Rezar com mais premência
(24 de dezembro de 1969)
Na véspera do dia de Natal de 1969, depois do jantar, São Josemaria esteve a fazer tertúlia com os alunos do Colégio Romano da Santa Cruz. Como era habitual nessa noite, cantaram «Madre en la puerta hay un Niño», uma canção de Natal que o Fundador do Opus Dei tinha aprendido em casa de seus pais, e que inclui o verso: «Eu vim à Terra para sofrer».
Terei de retirar-me daqui a pouco, mas gostaria de vos dizer umas palavrinhas antes de me ir embora. Vede que lindo é o Menino; está indefeso.
Os vossos irmãos cantavam que Ele «veio à terra para sofrer», e eu digo-vos: para sofrer e para evitar sofrimentos aos outros. Ele sabia que vinha para a cruz; e, no entanto, há agora umas teorias, uma falsa ascética, que apresenta o Senhor na cruz enraivecido, dizendo aos homens: Eu estou aqui na cruz, e por isso também vos cravo nela. Não, meus filhos! O Senhor estendeu os braços com gesto de Sacerdote eterno, e deixou-se pregar ao madeiro da cruz para que nós não sofrêssemos, para que os nossos sofrimentos fossem mais suaves, doces até, amáveis.
Nesta Terra, a dor e o amor são inseparáveis; nesta vida, é preciso contar com a cruz. Quem não conta com a cruz, não é cristão; quem não conta com a cruz, encontra-a na mesma, e, além disso, encontra o desespero na cruz. Se contardes com a cruz, com Cristo Jesus na cruz, podeis estar certos de que, nos momentos mais duros, se aparecerem, estareis acompanhadíssimos, felizes, seguros, fortes; mas, para isso, tendes de ser almas contemplativas.
Almas de oração constante
Os meus filhos e eu devemos ser, no mundo, no meio da rua, no meio do nosso trabalho profissional, cada um no seu, almas contemplativas, almas que estejam constantemente a falar com o Senhor, ante o que parece bom e ante o que parece mau; porque, para um filho de Deus, tudo se ordena ao nosso bem. As pessoas acham tudo excessivo, quando o que lhes acontece não é bom; para nós, que temos um trato com Jesus, que temos intimidade com Jesus Cristo, Nosso Senhor e nosso amor, não há contrariedades nem acontecimentos maus: «Omnia in bonum!»1.
Intimidade com Cristo quer dizer ser alma de oração. Tendes de aprender a relacionar-vos com o Senhor, da manhã até à noite; deveis aprender a rezar durante o dia todo. Vereis que consolo, vereis que alegria, como andareis bem! Além disso, Ele quer que assim seja. Tenho aqui, anotados na agenda, uns textos da Escritura que costumo ler e meditar muito. Gostaria de que fizésseis o mesmo. Porque, se eu vos disser que convém cultivar o trato com Nosso Senhor na oração, isso já vale alguma coisa: sou um sacerdote ancião, tenho quase setenta anos; além disso, sou o Padre que o Senhor escolheu para vós na Terra, nesta grande família da Obra; amo-vos com toda a minha alma, e não posso dizer-vos uma coisa por outra... Mas – sobretudo – reparai, não sou só eu que vo-lo digo, é o próprio Senhor quem no-lo diz: «Et omnia quæcumque petieritis in oratione credentes accipietis»2, escreve São Mateus: tudo o que Me pedirdes na oração, se tiverdes fé, tudo alcançareis. E nós precisamos de muitas coisas. Esta família do Opus Dei, estendida por todo o mundo, precisa de muitas bênçãos de Deus ao longo do próximo ano. Vamos pedir com toda a alma, com toda a fé, dizendo com carinho ao Senhor, cada um na solidão acompanhada do coração: Jesus, queremos isto... Vós dizeis: queremos o que o Padre quiser, e a vossa oração é mais curta, não é verdade? Mas eu quero o que Ele quer; de modo que Ele está totalmente comprometido.
«Iterum dico vobis», diz-nos São Mateus, «quia, si duo ex vobis consenserint super terram, de omni re quamcumque petierint fiet illis a Patre meo qui in cælis est»3. Basta que haja dois que concordem em pedir..., e nós somos milhares a pedir a mesma coisa. Que segurança devemos ter! Que esperança tão segura! Uma esperança verdadeiramente divina, sobrenatural, porque está alicerçada no amor, na fé e nas palavras do próprio Jesus Cristo.
Afirma Ele que tudo quanto Lhe pedirmos nos será dado por seu Pai que está nos Céus. Esta nossa família sente-se, no mundo, unida ao Pai dos Céus como ninguém. Temos um Pai, e sentimos constantemente a filiação divina. Não fui eu que o quis, foi Ele. Poderia dizer-vos até quando, até o momento, até onde ocorreu aquela primeira oração de filhos de Deus.
Aprendi a chamar Pai, no pai-nosso, desde menino; mas sentir, ver, admirar esse querer de Deus de que sejamos seus filhos..., foi na rua, num elétrico – durante uma hora, hora e meia, não sei: Abba, Pater!, tive de gritar.
