Lista de pontos
A vida futura
A missão apostólica de que Cristo encarregou todos os seus discípulos produz, portanto, resultados concretos no âmbito social. Não é admissível pensar que, para ser cristão, é preciso virar as costas ao mundo, ser um cético da natureza humana. Tudo, até o mais pequeno acontecimento, desde que seja honesto, encerra um sentido humano e divino. Ao assumir a nossa natureza humana,
exceto o pecado, Cristo, perfeito Homem, não veio destruir o que é humano, mas enobrecê-lo; veio partilhar todos os anseios do homem, menos a lamentável aventura do mal.
O cristão há de mostrar-se sempre disposto a santificar a sociedade a partir de dentro, estando plenamente no mundo, mas não sendo do mundo naquilo que ele tem – não por característica real, mas por defeito voluntário, pelo pecado – de negação de Deus, de oposição à sua amável vontade salvífica.
A festa da Ascensão do Senhor sugere-nos ainda outra realidade: o Cristo que nos incentiva a realizar esta tarefa no mundo espera-nos no Céu. Por outras palavras: a vida na Terra, que amamos, não é a definitiva, porque «não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura» cidade imutável.
Evitemos, contudo, interpretar a palavra de Deus nos limites de um horizonte estreito. O Senhor não nos incentiva a ser infelizes enquanto caminhamos, esperando como única consolação o além. Deus também nos quer felizes aqui, embora ansiando pelo cumprimento definitivo da outra felicidade, que só Ele pode realizar completamente.
Neste mundo, a contemplação das realidades sobrenaturais, a ação da graça na nossa alma, o amor ao próximo como fruto saboroso do amor a Deus são uma antecipação do Céu, uma incoação destinada a crescer dia a dia. Nós, cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida simples e forte, na qual se fundam e se interpenetram todas as nossas ações.
Cristo espera-nos. Sendo plenamente cidadãos da Terra, no meio de dificuldades, injustiças e incompreensões – mas também da alegria e da serenidade que resultam de nos sabermos filhos amados de Deus –, vivamos já como cidadãos do Céu. Perseveremos no serviço do nosso Deus e veremos aumentar, em número e santidade, este exército cristão de paz, este povo de corredenção. Sejamos almas contemplativas, com um diálogo constante, privando com o Senhor a toda a hora, desde o primeiro pensamento do dia até ao último da noite, pondo continuamente o nosso coração em Jesus Cristo Nosso Senhor, chegando a Ele por intermédio da nossa Mãe, Santa Maria, e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo.
E se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos Céus nos deixa na alma um rasto amargo de tristeza, recorramos a sua Mãe, como fizeram os apóstolos: «Foram a Jerusalém […], e entregavam-se assiduamente à oração, com […] Maria, Mãe de Jesus.»
Dar a conhecer Cristo
Vejo todos os acontecimentos da vida – os de cada existência individual e, de certo modo, os das grandes encruzilhadas da história – como outros tantos apelos que Deus faz aos homens para olharem a verdade de frente; e como oportunidades que nos são oferecidas, a nós, cristãos, para anunciarmos com as nossas obras e as nossas palavras, ajudados pela graça, o Espírito a que pertencemos.
Cada geração de cristãos tem de redimir e santificar o seu tempo; para tanto, precisa de compreender e compartilhar os anseios dos homens seus iguais, a fim de lhes dar a conhecer, com dom de línguas, como podem corresponder à ação do Espírito Santo, à permanente efusão das riquezas do coração divino. A nós, cristãos, compete-nos anunciar nestes dias, a este mundo ao qual pertencemos e no qual vivemos, a antiga e sempre nova mensagem do Evangelho.
Não é verdade que os nossos contemporâneos estejam – assim, em geral ou em bloco – fechados, ou permaneçam indiferentes, ao que a fé cristã ensina sobre o destino e o ser do homem; não é certo que os homens do nosso tempo só tratem das coisas da Terra e não tenham interesse em olhar para o céu. Embora não faltem ideologias – e pessoas que as defendem – que estão efetivamente
fechadas à transcendência, na nossa época há ideais elevados e atitudes rasteiras, heroísmos e cobardias, aspirações e desenganos; há pessoas que sonham com um mundo novo, mais justo e mais humano, e outras que, talvez dececionadas com o fracasso dos seus ideais primitivos, se refugiam no egoísmo de buscarem apenas o próprio sossego ou de permanecerem mergulhadas no erro.
Temos de fazer chegar a todos esses homens e a todas essas mulheres, estejam onde estiverem, em momentos de exaltação ou nas suas crises e derrotas, o anúncio solene e categórico de São Pedro nos dias que se seguiram ao Pentecostes: Jesus é a pedra angular, o Redentor, o tudo da nossa vida; e «não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar».
*Homilia proferida a 28 de maio de 1964, solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Hoje, festa do Corpus Christi, meditando juntos na profundidade do amor do Senhor, que O levou a ficar oculto sob as espécies sacramentais, é como se ouvíssemos fisicamente um dos seus ensinamentos à multidão: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, logo que o Sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta.»
A cena é atual. O semeador divino continua a lançar a sua semente. A obra da salvação continua a realizar-se e o Senhor quer servir-Se de nós, pois deseja que os cristãos abram todos os caminhos da Terra ao seu amor. Ele convida-nos a levar a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo, até aos mais longínquos recantos do mundo. Jesus pede-nos que, sendo cidadãos da sociedade eclesial e da sociedade civil, no cumprimento fiel dos nossos deveres, cada um de nós seja outro Cristo, santificando o trabalho profissional e as suas obrigações de estado.
Se olharmos em volta, para este mundo que amamos porque foi feito por Deus, veremos que a parábola se aplica: a palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscitando em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento daqueles que servem a Deus mudaram a história, e muitos que não conhecem o Senhor regem-se – talvez sem saberem – por ideais provenientes do cristianismo.
Vemos igualmente que parte da semente cai em terra estéril, ou entre espinhos e abrolhos: que há corações que se fecham à luz da fé. Os ideais de paz, de reconciliação e de fraternidade são aceites e proclamados, mas são também, não poucas vezes, desmentidos pelos factos. Há quem se empenhe – inutilmente – em aprisionar a voz de Deus, impedindo a sua difusão com a força bruta ou com uma arma menos ruidosa, mas talvez mais cruel, porque insensibiliza o espírito: a indiferença.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/33013/ (23/05/2026)