A conversão dos filhos de Deus

*Homilia proferida a 2 de março de 1952, Domingo I da Quaresma

Entrámos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cómodo; não basta estar na Igreja e deixar passar os anos. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão – esse momento único que cada um de nós recorda, em que percebemos claramente tudo o que o Senhor nos pedia – é importante; mas ainda mais importantes, e mais difíceis, são as conversões sucessivas. Ora, para facilitar o trabalho da graça nessas conversões sucessivas, é preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que estamos a fazer mal, pedir perdão.

«Invocabit me et ego exaudiam eum», lemos na liturgia deste domingo: quando Me invocar, hei de atendê-lo, diz o Senhor. Reparai nesta maravilha que é o cuidado de Deus por nós: está sempre disposto a ouvir-nos, atento à palavra do homem em todos os momentos. Ele ouve-nos em qualquer altura – mas de modo especial agora, porque o nosso coração tem boas disposições, está decidido a purificar-se –, e não deixará de atender o que Lhe pedir «um coração
contrito e arrependido».

O Senhor ouve-nos para intervir, para Se meter na nossa vida, para nos livrar do mal e nos encher de bem: «Eripiam eum et glorificabo eum», hei de libertá-lo e dar-lhe glória, diz do homem. Esperança de glória, portanto; e já aqui temos, como doutras vezes, o começo desse movimento íntimo que é a vida espiritual. A esperança da glorificação acentua a nossa fé e estimula a nossa caridade: e assim foram postas em movimento as três virtudes teologais, virtudes divinas que nos assemelham a Deus nosso Pai.

Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a fé, a esperança, a caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma oportunidade para intensificarmos as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era apenas isso, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são, repito, fruto da fé, da esperança e do amor.

A arriscada segurança do Cristão

«Qui habitat in adiutorio Altissimi, in protectione Dei coeli commorabitur»: habitar sob a proteção de Deus, viver com Deus, eis a arriscada segurança do cristão. Temos de estar convencidos de que Deus nos ouve, de que está sempre atento; assim, o nosso coração encher-se-á de paz. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta em partilhar: quer tudo. E aproximar-se um pouco mais d’Ele significa estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir com mais atenção as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.

Certamente que, desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua palavra. Mas não é verdade que ainda há tanto por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É indubitavelmente necessária uma nova mudança, uma lealdade mais plena, uma humildade mais profunda,
de modo que, diminuindo o nosso egoísmo, Cristo cresça em nós, pois «illum oportet crescere, me autem minui», Ele é que deve crescer, e eu diminuir.

Não podemos ficar parados. Temos de avançar para a meta que São Paulo apontava: «Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim». A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas, para quem deseja ser coerente com a vida divina que, pelo batismo, Deus fez nascer na nossa alma, não há outro caminho: o avanço é progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo
do amor de Deus tem de ser alimentado, tem de aumentar todos os dias, arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, quando não aumenta, está a caminho de se extinguir. Recordai as palavras de Santo Agostinho: «Se disseres basta, estás perdido. Procura sempre mais, caminha sempre, progride sempre. Não permaneças no mesmo sítio, não retrocedas, não te desvies.»

A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo, em desejos de santidade, em generosidade apostólica no meu dia a dia, no meu trabalho habitual entre os meus companheiros de profissão?

Cada um responda a estas perguntas sem ruído de palavras e verá que é necessária uma nova transformação, para que Cristo viva em nós, para que a sua imagem se reflita limpidamente no nosso comportamento.

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me.» Cristo diz-no-lo de novo, a nós, intimamente: a cruz de cada dia. Escreve São Jerónimo: «Não só em tempo de perseguição, ou quando se apresenta a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo
que éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo.»

Na verdade, estas considerações mais não são que o eco das do apóstolo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz – pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade –, procurando discernir o que é agradável ao Senhor.»

A conversão é coisa de um instante; a santificação é uma tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs na nossa alma, aspira a crescer, a expressar-se em obras, a dar frutos que sejam, em cada momento, agradáveis ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar – nas novas situações da nossa vida – a luz e o impulso da primeira conversão. E é por essa razão que havemos de nos preparar com um
exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para podermos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor a nós próprios. Não há outro caminho para nos convertermos de novo.

