A vocação cristã
*Homilia proferida a 2 de dezembro de 1951, Domingo I do Advento
Começa o ano litúrgico e o introito* da Missa propõe-nos uma consideração intimamente relacionada com o princípio da nossa vida cristã: a vocação que recebemos. «Vias tuas, Domine, demonstra mihi et semitas tuas edoce me»: mostra-me, Senhor, os teus caminhos e ensina-me as tuas veredas. Pedimos ao Senhor que nos conduza, que nos mostre os seus passos, para podermos aspirar à plenitude dos seus mandamentos, que é a caridade.
Calculo que, tal como eu, ao pensar nas circunstâncias que acompanharam a vossa decisão de vos esforçardes por viver integralmente a fé, dareis muitas graças ao Senhor e tereis a convicção sincera – sem falsas humildades – de que não há nisto mérito algum da nossa parte. Habitualmente, aprendemos a invocar Deus na infância, dos lábios de pais cristãos; mais adiante, professores, colegas e simples conhecidos ter-nos-ão ajudado de muitas maneiras a não perder Jesus Cristo de vista.
Um dia (não quero generalizar, abre o coração ao Senhor e conta-Lhe a tua história), talvez um amigo, um cristão normal como tu, te tenha feito descobrir um panorama profundo e novo, que é, ao mesmo tempo, tão antigo como o Evangelho: sugeriu-te a possibilidade de te empenhares seriamente em seguir Cristo, em ser apóstolo de apóstolos. Nessa altura, talvez tenhas perdido o sossego, e só o recuperaste, transformado em paz, quando, livremente, porque te deu na gana – que é a razão mais sobrenatural –, disseste a Deus que sim. E foste inundado por uma alegria vigorosa e constante, que só desaparece quando te afastas dele.
Não gosto de falar de escolhidos ou de privilegiados. Mas é Cristo que fala, é Ele que escolhe, é essa a linguagem da Escritura: «elegit nos in ipso ante mundi constitutionem ut essemus sancti», diz São Paulo – escolheu-nos em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos. Sei que isto não te enche de orgulho, nem contribui para que te consideres superior aos outros homens. Essa escolha, que é a raiz do chamamento, deve ser a base da tua humildade: acaso se ergue um monumento aos pincéis de um grande pintor? Eles serviram para fazer obras-primas, mas o mérito é do artista. Nós, cristãos, somos apenas instrumentos do Criador do mundo, do Redentor de todos os homens.
*O introito era aquilo que se designa atualmente por «cântico de entrada».
Os apóstolos, homens comuns
Agrada-me refletir num precedente que é narrado passo a passo nas páginas do Evangelho: a vocação dos primeiros doze. Vamos meditá-la devagar, pedindo a essas santas testemunhas do Senhor que saibamos seguir Cristo como elas O seguiram.
Os primeiros apóstolos – a quem tenho grande devoção e afeto – não eram, humanamente falando, grande coisa. Em termos sociais, à exceção de Mateus, que tinha seguramente uma boa posição na vida e deixou tudo quando Jesus lho pediu, eram pescadores: viviam do que ganhavam ao dia, passando a noite a trabalhar para conseguirem sustentar-se.
Mas a posição social é o menos. Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais; não compreendiam os exemplos e as comparações mais simples, e recorriam ao Mestre, pedindo-Lhe: «Domine, edissere nobis parabolam», Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus alude, com uma imagem, ao fermento dos fariseus, julgam que está a recriminá-los por não terem comprado pão.
Pobres, ignorantes. E nem sequer eram simples, despretensiosos; dentro das suas limitações, eram ambiciosos: discutem muitas vezes quem seria o maior, quando – segundo a sua mentalidade – Cristo instaurasse na Terra o reino definitivo de Israel; chegam a discutir e a exaltar-se na intimidade do Cenáculo, nessa hora sublime em que Jesus está prestes a imolar-Se pela humanidade.
