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O caminho da fé
A meta não é fácil: consiste em nos identificarmos com Cristo. Mas também não é difícil, se vivermos como o Senhor nos ensinou: recorrendo diariamente à sua palavra, impregnando a nossa vida da realidade sacramental que Ele nos deixou como alimento– a Eucaristia –, porque o caminho do cristão é andadeiro, como recorda uma antiga canção da minha terra. Deus chamou-nos clara e inequivocamente. Tal como os Reis Magos, nós descobrimos uma estrela, que é luz e rumo no céu da alma.
«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Nós temos a mesma experiência. Também nós fomos sentindo que, pouco a pouco, se nos acendia na alma uma luz nova: o desejo de sermos plenamente cristãos, a ânsia, se me permitis a expressão, de levar Deus a sério. Se cada um de nós começasse a contar em voz alta o processo íntimo da sua vocação sobrenatural, não poderíamos deixar de pensar que tudo isso era divino. Agradeçamos a Deus Pai,
a Deus Filho, a Deus Espírito Santo e a Santa Maria – por cuja intercessão nos chegam todas as bênçãos do Céu – este dom, que, a par da fé, é o maior que o Senhor pode conceder a uma criatura: a firme determinação de alcançar a plenitude da caridade, com a convicção de que a santidade no meio dos afazeres profissionais, sociais e outros não é apenas possível, é também necessária.
Considerai com que delicadeza o Senhor nos convida, exprimindo-Se com palavras humanas, como um apaixonado: «Eu te chamei pelo teu nome; tu és meu.» Deus, que é a beleza, a grandeza, a sabedoria, anuncia-nos que somos seus, que fomos escolhidos como objeto do seu amor infinito. É preciso uma vida de fé robusta para não desvirtuar esta maravilha que a Providência põe nas nossas mãos; uma fé como a dos Reis Magos: a convicção de que nem o deserto nem as tempestades nem a tranquilidade dos oásis nos impedirão de
chegar à meta do presépio eterno, que é a vida definitiva com Deus.
*Homilia proferida a 14 de abril de 1960, Quinta-Feira Santa
«Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo.» Este versículo de São João anuncia ao leitor do seu Evangelho que nesse dia vai ter lugar um acontecimento importante. É um preâmbulo terno e afetuoso, paralelo ao que São Lucas recolhe no seu relato: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer», diz o Senhor. Comecemos por pedir desde já ao Espírito Santo que nos prepare para compreendermos todas as expressões e todos os gestos de Jesus, porque queremos viver vida sobrenatural, porque o Senhor nos mostrou a sua vontade de Se nos oferecer como alimento da alma, e porque reconhecemos que só Ele tem «palavras de vida eterna».
A fé leva-nos a confessar com Simão Pedro: «Nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» E é essa fé, unida à devoção, que, nesses momentos sublimes, nos leva a imitar a audácia de João: aproximamo-nos de Jesus e reclinamos a cabeça no peito do Mestre, que, como acabámos de ouvir, por amar ardentemente os seus, vai amá-los até ao extremo.
Todos os modos de dizer são pobres quando se pretende explicar, mesmo de longe, o mistério de Quinta-Feira Santa. No entanto, não é difícil imaginar, em parte, os sentimentos do coração de Jesus naquela tarde, a última que passava com os seus antes do sacrifício do Calvário.
Pensai na experiência, tão humana, de duas pessoas que se amam e têm de despedir-se: gostariam de continuar juntas, mas o dever – seja ele qual for – obriga-as a separarem-se; não podem continuar ao pé uma da outra, como era sua vontade. Nestas ocasiões, o amor humano, que, por maior que seja, é sempre limitado, recorre aos símbolos: aqueles que se despedem trocam lembranças, talvez uma fotografia, com uma dedicatória tão inflamada que por pouco não pega fogo ao papel. Mas não conseguem ir além disso, porque o poder das criaturas não chega tão longe como o seu querer.
Ora, o que nós não conseguimos, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas a realidade: fica Ele próprio. Irá para o Pai, mas permanecerá com os homens. Não Se limitará a legar-nos um dom que nos permita evocar a sua memória, uma imagem que tende a apagar-se com o tempo, como a fotografia que não tarda a esvair-se e a ficar amarelada, até perder o sentido para quem não interveio naquele
momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade.
Depois, ouvimos a palavra da Escritura, a epístola e o Evangelho, luzes do Paráclito, que fala com voz humana para que a nossa inteligência saiba e contemple, para que a vontade se robusteça e a ação se cumpra. Porque somos um só povo que confessa uma só fé, um Credo; um povo «congregado na unidade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo».
Segue-se o ofertório: o pão e o vinho dos homens. Não é muito, mas vai acompanhado de oração: «De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos». Irrompe de novo a recordação da nossa miséria e o desejo de que tudo aquilo que se destina ao Senhor esteja limpo e purificado: «Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado.»