O tempo oportuno

«Exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis», exortamos-vos a não receber em vão a graça de Deus. Porque a graça divina poderá encher a nossa alma nesta Quaresma, se não fecharmos as portas do coração. E havemos de ter estas boas disposições, o desejo de nos transformarmos a sério, de não brincarmos com a graça do Senhor.

Não gosto de falar de temor, porque o que move o cristão é a caridade de Deus, que se manifestou para nós em Cristo e nos ensina a amar todos os homens e a criação inteira; mas devemos falar, isso sim, de responsabilidade, de seriedade. «Não vos enganeis: de Deus não se zomba», adverte-nos o mesmo apóstolo.

Temos de tomar uma decisão. Não é lícito viver mantendo acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao diabo: temos de apagar a vela do diabo e de consumir a nossa vida fazendo-a arder por inteiro ao serviço do Senhor. Se o nosso desejo de santidade for sincero, se tivermos a docilidade de nos abandonarmos nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre
disposto a dar-nos a sua graça e, especialmente neste tempo, a graça para uma nova conversão, para melhorarmos a nossa vida de cristãos.

Não podemos olhar para esta Quaresma como uma simples repetição cíclica do tempo litúrgico. Este momento é único; é uma ajuda divina que temos de aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós – hoje, agora – uma grande mudança.

«Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis», é este o tempo favorável, que pode ser o dia da salvação. Ouvem-se de novo os assobios do Bom Pastor, o seu chamamento afetuoso: «Ego vocavi te nomine tuo.» Ele chama cada um de nós pelo seu nome, com o diminutivo familiar pelo qual nos tratam as pessoas que nos amam. A ternura de Jesus por nós não cabe em palavras.

Considerai comigo esta maravilha do amor de Deus: o Senhor vem ao nosso encontro, espera por nós, coloca-Se à beira do caminho, para que não tenhamos outro remédio senão vê-lo. E chama pessoalmente por nós, falando-nos das nossas coisas, que também são as suas, movendo a nossa consciência à compunção, abrindo-a à generosidade, imprimindo na nossa alma o desejo de
sermos fiéis, de podermos chamar-nos seus discípulos. Basta ouvir essas palavras íntimas da graça, que são como que uma repreensão tantas vezes afetuosa, para termos consciência de que Ele não Se esqueceu de nós durante todo aquele tempo em que, por culpa nossa, não O vimos. Cristo ama-nos com o afeto inesgotável que cabe no seu coração de Deus.

Reparai na sua insistência: «No tempo favorável, ouvi-te e, no dia da salvação, vim em teu auxílio.» Já que Ele te promete a glória, o seu amor, e ta oferece oportunamente, e te chama, o que vais tu dar ao Senhor? Como responderás, como responderei eu também, a esse amor de Jesus que passa?

«Ecce nunc dies salutis», aqui está, diante de nós, este dia da salvação. Chega-nos aos ouvidos o chamamento do Bom Pastor: «Ego vocavi te nomine tuo», chamei-te, a ti, pelo teu nome. Temos de responder – amor com amor se paga – dizendo-Lhe: «Ecce ego quia vocasti me», chamaste por mim e aqui estou, decidido a não permitir que este tempo de Quarema passe como a água sobre as pedras, sem deixar rasto. Deixar-me-ei impregnar, transformar; converter-me-ei, dirigir-me-ei de novo ao Senhor, amando-O como Ele deseja ser amado.

«Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.». Comenta Santo Agostinho: «Que resta do teu coração para poderes amar-te a ti mesmo? Que resta da tua alma, da tua mente? “Ex toto”, diz o texto. “Totum exigit te, qui fecit te”», quem te fez exige tudo de ti.

Depois deste protesto de amor, não podemos deixar de nos comportar como amigos de Deus: «in omnibus exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros», comportemo-nos em tudo como servidores do Senhor. Se te deres como Ele quer, a ação da graça será visível no teu comportamento profissional, no trabalho, no empenho por fazer divinamente as coisas humanas, grandes ou pequenas, já que todas adquirem uma nova dimensão através do Amor.