Fé, pouca; é o próprio Jesus Cristo quem o afirma. Viram ressuscitar mortos, curar todo o tipo de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar tempestades, expulsar demónios. São Pedro, escolhido como cabeça, é o único que é capaz de responder com prontidão: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira, razão pela qual se atreve a enfrentar Jesus para O impedir de Se entregar pela redenção dos homens; e Jesus tem de lhe responder: «Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!». Comenta São João Crisóstomo que «Pedro raciocinava humanamente e havia concluído que tudo aquilo – a Paixão e a morte – era indigno de Cristo, era reprovável; por isso, Jesus repreende-o e diz-lhe: não, sofrer não é indigno de Mim; tu pensas assim porque raciocinas com ideias carnais, humanas».
Estes homens de pouca fé destacar-se-ão talvez no amor a Cristo? Não há dúvida de que O amavam, pelo menos de palavra; às vezes, até se deixam arrebatar pelo entusiasmo: «Vamos nós também, para morrermos com Ele». Mas, à hora da verdade, todos hão de fugir, exceto João, que O amava com obras e de verdade: só este adolescente, o mais jovem dos apóstolos, permanece junto da cruz; os outros não sentiam esse amor forte como a morte.
Foram estes os discípulos escolhidos pelo Senhor; Cristo elegeu-os assim, e era assim que se comportavam antes de, cheios do Espírito Santo, se tornarem colunas da Igreja. São homens comuns, com defeitos, com debilidades, que dizem mais do que fazem. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus.
Connosco, sucedeu algo semelhante. Não teríamos grande dificuldade em identificar, na nossa família, entre os nossos amigos e colegas – já para não falar no imenso panorama do mundo –, tantas pessoas mais dignas do que nós de receber o chamamento de Cristo: mais simples, mais sábias, mais influentes, mais importantes, mais gratas, mais generosas.
Ao pensar nisto, sinto-me envergonhado. Mas também compreendo que a nossa lógica humana não se aplica às realidades da graça. Deus costuma procurar instrumentos fracos, para que seja claro e evidente que a obra é sua. São Paulo evoca a sua vocação com assombro: «Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus», escreve Saulo de Tarso, homem de uma personalidade e de um vigor que a história mais não fez do que engrandecer.
Não houve mérito algum da nossa parte, dizia-vos; porque a vocação tem por base o conhecimento da nossa miséria, a consciência de que as luzes que iluminam a alma – a fé –, o amor com que amamos – a caridade – e o desejo pelo qual nos mantemos – a esperança – são dons gratuitos de Deus. Por isso, não crescer em humildade significa perder de vista o objetivo da escolha divina: «ut essemus sancti», a santidade pessoal.
Pelo contrário, partindo dessa humildade, podemos compreender toda a maravilha do chamamento divino. A mão de Cristo colheu-nos num trigal e o semeador aperta o punhado de trigo na sua mão chagada. O sangue de Cristo banha a semente, empapa-a; depois, o Senhor atira esse trigo ao ar, para que, morrendo, seja vida e, afundando-se na terra, seja capaz de se multiplicar em espigas de ouro.
São horas de acordar
A epístola da Missa recorda-nos que temos de assumir esta responsabilidade de apóstolos com novo espírito, com ânimo, despertos. «Já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começámos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo. Despojemo-nos, por isso, das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz».
Dir-me-eis que não é fácil, e não vos faltará razão. Os inimigos do homem, que são os inimigos da sua santidade, procuram impedir essa vida nova, que consiste em nos revestirmos do espírito de Cristo. Não conheço melhor enumeração dos obstáculos à fidelidade cristã que a de São João: «concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum et superbia vitæ», tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida.
A concupiscência da carne não é só a tendência desordenada dos sentidos em geral, ou da apetência sexual, que não é má em si mesma, pois é uma realidade humana nobre e santificável, mas deve ser ordenada. Notai que nunca falo de impureza, mas de pureza, porque aquelas palavras de Cristo: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» se aplicam a todos. Por vocação divina, uns viverão essa pureza no matrimónio; outros, renunciando aos amores humanos para corresponderem única e apaixonadamente ao amor de Deus. Nem uns nem outros serão escravos da sensualidade, mas senhores do seu corpo e do seu coração para poderem dá-los, sacrificadamente, a outros.
