Lista de pontos
Para um cristão, o matrimónio não é uma simples instituição social e menos ainda um remédio para as fraquezas humanas; é uma autêntica vocação sobrenatural. Sacramento grande em Cristo e na Igreja, como diz São Paulo, é, simultânea e inseparavelmente, um contrato que um homem e uma mulher fazem para sempre, pois, quer queiramos quer não, o matrimónio instituído por Jesus Cristo é indissolúvel, sinal sagrado que santifica, ação de Jesus que invade a alma dos cônjuges e os convida a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino pela Terra.
As pessoas casadas são chamadas a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união; cometeriam, por isso, um grave erro se edificassem a sua vida espiritual de costas para a própria família e à margem dela. A vida em casa, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço para sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social – tudo isso são situações humanas e vulgares que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar.
A fé e a esperança hão de evidenciar-se na serenidade com que se encaram os grandes ou pequenos problemas que surgem em todas as famílias, no empenho com que se persevera no cumprimento do próprio dever. Deste modo, a caridade preencherá todos os momentos, levando a partilhar alegrias e possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo as preocupações pessoais para dar atenção aos outros; a escutar o outro cônjuge e os filhos, mostrando-lhes que são deveras amados e compreendidos; a não dar valor a pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a realizar com grande amor os pequenos serviços que compõem a convivência diária.
Santificar o quotidiano doméstico, criando um autêntico e afetuoso ambiente de família: é disso que se trata. Para santificar cada um dos dias, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs; primeiro as teologais, e depois todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, o trabalho, a alegria... Ao falar do matrimónio e da vida matrimonial, temos de começar por uma referência clara ao amor dos cônjuges.
A figura de São José no Evangelho
Tanto São Mateus como São Lucas nos dizem que São José era descendente de uma estirpe ilustre, a estirpe de David e Salomão, reis de Israel. Historicamente, os pormenores dessa ascendência são algo confusos: não sabemos qual das duas genealogias enunciadas pelos evangelistas corresponde a Maria – Mãe de Jesus segundo a carne – e qual corresponde a São José, que era seu pai segundo a lei judaica. Nem sabemos se a cidade natal de José era Belém, onde foi recensear-se, ou Nazaré, onde vivia e trabalhava.
Sabemos, no entanto, que não era uma pessoa rica: era um trabalhador, como milhões de homens de todo o mundo, e exercia o fatigante e humilde ofício que Deus tinha escolhido para Si ao tomar a nossa carne e decidir viver trinta anos como um de nós.
A Sagrada Escritura diz que José era artesão, e vários Padres acrescentam que foi carpinteiro. São Justino, ao falar da vida de trabalho de Jesus, afirma que fazia arados e jugos; talvez com base nestas palavras, Santo Isidoro de Sevilha concluiu que José era ferreiro. Seja como for, era um operário que trabalhava ao serviço dos seus concidadãos, que tinha uma ocupação manual, fruto de anos de esforço e de suor.
As narrações evangélicas revelam a grande personalidade humana de São José: em nenhum momento nos aparece como um homem acanhado ou assustado perante a vida; pelo contrário, sabe enfrentar os problemas, ultrapassar as situações difíceis, assumir com responsabilidade e iniciativa as tarefas que lhe são encomendadas.
Não estou de acordo com a forma clássica de representar São José como um homem de idade avançada, apesar da intenção positiva de salientar a virgindade perpétua de Maria. Por mim, imagino-o jovem, forte, talvez com mais alguns anos que Nossa Senhora, mas na pujança da idade e das forças humanas.
Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pela falta de vigor. A pureza nasce do amor, e a robustez e alegria da juventude não são obstáculos ao amor limpo. Jovens eram o coração e o corpo de São José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o mistério da sua maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria legar ao mundo como mais um sinal da sua vinda ao meio das criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade.
Como dizíamos, José era um artesão da Galileia, um homem como tantos outros. E que pode esperar da vida um habitante de uma aldeia perdida como Nazaré? Apenas trabalho, todos os dias, sempre com o mesmo esforço; e, no fim da jornada, uma casa pobre e pequena, para recuperar forças e recomeçar a faina no dia seguinte.
