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Há 2 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Trabalho → dignidade no trabalho.

O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem neste mundo. Com ele, surgem o esforço, a fadiga, o cansaço, manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana atual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma condenação, uma maldição ou um castigo: quem assim fala não leu bem a Sagrada Escritura.

É altura de nós, cristãos, dizermos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz sentido nenhum dividir os homens em categorias segundo os tipos de trabalho, considerando umas tarefas mais nobres que outras. O trabalho, todo o trabalho, é um testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é um meio de desenvolvimento da personalidade;
é um vínculo de união com os outros seres, uma fonte de recursos para sustentar a família; é um meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.

Para um cristão, essas perspetivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho é uma participação na obra criadora de Deus, que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra»; e também porque, tendo sido assumido por Cristo, o trabalho se nos apresenta como uma realidade redimida e redentora:
não é só o âmbito em que o homem vive, é meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora.

Cristo no cume das atividades humanas

Isto é realizável, não é um sonho inútil. Se nós, homens, tomássemos a decisão de albergar o amor de Deus no nosso coração! Cristo Nosso Senhor foi crucificado e, do alto da cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus recorda- nos a todos: «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», se Me puserdes no cume de todas as atividades da Terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo minhas testemunhas naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, «omnia traham ad meipsum», tudo atrairei a Mim: o meu reino entre vós será uma realidade!

Cristo Nosso Senhor continua empenhado nesta sementeira de salvação dos homens e de toda a criação, deste nosso mundo, que é bom, porque saiu bom das mãos de Deus. Foi a ofensa de Adão, o pecado do orgulho humano, que quebrou a harmonia divina da criação.

Quando, porém, chegou a plenitude dos tempos, Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito, que encarnou em Maria sempre virgem por obra do Espírito Santo, para restabelecer a paz; para que, redimido o homem do pecado, «adoptionem filiorum reciperemus», fôssemos constituídos filhos de Deus, capazes de participar na intimidade divina, e fosse concedido a este homem novo, a esta nova estirpe dos filhos de Deus, libertar todo o Universo da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que as reconciliou com Deus.

A isto fomos chamados, nós, cristãos; esta é a nossa tarefa apostólica e a ânsia que nos deve queimar a alma: conseguir que o Reino de Cristo seja uma realidade, que não haja mais ódios nem mais crueldades, que difundamos pelo mundo o bálsamo forte e pacífico do amor. Peçamos hoje ao nosso Rei que nos faça colaborar humilde e fervorosamente no divino propósito de unir o que está partido, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem desordenou, de levar ao seu fim aquilo que se desencaminha, de reconstruir a concórdia de toda a criação.

Abraçar a fé cristã é comprometer-se a prosseguir a missão de Jesus entre as criaturas. Temos de ser, cada um de nós, alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Só assim poderemos levar a cabo esse empreendimento grande, imenso, interminável: santificar, a partir de dentro, todas as estruturas temporais, levando-lhes o fermento da redenção.

Eu nunca falo de política. Não concebo a missão dos cristãos neste mundo como uma corrente político-religiosa – seria uma loucura –, nem mesmo com o bom propósito de infundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso meter em Deus é o coração de cada um, seja quem for. Procuremos falar a cada cristão, de forma que, onde quer que esteja – em circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas do resultado das situações históricas, sempre mutáveis –, saiba dar
testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professa.

O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceitar que Cristo habite e reine no seu coração, a eficácia salvífica do Senhor estará fortemente presente em todo o seu trabalho humano. É indiferente que essa ocupação seja, como se costuma dizer, elevada ou modesta, porque uma elevação humana pode ser uma vileza aos olhos de Deus, e aquilo a que chamamos modesto poderá ser uma elevação cristã de santidade e de serviço.