Há instantes, antes do lavabo, invocámos o Espírito Santo, pedindo-Lhe que abençoasse o sacrifício oferecido ao seu santo nome. Terminada a purificação, dirigimo-nos à Trindade – «Suscipe, Sancta Trinitas» –, pedindo-Lhe que acolha o que apresentamos em memória da vida, da Paixão, da Ressurreição e da Ascensão de Cristo, em honra de Maria, sempre Virgem, em honra de todos os santos.
«Orate, fratres», reza o sacerdote, para que a oblação redunde em benefício de todos, porque este sacrifício é meu e vosso, de toda a Santa Igreja. Orai, irmãos, mesmo que sejam poucos os que se encontram reunidos, mesmo que só esteja materialmente presente um cristão, ou até só o celebrante, porque qualquer Missa é holocausto universal, resgate de todas as tribos, línguas, povos e nações!
Pela comunhão dos santos, todos os cristãos recebem as graças de cada Missa, quer se celebre diante de milhares de pessoas, quer tenha como único assistente o menino, possivelmente distraído, que ajuda o sacerdote. Em qualquer caso, a Terra e o Céu unem-se para entoar com os anjos do Senhor: «Sanctus, Sanctus, Sanctus...».
Eu aplaudo e louvo com os anjos; não me custa, porque me sei rodeado por eles quando celebro a Santa Missa: estão a adorar a Trindade. E também sei que, de algum modo, a Santíssima Virgem intervém neste ato, dada a íntima união que mantém com a Trindade Beatíssima, e porque é Mãe de Cristo, da sua carne e do seu sangue, Mãe de Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem. Concebido nas entranhas de Maria Santíssima sem intervenção de
varão, mas unicamente pelo poder do Espírito Santo, Jesus tem o mesmo sangue que sua Mãe; e é esse sangue que se oferece no sacrifício redentor, no Calvário e na Santa Missa.
Jesus Cristo, fundamento da vida cristã
Quis recordar, embora brevemente, alguns aspetos do viver atual de Cristo – «Iesus Christus heri et hodie; ipse et in sæcula» –, porque é aí que reside o fundamento de toda a vida cristã. Se olharmos em volta e considerarmos o decurso da história da humanidade, observaremos progressos, avanços: a ciência deu ao homem uma consciência maior do seu poder; a técnica domina a natureza melhor do que em épocas passadas, e permite à humanidade sonhar com um nível mais elevado de cultura, de vida material, de unidade.
Talvez alguns se sintam motivados a matizar este quadro, recordando que os homens padecem atualmente injustiças e guerras maiores ainda do que as passadas. Não lhes falta razão. Mas, independentemente dessas considerações, eu prefiro recordar que, no domínio religioso, o homem continua a ser homem e Deus continua a ser Deus. Neste campo, já atingimos o cume do progresso:
é Cristo, alfa e ómega, princípio e fim.
No terreno espiritual, não há novas épocas em perspetiva. Já está tudo dado em Cristo, que morreu e ressuscitou, e vive e permanece para sempre. Mas temos de nos unir a Ele pela fé, deixando que a sua vida se manifeste em nós, de maneira que se possa dizer que cada cristão é não já alter Christus, mas ipse Christus, o próprio Cristo!
O cristão sabe que está incorporado em Cristo pelo batismo; habilitado a lutar por Cristo pela confirmação; chamado a operar no mundo pela participação na função real, profética e sacerdotal de Cristo; feito uma só coisa com Cristo pela Eucaristia, sacramento da unidade e do amor. Por isso, tal como Cristo, há de viver voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, e para toda a humanidade.
A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-lo como nosso salvador, a identificarmo-nos com Ele, agindo como Ele agiu. Depois de arrancar o apóstolo Tomé às suas dúvidas, mostrando-lhe as suas chagas, o Ressuscitado exclama: «Felizes os que creem sem terem visto.» Comenta São Gregório Magno: «Aqui, fala-se de nós de modo particular, porque possuímos espiritualmente Aquele a quem não vimos corporalmente. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações sejam conformes com a nossa fé. Só crê verdadeiramente aquele que põe em prática aquilo em que crê. Por isso, a propósito daqueles que, da fé, apenas possuem as palavras, diz São Paulo que professam conhecer Deus, mas O negam com as obras.»
Não é possível separar, em Cristo, o seu ser de Deus Homem e a sua função de redentor. O Verbo fez-Se carne e veio ao mundo «ut omnes homines salvi fiant», para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, nós somos outros Cristos, o próprio Cristo, também chamados a servir todos os homens.
É necessário que aquele mandamento que continuará a ser novo ao longo dos séculos ressoe uma e outra vez. Escreve São João: «Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Não obstante, digo-vos que o mandamento de que vos falo é um mandamento novo, que é verdadeiro em si mesmo e em vós, pois as trevas passaram e já
brilha a luz verdadeira. Quem diz que está na luz, mas aborrece o seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e nele não há escândalo.»
Nosso Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida, a todos os homens. Não só aos ricos, nem só aos pobres; não só aos sábios, nem só aos simples. A todos. Aos irmãos, pois somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, Deus. Por isso, só há uma raça: a raça dos filhos de Deus; só há uma cor: a cor dos filhos de Deus; só há uma língua: a língua que fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32185/ (23/05/2026)