Mas nesta Quaresma não podemos esquecer que não é fácil querer servir a Deus. Continuando a seguir o texto de São Paulo que se lê na epístola deste domingo, recordamos as dificuldades: «Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência nas tribulações, nas necessidades e nas angústias, nos açoites e nas prisões, nos tumultos e nas fadigas, nas vigílias e nos jejuns, pela pureza e pela ciência, pela magnanimidade e pela
bondade, pelo Espírito Santo e pelo amor sem fingimento, pela palavra da verdade e pelo poder de Deus.»

Nos mais diferentes momentos da vida, em todas as situações, havemos de comportar-nos como ministros de Deus, sabendo que o Senhor está connosco, que somos seus filhos. Temos de ter consciência dessa raiz divina que está inserida na nossa vida, e agir em conformidade.

Estas palavras do apóstolo devem encher-vos de alegria, porque são como que uma canonização da vossa vocação de cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, partilhando com os demais homens, vossos iguais, ideais, trabalhos e alegrias. Tudo isso é caminho divino. O que o Senhor vos pede é que vos comporteis em todos os momentos como filhos e ministros seus.

Mas estas circunstâncias comuns da vida só serão caminho divino se nos convertermos a sério, se nos entregarmos. Porque São Paulo usa uma linguagem dura, e promete ao cristão uma vida difícil, arriscada, em perpétua tensão; como se desfigurou o cristianismo ao tentar fazer dele um caminho cómodo! Mas também é uma desfiguração da verdade pensar que essa vida profunda e séria, que conhece vivamente todos os obstáculos da existência humana, é uma vida de angústia, de opressão ou de medo.

O cristão é realista, de um realismo sobrenatural e humano, sensível a todos os matizes da vida: a dor e a alegria, o sofrimento próprio e o alheio, a certeza e a perplexidade, a generosidade e a tendência para o egoísmo. O cristão conhece tudo e com tudo se confronta, cheio de firmeza humana e da fortaleza que recebe de Deus.

As tentações de Cristo

A Quaresma comemora os quarenta dias que Jesus passou no deserto, preparando-Se para os anos de pregação, que culminam na cruz e na glória da Páscoa. Foram quarenta dias de oração e de penitência, no fim dos quais teve lugar o episódio que a liturgia de hoje oferece à nossa consideração no evangelho da Missa: as tentações de Cristo.

É uma cena cheia de mistério, que o homem em vão pretende entender – Deus submete-Se à tentação, deixa agir o Maligno –, mas na qual podemos meditar, pedindo ao Senhor que nos faça compreender os ensinamentos nela contidos.

Jesus é tentado. A tradição esclarece este episódio com a consideração de que Nosso Senhor quis sofrer tentações para nos dar exemplo em tudo; e assim é, porque Cristo foi perfeito Homem, igual a nós, salvo no pecado. Após quarenta dias de jejum, alimentando-Se apenas – talvez – de ervas e de raízes, e de um pouco de água, Jesus sente fome: fome autêntica, como a de qualquer criatura. E, quando o demónio Lhe propõe que transforme as pedras em pão, Nosso Senhor não só rejeita o alimento que o corpo Lhe pedia, como afasta uma sugestão de maior relevância: usar o poder divino para resolver, digamos assim, um problema pessoal. 

Ao ler os Evangelhos, tereis notado que Jesus não faz milagres em proveito próprio. Transforma a água em vinho para os noivos de Caná e multiplica os pães e os peixes para dar de comer a uma multidão faminta. Mas Ele ganha o pão, durante muitos anos, com o trabalho das suas mãos; e mais tarde, durante o seu peregrinar por terras de Israel, vive com a ajuda daqueles que O seguem. 

Relata São João que, depois de uma longa caminhada, chegando Jesus ao poço de Sicar, manda os discípulos à cidade comprar alimentos; e, vendo a samaritana aproximar-se, pede-lhe água, porque Ele não tinha com que tirá-la. O seu corpo, fatigado pela longa caminhada, experimenta cansaço; e outras vezes recorre ao sono para repor as forças. Generosidade do Senhor, que Se humilhou, que aceitou plenamente a condição humana, que não Se serve do seu poder divino para fugir das dificuldades ou do esforço; que nos ensina a ser rijos, a amar o trabalho, a apreciar a nobreza humana e divina de saborear as consequências da entrega.