Ao tratar a virtude da pureza, costumo acrescentar o qualificativo de «santa». A pureza cristã, a santa pureza, não é o orgulho de se sentir puro, não contaminado; é saber que temos os pés de barro, embora a graça de Deus nos livre, dia após dia das ciladas do inimigo. Considero que a insistência de alguns em escrever ou pregar quase exclusivamente sobre esta matéria, esquecendo outras virtudes que são capitais para o cristão e, em geral, para a convivência entre os homens, é uma deformação do cristianismo.
A santa pureza não é a única nem a principal virtude cristã; contudo, é indispensável para perseverar no esforço diário pela nossa santificação e, sem ela, a dedicação ao apostolado não é possível. A pureza é uma consequência do amor com que entregámos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação, é uma afirmação jubilosa.
Dizia que a concupiscência da carne não se reduz à desordem da sensualidade; também se traduz no comodismo, na falta de vibração que incita a procurar o que é mais fácil, o que é mais agradável, o atalho aparentemente mais curto, mesmo à custa de ceder na fidelidade a Deus.
Ter esse comportamento é render-se incondicionalmente ao império de uma das leis, a lei do pecado, contra a qual São Paulo nos previne: «Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável sou eu! Quem me há de libertar deste corpo que pertence à morte?». Ouvi a resposta do apóstolo: a graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Podemos e devemos lutar contra a concupiscência da carne, porque, se formos humildes, a graça do Senhor nunca nos faltará.
O outro inimigo, escreve São João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas aquilo que se pode tocar. Os olhos ficam como que agarrados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não são capazes de descobrir as realidades sobrenaturais. Podemos, portanto, utilizar esta expressão da Sagrada Escritura para referir a avareza dos bens materiais, mas também aquela deformação que nos leva a observar aquilo que nos rodeia – os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo – com uma visão apenas humana.
Os olhos da alma embotam-se; a razão julga-se autossuficiente, capaz de tudo compreender, prescindindo de Deus. É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência de que Deus nosso Pai dotou o homem, a fim de poder conhecê-lo e amá-lo livremente. Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do Universo, entusiasma-se de novo com o «sereis como Deus» e, enchendo-se de amor a si mesma, vira as costas ao amor de Deus.
Quando tal acontece, a nossa existência pode entregar-se sem condições nas mãos do terceiro inimigo, a superbia vitæ. Não se trata apenas de pensamentos efémeros de vaidade e amor-próprio; é uma presunção generalizada. Não nos enganemos, porque este é o pior dos males, a raiz de todos os extravios. A luta contra a soberba há de ser constante, pois não é em vão que se diz, de modo gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da pessoa. É a altivez do fariseu, que Deus Se mostra renitente em justificar, porque encontra nele uma barreira de autossuficiência; é a arrogância que leva a desprezar os outros, a dominá-los, a maltratá-los, porque onde há soberba, há também ofensa e desonra.
A misericórdia de Deus
Começa hoje o tempo do Advento e faz-nos bem considerar as insídias destes inimigos da alma: a desordem da sensualidade e da leviandade; o desatino da razão que se opõe ao Senhor; a presunção altaneira, que esteriliza o amor a Deus e às criaturas. Todas estas disposições são obstáculos autênticos e grande é o seu poder perturbador. Por isso, a liturgia faz-nos implorar a misericórdia divina: «Para Vós, Senhor, elevo a minha alma. Meu Deus, em Vós confio. Não seja confundido nem de mim escarneçam os inimigos», rezamos no introito da Missa; e, na antífona do ofertório*, repetiremos: «Em Ti confio: não seja confundido.»
Agora que se aproxima o tempo da salvação, dá gosto ouvir dos lábios de São Paulo: «Quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, Ele salvou-nos, não em virtude de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas da sua misericórdia.»