Há no Evangelho umas palavras maravilhosas (todas o são): «Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar»4. Naquele dia, Ele quis de uma maneira explícita, clara, categórica, que, comigo, vos sentísseis sempre filhos de Deus, desse Pai que está nos Céus e que nos dará o que pedirmos em nome de seu Filho.
Pedir com confiança
Meus filhos, «omnia quæcumque orantes petitis, credite quia accipietis, et evenient vobis»5, diz São Marcos: tudo o que pedirdes na oração, tudo!, crede que vos será dado. Vamos pedir juntos! E como se pede a Deus Nosso Senhor? Como se pede a uma mãe, como se pede a um irmão: umas vezes, com um olhar; outras, com um gesto; outras, portando-nos bem para que fiquem satisfeitos, para mostrar que lhes temos carinho; outras vezes, com a língua. Pois bem, pedi assim. Temos de utilizar, para fazer oração e tratar com Deus, todos os procedimentos humanos que utilizamos para nos entendermos com outra pessoa.
São Lucas: «Omnis enim qui petit accipit, et qui quærit invenit, et pulsanti aperietur»6. A todo aquele que pede alguma coisa, o Senhor escuta-o; mas é preciso pedir com fé, já o disse, e ainda mais se formos pelo menos dois, e neste caso somos muitos milhares!
«Si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis»7, diz São João: se pedirdes qualquer coisa ao Pai em meu nome, Ele dar-vo-la-á; em nome de Jesus. Quando O receberdes, diariamente, na eucaristia, dizei-lhe: Senhor, em teu nome, peço ao Pai... E pedi-Lhe tudo o que convém para que possamos servir melhor a Igreja de Deus, e trabalhar melhor para a glória do Senhor, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, da Santíssima Trindade, único Deus.
«Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum»8: pedi, recebereis e encher-vos-eis de alegria. O gaudium cum pace que pedimos todos os dias ao Senhor nas nossas Precesii é uma realidade na vida de um filho de Deus que se porta – com as suas lutas, com as suas pequenezes, com os seus erros; eu tenho tantos erros..., vós tereis alguns – que se porta bem com o Senhor, porque O ama, porque Lhe quer. A esse meu filho, Deus dar-lhe-á necessariamente o que Lhe pede, e dar-lhe-á também uma alegria que nenhuma coisa da Terra lhe poderá tirar do coração.
Uma segurança completa
Mais: mais trato e mais união. Leio-vos umas palavras que também são de São João, que é – em termos humanos – o apóstolo que melhor conhecia Jesus Cristo. «Si manseritis in me, et verba mea in vobis manserint, quodcumque volueritis petetis, et fiet vobis»9: se permanecerdes unidos a Mim, e as minhas palavras, a minha doutrina, estiverem em vós, tudo o que pedirdes vos será concedido.
Portanto, essa união com Jesus, esse trato, esse permanecer em Cristo deve dar-nos uma segurança completa. Eu tenho-a, meus filhos. Porque estas palavras que estou a comentar-vos – já vos disse – têm-me servido para a minha meditação, para voltar a encher-me de alegria nos momentos em que é preciso lutar.
Por isso, porque este alimento me faz bem, também vo-lo quero dar; quero dar-vos a certeza de que a oração é omnipotente. Pedi muito, bem unidos uns aos outros pela caridade fraterna; pedi, além disso, pondo de permeio a intenção do Padre, o que o Padre pede na missa, o que tem pedido continuamente ao Senhor. Continuamente, disse, e não retifico; neste preciso momento, estou a pedir, não estou apenas a conversar convosco. Estou a falar com Deus Nosso Senhor, a pedir-Lhe muitas coisas que são necessárias para a Igreja e para a Obra; peço-Lhe que afaste determinados obstáculos, que nos obrigaram a aceitar quando viemos para Roma. Não vos preocupeis, mas já sabeis que não me interessam – nem nunca me interessaram – os votos, nem as botas, nem os botins, nem os botões.
Pedi também pela paz no mundo: que não haja guerras, que acabem as guerras e os ódios. Pedi pela paz social: que não haja ódio entre as classes, para que as pessoas se queiram bem; que saibam conviver, que saibam desculpar, que saibam perdoar; senão, o amor de Cristo não estará presente.
Meus filhos, vamos pedir isso mesmo à Santíssima Virgem. Quando não souberdes o que dizer ao Senhor, talvez nem sequer repetir o que vos digo agora, deste modo, como numa conversa de família, recorrei à Virgem: minha Mãe, tu, que és Mãe de Deus, diz-me o que tenho de dizer-Lhe, como tenho de Lho dizer para que me oiça. E a Virgem bendita, que também é nossa Mãe, há de orientar-vos, há de inspirar-vos, e faremos uma oração muito bem feita sempre, e sereis contemplativos.
Rom 8, 28: «Tudo é para bem».
Mt 21, 22.
Mt 18, 19: «De novo vos digo que, se dois de vós se unirem na Terra para pedir alguma coisa, a obterão de meu Pai que está nos Céus».
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/en-dialogo-con-el-se%C3%B1or/rezar-com-mais-premencia/ (18/05/2026)