Na segunda tentação, quando o demónio Lhe propõe que Se atire do pináculo do Templo, Jesus recusa-Se novamente a recorrer ao seu poder divino. Cristo não busca a vanglória, o aparato, a comédia humana que tenta utilizar Deus como pano de fundo da própria excelência. Jesus Cristo quer cumprir a vontade do Pai sem adiantar os tempos nem antecipar a hora dos milagres, mas percorrendo passo a passo a dura senda dos homens, o amável caminho da cruz.

Na terceira tentação, encontramos uma situação muito parecida: oferecem-Lhe reinos, poder e glória. O demónio pretende alargar às ambições humanas uma atitude que deve estar reservada a Deus: promete uma vida fácil a quem se prostrar diante dele, diante dos ídolos. Nosso Senhor reconduz a adoração ao seu único e verdadeiro fim – Deus – e reafirma a sua vontade de servir: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.”»

Aprendamos com esta atitude de Jesus: durante a sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo o direito de ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo. Deste modo, o cristão fica a saber que toda a glória é para Deus e que não pode servir-se da sublimidade e grandeza do Evangelho como instrumento de interesses e ambições humanas.

Aprendamos com Jesus. A sua atitude de Se opor a qualquer glória humana está em perfeita correlação com a grandeza de uma missão singular: a missão do Filho amadíssimo de Deus, que encarna para salvar os homens. Uma missão que o amor do Pai rodeou de uma solicitude cheia de ternura: «Filius meus es tu,
ego hodie genui te. Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam», Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei. Pede-Me e Eu Te darei povos como herança.

O cristão que, seguindo Cristo, vive nessa atitude de completa adoração ao Pai também recebe do Senhor palavras de amoroso desvelo: «Porque acreditou em Mim, hei de salvá-lo; hei de defendê-lo porque conheceu o meu nome.»

Jesus disse que não ao demónio, ao príncipe das trevas, e, logo a seguir, aparece a luz: «Então, o diabo deixou-O e chegaram os anjos e serviram-no.» Jesus suportou a prova, e uma prova real, porque, comenta Santo Ambrósio, «não procedeu como Deus, usando o seu poder (de outra maneira, de que nos serviria o seu exemplo?), mas, como homem, serviu-Se dos recursos que tem em comum connosco».

O demónio citou o Antigo Testamento com intenção retorcida: «Ele deu ordens aos seus anjos, para que Te guardem em todos os teus caminhos.» Mas Jesus, recusando-Se a tentar seu Pai, devolve à passagem bíblica o seu sentido autêntico; e, como prémio da sua fidelidade, chegada a hora, os mensageiros de Deus Pai apresentam-se para O servir.

Vale a pena considerar o procedimento de Satanás com Jesus Cristo, Senhor nosso: argumenta com textos dos livros sagrados, cujo sentido retorce e desfigura de forma blasfema. Mas Jesus não Se deixa enganar, pois o Verbo feito carne conhece a Palavra divina, escrita para salvação dos homens, e não para sua confusão e condenação. Podemos concluir que quem está unido a Cristo pelo Amor nunca se deixará enganar por manipulações fraudulentas da
Sagrada Escritura, porque sabe que procurar confundir a consciência cristã utilizando com dolo os termos usados pela Sabedoria eterna, tentando fazer da luz trevas, é uma obra típica do demónio. 

Contemplemos um pouco esta intervenção dos anjos na vida de Jesus, pois assim entenderemos melhor o seu papel – a missão angélica – em toda a vida humana. A tradição cristã apresenta os anjos da guarda como grandes amigos dos homens, colocados por Deus a seu lado para os acompanharem nos seus caminhos. Por isso, convida-nos a falar com eles e a recorrer a eles.

Ao fazer-nos meditar estas passagens da vida de Cristo, a Igreja recorda-nos que a alegria também tem cabimento neste tempo da Quaresma, em que nos reconhecemos pecadores, cheios de misérias, necessitados de purificação. Porque a Quaresma é simultaneamente um tempo de fortaleza e de júbilo; temos de nos encher de alento, visto que não nos faltará a graça do Senhor, pois Deus estará a nosso lado e enviar-nos-á os seus anjos para serem
nossos companheiros de viagem, nossos prudentes conselheiros ao longo do caminho, nossos colaboradores em todos os empreendimentos. «In manibus portabunt te, ne forte offendas ad lapidem pedem tuum», os anjos hão de levar-te na palma das mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra, diz o salmo.