Percorrendo a Sagrada Escritura, descobrireis constantemente a presença da misericórdia de Deus: ela enche a Terra e estende-se a todos os seus filhos, «super omnem carnem»; envolve-nos, precede-nos, multiplica-se para nos ajudar e tem sido continuamente confirmada. Cuidando de nós como Pai amoroso, Deus tem-nos presentes na sua misericórdia: misericórdia que é suave, «propícia como nuvem de chuva no tempo da seca».
Jesus Cristo resume e compendia toda a história da misericórdia divina: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia»; e noutra ocasião: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso». Ficaram também profundamente gravadas em nós, entre muitas outras cenas do Evangelho, a clemência com a mulher adúltera, as parábolas do filho pródigo, da ovelha perdida e do devedor perdoado, a ressurreição do filho da viúva de Naim. Quantas razões de justiça para explicar este grande prodígio: o filho único daquela viúva pobre, o que dava sentido à sua vida, o que poderia ajudá-la na velhice, havia morrido! Mas Cristo não faz o milagre por justiça; fá-lo por compaixão, porque Se comove perante a dor humana.
Que segurança deve dar-nos a comiseração do Senhor! «Se vier a clamar a Mim, ouvi-lo-ei, porque Eu sou misericordioso»: é um convite, uma promessa que Deus não deixará de cumprir. «Aproximemo-nos, então, com grande confiança, do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça para uma ajuda oportuna.» Os inimigos da nossa santificação nada conseguirão, porque estamos protegidos pela misericórdia de Deus; e se, por nossa culpa e pela nossa fraqueza, cairmos, o Senhor socorre-nos e levanta-nos. «Tinhas aprendido a evitar a negligência, a afastar de ti a arrogância, a adquirir piedade, a não ser prisioneiro das questões mundanas, a não preferir o caduco ao eterno. Mas, como a debilidade humana não é capaz de manter um passo decidido num mundo resvaladiço, o bom médico também te indicou os remédios para a desorientação e o juiz misericordioso não te negou a esperança do perdão.»
* Quando esta homilia foi proferida, a antífona do ofertório era de preceito
na liturgia, tendo fórmula própria, de acordo com a celebração. Atualmente,
pode cantar-se o cântico do ofertório, que não tem fórmulas predefinidas
A correspondência humana
É neste contexto da misericórdia de Deus que a existência do cristão se desenvolve; este é o âmbito do seu esforço para se comportar como filho do Pai. E quais são os principais meios para conseguir que a vocação se consolide? Hoje vou apontar-te dois, que são como que eixos vivos do comportamento cristão: a vida interior e a formação doutrinal, o conhecimento profundo da nossa fé.
Em primeiro lugar, a vida interior. São tão poucos ainda os que a compreendem! Ao ouvir falar de vida interior, pensam logo na obscuridade do templo, quando não no ambiente rarefeito de algumas sacristias. Há mais de um quarto de século que ando a dizer que não se trata disso. Falo da vida interior de cristãos comuns, que andam habitualmente pela rua, ao ar livre; e que passam o dia unidos a Jesus, seja na rua, no trabalho, na família ou nos momentos de diversão. O que é isto senão vida de oração contínua? Pois não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusares-te? A fé cristã é isto, e foi sempre assim que as almas de oração a conceberam: «Torna-se Deus aquele homem que quer o mesmo que Deus quer», escreve Clemente de Alexandria.
A princípio, custa. Temos de nos esforçar para nos dirigirmos ao Senhor, agradecendo a sua piedade paternal e concreta connosco. Pouco a pouco, o amor de Deus torna-se palpável – embora não seja uma questão de sentimentos – como um arranhão na alma, pois Cristo persegue-nos amorosamente: «Eu estou à porta e bato.» Como vai a tua vida de oração? Não sentes por vezes, durante o dia, o desejo de falar calmamente com Ele? Não Lhe dizes: mais logo, conto-Te isto, depois conversaremos sobre aquilo?
