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Depois deste protesto de amor, não podemos deixar de nos comportar como amigos de Deus: «in omnibus exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros», comportemo-nos em tudo como servidores do Senhor. Se te deres como Ele quer, a ação da graça será visível no teu comportamento profissional, no trabalho, no empenho por fazer divinamente as coisas humanas, grandes ou pequenas, já que todas adquirem uma nova dimensão através do Amor.

Mas nesta Quaresma não podemos esquecer que não é fácil querer servir a Deus. Continuando a seguir o texto de São Paulo que se lê na epístola deste domingo, recordamos as dificuldades: «Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência nas tribulações, nas necessidades e nas angústias, nos açoites e nas prisões, nos tumultos e nas fadigas, nas vigílias e nos jejuns, pela pureza e pela ciência, pela magnanimidade e pela
bondade, pelo Espírito Santo e pelo amor sem fingimento, pela palavra da verdade e pelo poder de Deus.»

Nos mais diferentes momentos da vida, em todas as situações, havemos de comportar-nos como ministros de Deus, sabendo que o Senhor está connosco, que somos seus filhos. Temos de ter consciência dessa raiz divina que está inserida na nossa vida, e agir em conformidade.

Estas palavras do apóstolo devem encher-vos de alegria, porque são como que uma canonização da vossa vocação de cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, partilhando com os demais homens, vossos iguais, ideais, trabalhos e alegrias. Tudo isso é caminho divino. O que o Senhor vos pede é que vos comporteis em todos os momentos como filhos e ministros seus.

Mas estas circunstâncias comuns da vida só serão caminho divino se nos convertermos a sério, se nos entregarmos. Porque São Paulo usa uma linguagem dura, e promete ao cristão uma vida difícil, arriscada, em perpétua tensão; como se desfigurou o cristianismo ao tentar fazer dele um caminho cómodo! Mas também é uma desfiguração da verdade pensar que essa vida profunda e séria, que conhece vivamente todos os obstáculos da existência humana, é uma vida de angústia, de opressão ou de medo.

O cristão é realista, de um realismo sobrenatural e humano, sensível a todos os matizes da vida: a dor e a alegria, o sofrimento próprio e o alheio, a certeza e a perplexidade, a generosidade e a tendência para o egoísmo. O cristão conhece tudo e com tudo se confronta, cheio de firmeza humana e da fortaleza que recebe de Deus.

Referências da Sagrada Escritura
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