83
*Homilia proferida a 14 de abril de 1960, Quinta-Feira Santa
«Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo.» Este versículo de São João anuncia ao leitor do seu Evangelho que nesse dia vai ter lugar um acontecimento importante. É um preâmbulo terno e afetuoso, paralelo ao que São Lucas recolhe no seu relato: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer», diz o Senhor. Comecemos por pedir desde já ao Espírito Santo que nos prepare para compreendermos todas as expressões e todos os gestos de Jesus, porque queremos viver vida sobrenatural, porque o Senhor nos mostrou a sua vontade de Se nos oferecer como alimento da alma, e porque reconhecemos que só Ele tem «palavras de vida eterna».
A fé leva-nos a confessar com Simão Pedro: «Nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» E é essa fé, unida à devoção, que, nesses momentos sublimes, nos leva a imitar a audácia de João: aproximamo-nos de Jesus e reclinamos a cabeça no peito do Mestre, que, como acabámos de ouvir, por amar ardentemente os seus, vai amá-los até ao extremo.
Todos os modos de dizer são pobres quando se pretende explicar, mesmo de longe, o mistério de Quinta-Feira Santa. No entanto, não é difícil imaginar, em parte, os sentimentos do coração de Jesus naquela tarde, a última que passava com os seus antes do sacrifício do Calvário.
Pensai na experiência, tão humana, de duas pessoas que se amam e têm de despedir-se: gostariam de continuar juntas, mas o dever – seja ele qual for – obriga-as a separarem-se; não podem continuar ao pé uma da outra, como era sua vontade. Nestas ocasiões, o amor humano, que, por maior que seja, é sempre limitado, recorre aos símbolos: aqueles que se despedem trocam lembranças, talvez uma fotografia, com uma dedicatória tão inflamada que por pouco não pega fogo ao papel. Mas não conseguem ir além disso, porque o poder das criaturas não chega tão longe como o seu querer.
Ora, o que nós não conseguimos, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas a realidade: fica Ele próprio. Irá para o Pai, mas permanecerá com os homens. Não Se limitará a legar-nos um dom que nos permita evocar a sua memória, uma imagem que tende a apagar-se com o tempo, como a fotografia que não tarda a esvair-se e a ficar amarelada, até perder o sentido para quem não interveio naquele
momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/83/ (18/05/2026)