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Há 4 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Trabalho → e apostolado.

O trabalho profissional também é apostolado, oportunidade de entrega aos outros homens, para lhes revelar Cristo e os levar a Deus Pai, consequência da caridade que o Espírito Santo derrama nas almas. Entre as indicações que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso sobre a forma como deve manifestar-se a mudança que neles se operou com a conversão, o chamamento ao cristianismo, encontramos esta: «Aquele que roubava deixe de roubar; antes se esforce por trabalhar com as suas próprias mãos, fazendo o bem, para que tenha que partilhar com quem passa necessidade». Os homens têm necessidade do pão da terra para se sustentarem, mas também do pão do Céu, que os ilumine e lhes dê calor ao coração; podeis e deveis concretizar esse preceito apostólico com o vosso trabalho, com as iniciativas que promoverdes a partir dessa ocupação, nas vossas conversas, no convívio com os outros.

Se trabalharmos com este espírito, a nossa vida será, com as limitações próprias da condição terrena, uma antecipação da glória do Céu, dessa comunidade com Deus e com os santos onde apenas reinarão o amor, a entrega, a fidelidade, a amizade, a alegria. No vosso trabalho profissional vulgar e quotidiano, encontrareis a matéria – real, consistente, valiosa – para realizar toda a vida cristã, para atualizar a graça que nos vem de Cristo.

Nessa ocupação profissional, feita na presença de Deus, estarão em jogo a fé, a esperança e a caridade. As ocorrências do vosso trabalho, bem como as relações e os problemas que ele acarreta, alimentarão a vossa oração; o esforço por cumprirdes os deveres habituais será uma oportunidade para viverdes essa cruz que é essencial ao cristão. A experiência da vossa debilidade e os fracassos que acompanham sempre os esforços humanos tornar-vos-ão mais realistas, mais humildes, mais compreensivos com os outros. Os êxitos e as alegrias convidar-vos-ão a dar graças e a pensar que não viveis para vós mesmos, mas para o serviço aos outros e a Deus.

Mas esse servir humano, essa capacidade a que poderíamos chamar técnica, esse saber fazer o próprio ofício, deve incluir uma característica que foi fundamental no trabalho de São José e que devia ser fundamental para todo o cristão: o espírito de serviço, o desejo de trabalhar para contribuir para o bem dos outros homens. O trabalho de São José não foi uma atividade que visasse a autoafirmação, ainda que a dedicação de uma vida laboriosa tenha forjado nele uma personalidade madura, bem delineada. O patriarca trabalhava com a consciência de cumprir a vontade de Deus, pensando no bem dos seus, Jesus e Maria, e no bem de todos os habitantes da pequena Nazaré.

José seria um dos poucos, se não mesmo o único artesão de Nazaré; carpinteiro, possivelmente, mas, como é costume nas pequenas povoações, também capaz de fazer outras coisas: reparar um moinho que se tinha avariado, arranjar as fendas de um teto antes do inverno. José tiraria certamente muitos conterrâneos seus de apuros com um trabalho bem feito. O seu trabalho profissional era uma ocupação orientada para o serviço, para tornar agradável a vida das outras famílias da aldeia, e acompanhada de um sorriso, de uma palavra simpática, de um comentário feito como que de passagem, mas que devolve a fé e a alegria a quem está prestes a perdê-las.

Às vezes, quando se tratava de pessoas mais pobres do que ele, José aceitaria como pagamento uma coisa de pouco valor, que proporcionasse à outra pessoa a satisfação de pensar que o trabalho estava pago. Em situação normal, cobraria o que fosse razoável, nem mais nem menos; saberia exigir o que em justiça lhe era devido, já que a fidelidade a Deus não pode implicar a renúncia a direitos que, na realidade, são deveres. São José tinha de exigir o que era justo, porque tinha de, com a recompensa pelo seu trabalho, sustentar a família que Deus lhe havia confiado.

A exigência dos nossos direitos não deve ser fruto de um egoísmo individualista. Não ama a justiça quem não deseja que ela se cumpra em relação aos outros; e também não é lícito fechar-se numa religiosidade cómoda, esquecendo as necessidades dos o que é humanamente nobre. Parafraseando um conhecido texto do apóstolo São João, pode-se dizer que quem afirma que é justo com Deus, mas não é justo com os outros homens, está a mentir e a verdade não habita nele.

Como todos os cristãos que viveram esse momento, foi com emoção e alegria que recebi a decisão de celebrar a festa litúrgica de São José Operário. Esta festa, que é uma canonização do valor divino do trabalho, mostra que, na sua vida coletiva e pública, a Igreja propaga as verdades centrais do Evangelho que Deus quer que sejam especialmente meditadas na nossa época.

A vida futura

A missão apostólica de que Cristo encarregou todos os seus discípulos produz, portanto, resultados concretos no âmbito social. Não é admissível pensar que, para ser cristão, é preciso virar as costas ao mundo, ser um cético da natureza humana. Tudo, até o mais pequeno acontecimento, desde que seja honesto, encerra um sentido humano e divino. Ao assumir a nossa natureza humana,
exceto o pecado, Cristo, perfeito Homem, não veio destruir o que é humano, mas enobrecê-lo; veio partilhar todos os anseios do homem, menos a lamentável aventura do mal.

O cristão há de mostrar-se sempre disposto a santificar a sociedade a partir de dentro, estando plenamente no mundo, mas não sendo do mundo naquilo que ele tem – não por característica real, mas por defeito voluntário, pelo pecado – de negação de Deus, de oposição à sua amável vontade salvífica.

Referências da Sagrada Escritura