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Mas espreita-nos um inimigo poderoso, que se opõe ao nosso desejo de encarnar adequadamente a doutrina de Cristo: a soberba, que cresce quando não procuramos descobrir, depois dos fracassos e das derrotas, a mão benfeitora e misericordiosa do Senhor. Então, a alma enche-se de penumbra – de uma triste obscuridade – e julga-se perdida. E a imaginação inventa obstáculos que não são reais, que desapareceriam se os encarássemos com um pouco de humildade. Com o orgulho e a imaginação, a alma mete-se por
vezes em tortuosos calvários; mas nesses calvários não está Cristo, porque onde o Senhor está, há paz e alegria, mesmo que a alma esteja em carne viva e rodeada de trevas.
Outro inimigo hipócrita da nossa santificação: pensar que esta batalha interior tem de ser travada contra obstáculos extraordinários, contra dragões que cospem fogo; é mais uma manifestação de orgulho. Queremos lutar, mas estrondosamente, com clamores de trombetas e tremular de estandartes.
Temos de nos convencer de que o maior inimigo da pedra não é o picão, nem o machado, nem o golpe de qualquer outro instrumento, por mais contundente que seja; é a água miúda que se mete, gota a gota, entre as gretas da fraga, até lhe arruinar a estrutura. O perigo mais forte para o cristão é desprezar a luta nessas escaramuças que se vão infiltrando na alma pouco a pouco, o que a tornará branda, quebradiça e indiferente, insensível à voz de Deus.
Oiçamos o Senhor, que nos diz: «Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito; que é o mesmo que recordar-nos: luta a cada instante nesses pormenores aparentemente miúdos, mas grandes a meus olhos; vive com pontualidade o cumprimento do dever; sorri a quem precisa, mesmo que tenhas a alma dorida; dedica o tempo necessário à oração, sem regateios; ajuda quem te procura; pratica a justiça,
ampliando-a com a graça da caridade.
São estas e outras semelhantes as moções que sentiremos cada dia dentro de nós, qual aviso silencioso que nos leva a treinar-nos neste desporto sobrenatural de nos vencermos a nós mesmos. Que a luz de Deus nos ilumine, para compreendermos as suas advertências; que nos ajude a lutar, que esteja ao nosso lado na vitória; que não nos abandone no momento da queda, porque assim estaremos sempre em condições de nos levantarmos e continuarmos a combater.
Não podemos parar. O Senhor pede-nos uma luta cada vez mais rápida, cada vez mais profunda, cada vez mais ampla. Temos a obrigação de nos ultrapassar, porque, nesta competição, a única meta é a chegada à glória do Céu; e, se não chegássemos ao Céu, nada teria valido a pena.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/77/ (18/05/2026)