Mas o nome de José significa, em hebraico, «Deus acrescentará»: Deus acrescenta dimensões insuspeitadas à vida santa daqueles que cumprem a sua vontade; acrescenta o importante, o que dá valor a tudo, o divino. À vida humilde e santa de São José, Deus acrescentou – se me é permitido falar assim – a vida da Virgem Maria e a de Jesus Nosso Senhor. Deus nunca permite que Lhe ganhem em generosidade. José podia fazer suas aquelas palavras de Santa Maria, sua esposa: «quia fecit mihi magna qui potens est», o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, «quia respexit humilitatem», porque pôs os olhos na humildade da sua serva.
José era efetivamente um homem comum, em quem Deus confiou para fazer coisas grandes. Soube viver todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida exatamente como o Senhor queria; por isso, a Sagrada Escritura louva José afirmando que era justo, um termo que, em hebraico, significa piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade divina; outras vezes significa bom e caritativo com o próximo. Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor cumprindo os seus mandamentos e orientando toda a sua vida para o serviço dos homens seus irmãos.
Os sacramentos da graça de Deus
Quem quer lutar emprega os meios adequados. Ora, ao longo destes vinte séculos de cristianismo, os meios não mudaram; continuam a ser oração, mortificação e frequência de sacramentos. Como a mortificação também é oração – é a oração dos sentidos –, podemos descrever esses meios apenas com duas palavras: oração e sacramentos.
Gostaria que considerássemos agora esse manancial de graça divina que são os sacramentos, maravilhosa manifestação da misericórdia de Deus. Meditemos devagar a definição do catecismo de São Pio V: «Sinais sensíveis que causam a graça, ao mesmo tempo que a exprimem, como que pondo-a diante dos nossos
olhos.» Deus Nosso Senhor é infinito, o seu amor é inesgotável, a sua clemência e a sua piedade para connosco não conhecem limites. E, embora nos conceda a sua graça de muitos outros modos, instituiu expressa e livremente – só Ele podia fazê-lo – estes sete sinais eficazes, para que os homens possam participar dos méritos da redenção de maneira estável, simples e acessível a todos.
Quando se abandonam os sacramentos, a verdadeira vida cristã desaparece. No entanto, sabemos que, em especial no nosso tempo, há quem pareça esquecer, e chegue a desprezar, esta corrente redentora da graça de Cristo. É doloroso falar desta chaga da sociedade que se chama cristã, mas torna-se necessário fazê-lo, para que se firme na nossa alma o desejo de recorrer com mais amor e
gratidão a essas fontes de santificação.
As pessoas decidem sem o menor escrúpulo atrasar o batismo dos recém-nascidos, privando-os – em grave atentado contra a justiça e contra a caridade – da graça da fé, do tesouro incalculável da inabitação da Santíssima Trindade na alma, que vem ao mundo manchada pelo pecado original; pretendem desvirtuar a natureza própria do sacramento da confirmação, no qual a Tradição sempre viu unanimemente um robustecimento da vida espiritual, uma efusão discreta e fecunda do Espírito Santo, para que, fortalecida sobrenaturalmente, a alma possa travar – miles Christi, como soldado de
Cristo – a batalha interior contra o egoísmo e a concupiscência.
Quando se perde a sensibilidade para as coisas de Deus, dificilmente se compreenderá o sacramento da penitência. A confissão sacramental não é um diálogo humano, é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso, que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
É verdadeiramente infinita a ternura de Nosso Senhor. Vede com que delicadeza trata os seus filhos: fez do matrimónio um vínculo santo, imagem da união de Cristo com a sua Igreja, um sacramento grande para servir de fundamento à família cristã, que há de ser, com a graça de Deus, um ambiente de paz e de concórdia, uma escola de santidade. Os pais são cooperadores de Deus; é essa a razão de ser do estimável dever de veneração que corresponde
aos filhos. Com razão pode o quarto mandamento ser chamado – escrevi-o há tantos anos – o dulcíssimo preceito do Decálogo; quando se vive o casamento como Deus quer, santamente, essa casa será um recanto de paz, luminoso e alegre.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32634/ (13/06/2026)