Temos de saber relacionar-nos com os anjos. Recorrer a eles agora, dizer ao teu anjo da guarda que estas águas sobrenaturais da Quaresma não deslizaram em vão sobre a tua alma, mas nela penetraram até ao fundo, porque tens um coração contrito. Pede-lhe que leve ao Senhor a boa vontade que a graça fez germinar na nossa miséria, como lírio nascido numa esterqueira. «Sancti angeli, custodes nostri, defendite nos in proelio, ut non pereamus in tremendo judicio», santos anjos da guarda, defendei-nos na batalha, para que não pereçamos no terrível juízo.

A filiação divina

Como se explica esta oração confiada, esta certeza de que não pereceremos na batalha? É uma convicção que assenta numa realidade que nunca me cansarei de admirar: a nossa filiação divina. O Senhor que nesta Quaresma pede a nossa conversão não é um dominador tirânico nem um juiz rígido e implacável; é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles, para nos prometer a sua amizade e o seu amor. A consciência da nossa filiação divina imprime alegria à nossa conversão: diz-nos que estamos a regressar à casa do Pai.

A filiação divina é o fundamento do espírito do Opus Dei. Todos os homens são filhos de Deus; mas um filho pode reagir de muitos modos diante de seu pai. Temos de nos esforçar por ser filhos que procuram lembrar-se de que o Senhor, amando-nos como filhos, fez que vivamos em sua casa, no meio deste mundo, que sejamos da sua família, que o que é seu seja nosso e o nosso seu, que
tenhamos com Ele aquela familiaridade e confiança que nos levam a pedir, como as crianças, a própria Lua!

Um filho de Deus trata o Senhor como Pai; não tem com Ele uma relação obsequiosa e servil, nem de reverência formal, de mera cortesia, mas uma relação cheia de sinceridade e confiança. Deus não Se escandaliza com os homens. Deus não Se cansa das nossas infidelidades. O nosso Pai do Céu perdoa qualquer ofensa quando o filho volta para Ele, quando se arrepende e pede perdão. Nosso Senhor é tão Pai que prevê os nossos desejos de sermos perdoados e Se adianta, abrindo-nos os braços com a sua graça.

Notai que não estou a inventar nada. Recordai a parábola que o Filho de Deus nos contou para nos fazer entender o amor do Pai que está nos Céus: a parábola do filho pródigo. Diz a Escritura: «Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.» São estas as palavras do livro sagrado: «cobriu-o de beijos». Será
possível falar de modo mais humano? Poderá descrever-se com maior expressividade o amor paternal de Deus pelos homens?

Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos, mas dir-Lhe-emos com São Paulo: «Abba, Pater!», Pai, meu Pai! Pois, sendo Ele o criador do Universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que O tratemos por Pai, que saboreemos essa palavra, que nos enche a alma de alegria. De certo modo, a vida humana é um constante voltar à casa do nosso Pai. E voltamos mediante a contrição, mediante uma conversão do coração que pressupõe o desejo de mudar, a firme
decisão de melhorar a nossa vida, e que, portanto, se exprime em obras de sacrifício e de entrega; voltamos à casa do Pai por meio do sacramento do perdão, no qual, confessando os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus.

Deus espera-nos como o pai da parábola, de braços abertos, embora nós não o mereçamos. Pouco importa o que Lhe devemos; tal como no caso do filho pródigo, só precisamos de Lhe abrir o coração, de ter saudades do lar paterno, de nos maravilharmos e alegrarmos com este dom divino de nos podermos chamar, e de sermos, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte,
verdadeiramente seus filhos.

Que estranha capacidade tem o homem de se esquecer das coisas mais maravilhosas e se acostumar ao mistério! Nesta Quaresma, consideremos de novo que um cristão não pode ser superficial. Estando plenamente metido no seu trabalho quotidiano, entre os homens seus iguais, atarefado, ocupado, em tensão, um cristão tem de estar, ao mesmo tempo, totalmente imerso em Deus, porque é filho de Deus.