Nos períodos expressamente dedicados a esse colóquio com o Senhor, o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência – ajudada pela graça – enche as realidades humanas de realidades sobrenaturais. E, como fruto, farás propósitos claros, práticos, de melhorar o teu comportamento, de tratar todos os homens com fina caridade, de te empenhares a fundo – com o empenho dos bons desportistas – nesta luta cristã de amor e de paz.
A oração torna-se contínua, como o bater do coração, como a pulsação. Sem essa presença de Deus, não há vida contemplativa; e, sem vida contemplativa, de pouco vale trabalhar por Cristo, pois em vão trabalham os construtores se o Senhor não edificar a casa.
O sal da mortificação
Para se santificar, o cristão vulgar – que não é religioso nem se afasta do mundo, porque o mundo é o lugar do seu encontro com Cristo – não precisa de usar hábito nem de ostentar quaisquer sinais distintivos. Os seus sinais são internos: a constante presença de Deus e o espírito de mortificação; que, na realidade, são uma só coisa, porque a mortificação é a oração dos sentidos.
A vocação cristã é uma vocação de sacrifício, de penitência, de expiação. Temos de reparar pelos nossos pecados (quantas vezes não virámos a cara para não ver a Deus!) e por todos os pecados dos homens. Temos de seguir de perto os passos de Cristo, trazendo «sempre no nosso corpo a morte de Jesus», a sua abnegação, o seu rebaixamento na cruz, «para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo». O nosso caminho é de imolação, e é nesta renúncia que encontraremos o gaudium cum pace, a alegria e a paz.
Não olhamos o mundo com um olhar triste. Os biógrafos de santos que queriam a todo o custo encontrar coisas extraordinárias nos servos de Deus logo desde os primeiros vagidos – contando de alguns que não choravam em pequeninos nem mamavam às sextas-feiras, por mortificação – prestaram, talvez involuntariamente, um fraco serviço à catequese. Tu e eu nascemos a chorar, como Deus manda; e sugámos o peito da nossa mãe sem nos preocuparmos com quaresmas nem têmporas...
Agora, com o auxílio de Deus, aprendemos a descobrir, ao longo de dias aparentemente sempre iguais, um spatium veræ penitentiæ, um tempo de verdadeira penitência; e, nesses instantes, fazemos propósitos de emendatio vitæ, de melhorar a nossa vida. É o caminho para nos dispormos a receber a graça e as inspirações do Espírito Santo na alma; e, com essa graça, vem – repito – o gaudium cum pace, a alegria, a paz e a perseverança no caminho.
A mortificação é o sal da nossa vida. E a melhor mortificação é aquela que combate – em pequenos pormenores ao longo de todo o dia – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Mortificações que não mortifiquem os outros, que nos tornem mais delicados, mais compreensivos, mais abertos a todos. Não és mortificado quando és suscetível, quando só te preocupas com os teus egoísmos, quando tiranizas os outros, quando não sabes privar-te de coisas supérfluas e, por vezes, das necessárias, quando o facto de as coisas não te correrem como tinhas
previsto te aborrece. Pelo contrário, és mortificado se sabes fazer-te tudo para todos, para salvar todos.
A fé e a inteligência
A vida de oração e de penitência e a consideração da nossa filiação divina transformam-nos em cristãos profundamente piedosos, como crianças pequenas diante de Deus. A piedade é a virtude dos filhos; ora, para poder confiar-se aos braços de seu pai, um filho há de ser e sentir-se pequeno, necessitado. Tenho meditado com frequência na vida de infância espiritual, que não se opõe à fortaleza, porque exige uma vontade robusta, uma maturidade bem temperada, um carácter firme e aberto.
Piedosos como crianças, mas não ignorantes, porque cada um se deve esforçar, na medida das suas possibilidades, por fazer um estudo sério, científico, da fé; e que é isto, senão teologia? Piedade de crianças, portanto, e doutrina segura de teólogos.
