermos, o Reino assemelha-se à levedura que
uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que toda a massa ficou fermentada.
Quem compreende o Reino que Cristo propõe reconhece que vale a pena apostar tudo para o conseguir: ele é a pérola que o mercador adquire à custa de vender tudo o que possui, é o tesouro encontrado no campo. O Reino do Céu é uma conquista difícil e ninguém tem a certeza de o alcançar, embora o clamor humilde do homem arrependido consiga que as suas portas se abram de par em par. Um dos ladrões que foram crucificados com Jesus suplica-Lhe: «“Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino.” Ele respondeu-
-lhe: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.”»
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32294/ (23/05/2026)