A filiação divina é uma verdade gozosa, um mistério consolador. A filiação divina preenche toda a nossa vida espiritual, porque nos ensina a privar com o nosso Pai do Céu, a conhecê-lo, a amá-lo, enchendo assim de esperança a nossa luta interior e dando-nos a simplicidade confiada dos filhos pequenos. Mais ainda: precisamente por sermos filhos de Deus, essa realidade leva-nos também a contemplar com amor e admiração todas as coisas que saíram das mãos de Deus Pai Criador. Deste modo, somos contemplativos no meio do mundo, amando o mundo.

Na Quaresma, a liturgia considera as consequências do pecado de Adão na vida do homem. Adão não quis ser bom filho de Deus e revoltou-se. Mas também se ouve continuamente o eco dessa felix culpa – culpa feliz, ditosa – que toda a Igreja cantará, cheia de alegria, na vigília do Domingo de Ressurreição.

Chegada a plenitude dos tempos, Deus Pai enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para restabelecer a paz, para redimir o homem do pecado, de maneira que «adoptionem filiorum reciperemus», fôssemos constituídos filhos de Deus, libertos do jugo do pecado, capazes de participar na intimidade divina da Trindade. E assim, este homem novo, este novo enxerto dos filhos de Deus, pode agora libertar toda a criação da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que nos reconciliou com Deus. 

É tempo de penitência, pois. Mas, como vimos, não se trata de uma tarefa negativa. A Quaresma deve ser vivida com o espírito de filiação que Cristo nos comunicou e que pulsa na nossa alma. O Senhor chama-nos para que nos aproximemos dele, desejando ser como Ele: «Sede imitadores de Deus, como filhos bem amados»; colaborando humilde, mas fervorosamente, no divino
propósito de unir o que está separado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem pecador desordenou, de conduzir ao seu fim o que se desencaminhou, de restabelecer a divina concórdia de toda a criação.

A liturgia da Quaresma adquire por vezes tons trágicos, fruto da consideração do que significa para o homem afastar-se de Deus. Mas esta conclusão não é a última palavra. A última palavra pertence a Deus, é a palavra do seu amor salvador e misericordioso e, portanto, a palavra da nossa filiação divina. Por isso, repito-vos hoje com São João: «Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!» Filhos de Deus, irmãos do Verbo feito carne, daquele de quem foi dito: «Nele é que estava a vida […]. E a vida era a luz dos homens.» Filhos da luz, irmãos da luz – é isso que somos! Portadores da única chama capaz de incendiar os corações feitos de carne!

Calando-me eu agora e prosseguindo a Santa Missa, cada um de nós deve considerar o que o Senhor lhe pede, que propósitos, que decisões quer a ação da graça promover dentro de si. E, ao reconhecer essas exigências sobrenaturais e humanas de entrega e de luta, lembrai-vos de que o nosso modelo é Jesus Cristo; e de que Jesus, sendo Deus, permitiu que O tentassem, para que nos enchêssemos de alento e estivéssemos certos da vitória. Porque Ele não perde batalhas; estando unidos a Ele, nunca seremos vencidos, mas poderemos chamar-nos e ser realmente vencedores: bons filhos de Deus.

Vivamos contentes. Eu estou contente. Olhando para a minha vida, fazendo o exame pessoal de consciência que este tempo litúrgico da Quaresma nos pede, não devia estar. Mas sinto-me contente, porque vejo que o Senhor me procura uma vez mais, que o Senhor continua a ser meu Pai. Sei que vós e eu, decididamente, com o resplendor e a ajuda da graça, veremos que coisas temos de queimar e queimá-las-emos; que coisas temos de arrancar e arrancá-las-emos; que coisas temos de entregar e entregá-las-emos!

Não é fácil tarefa. Mas contamos com uma orientação clara, com uma realidade de que não devemos nem podemos prescindir: somos amados por Deus e deixaremos que o Espírito Santo opere em nós e nos purifique, para podermos assim abraçar-nos ao Filho de Deus na cruz, ressuscitando depois com Ele, porque a alegria da ressurreição está enraizada na cruz.

Maria, nossa Mãe, Auxilium christianorum, Refugium peccatorum, intercede junto de teu Filho para que Ele nos envie o Espírito Santo, que desperte em nossos corações a decisão de caminhar com passo firme e seguro, fazendo soar no mais fundo da nossa alma o chamamento que encheu de paz o martírio de um dos primeiros cristãos: «Veni ad Patrem», vem, volta para teu Pai, que
está à tua espera!

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