O esforço para adquirir esta ciência teológica – a boa e firme doutrina cristã – deve-se, em primeiro lugar, ao desejo de conhecer e amar a Deus; mas é, simultaneamente, uma consequência da preocupação geral da alma fiel em compreender o significado mais profundo deste mundo, que é obra do Criador. Assistimos com periódica monotonia a tentativas de ressuscitar uma alegada incompatibilidade entre a fé e a ciência, entre a inteligência humana e a Revelação divina; tal incompatibilidade, que não é senão aparente, só poderá resultar de não se compreenderem os termos reais do problema.
Com efeito, se o mundo saiu das mãos de Deus, se Ele criou o homem à sua imagem e semelhança e lhe deu uma centelha da sua luz, o trabalho da inteligência deverá revelar – à custa de grande esforço, é certo – o sentido divino que está presente na natureza das coisas; além disso, com a luz da fé, compreendemos também o seu sentido sobrenatural, que resulta da nossa elevação à ordem da graça. Não podemos admitir o medo da ciência, visto que qualquer labor, se for verdadeiramente científico, tende para a verdade; ora, Cristo disse: «Ego sum veritas», Eu sou a verdade.
O cristão há de ter fome de saber. Desde o cultivo dos saberes mais abstratos até às competências do artesão, tudo pode e deve levar a Deus, porque não há tarefa humana que não seja santificável, motivo para a santificação de quem a realiza e oportunidade para colaborar com Deus na santificação daqueles que nos rodeiam. A luz dos seguidores de Jesus Cristo não deve estar metida no fundo do vale, mas há de ser elevada ao cume da montanha, «de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso
Pai, que está no céu».
Trabalhar assim é oração. Estudar assim é oração. Investigar assim é oração. E não saímos do mesmo: tudo é oração, tudo pode e deve levar-nos a Deus, alimentar essa relação contínua com Ele, de manhã à noite. Todo o trabalho honrado pode ser oração, e todo o trabalho que é oração é apostolado. Deste modo, a alma fortalece-se numa unidade de vida simples e forte.
A esperança do Advento
Nada mais quero dizer-vos neste primeiro domingo do Advento, quando começamos a contar os dias que nos aproximam do Natal do Salvador. Vimos a realidade da vocação cristã: que o Senhor confia em nós para levar almas à santidade, para as aproximar de Si, para as unir à Igreja e fazer chegar o Reino de Deus a todos os corações. O Senhor quer-nos entregues, fiéis, dedicados, com amor. Quer-nos santos, muito seus.
De um lado, estão a soberba, a sensualidade e o tédio, o egoísmo; do outro, o amor, a entrega, a misericórdia, a humildade, o sacrifício, a alegria. Tens de escolher. Foste chamado a uma vida de fé, de esperança e de caridade. Não podes cruzar os braços e deixar-te ficar num isolamento medíocre.
Em certa ocasião, vi uma águia fechada numa jaula de ferro. Estava suja, meio depenada e tinha entre as garras um pedaço de carne podre. Pensei no que seria de mim se abandonasse a vocação que recebi de Deus. Tive pena daquele animal solitário, aprisionado, que nascera para subir muito alto e olhar o Sol de frente. Nós temos capacidade de ascender às humildes alturas do amor de Deus, do serviço a todos os homens; mas, para isso, não pode haver na nossa alma recantos onde o sol de Cristo não consiga entrar. Temos de deitar fora todas as preocupações que nos afastem dele; e, depois, Cristo na tua inteligência, Cristo nos teus lábios, Cristo no teu coração, Cristo nas tuas obras: toda a vida – o coração e as obras, a inteligência e as palavras – cheia de Deus.
«Cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima», lemos no Evangelho. O tempo do Advento é um tempo de esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, essa unidade de vida que tem como fio condutor a presença de Deus nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária.
Pede-o a Nossa Senhora comigo, imaginando como terá passado aqueles meses, à espera do Filho que haveria de nascer. E Nossa Senhora, Santa Maria, fará que sejas alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo!
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/a-vocacao-crista/ (18/05/2026)