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Há 5 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Igreja → Cristo vive na Igreja.

Bom pastor, bom guia

Se a vocação é anterior a tudo, se a estrela vai à nossa frente para nos orientar no nosso caminho de amor de Deus, não é razoável termos dúvidas quando a perdemos ocasionalmente de vista. Em certos momentos da nossa vida interior, quase sempre por nossa culpa, acontece o que aconteceu na viagem dos Reis Magos: a estrela desaparece. Já conhecemos o esplendor divino da nossa
vocação, estamos convencidos do seu carácter definitivo, mas o pó que levantamos ao caminhar – o pó das nossas misérias – talvez forme uma nuvem opaca, que não deixa passar a luz.

Que fazer nessas alturas? Seguir o exemplo daqueles homens santos: perguntar. Herodes serviu-se da ciência para proceder de modo injusto; os Reis Magos utilizam-na para fazer o bem. Mas nós, cristãos, não temos necessidade de perguntar a Herodes ou aos sábios da Terra. Cristo deu à sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos sacramentos; e determinou que haja pessoas para orientar, para conduzir, para trazer constantemente à memória o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus, guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que é administrada nos sacramentos; o testemunho e o exemplo de quantos vivem com retidão a nosso lado e souberam fazer da sua vida um caminho de fidelidade a Deus.

Permiti-me um conselho: se alguma vez perderdes a claridade da luz, recorrei sempre ao bom pastor. E quem é o bom pastor? É aquele que entra pela porta da fidelidade à doutrina da Igreja; aquele que não se comporta como o mercenário, que, ao ver o lobo, abandona as ovelhas e foge; e o lobo arrebata-as e dispersa o rebanho. Reparai que a palavra divina não é vã; e a insistência
de Cristo – não vedes com que afeto fala de pastores e ovelhas, do redil e do rebanho? – é uma demonstração prática da necessidade de um bom guia para a nossa alma.

Escreve Santo Agostinho: «Se não houvesse maus pastores, Ele não teria feito referência especial aos bons. Quem é mercenário? É aquele que, ao ver o lobo, foge. Aquele que não procura a glória de Cristo, mas a própria glória; aquele que não se atreve a reprovar os pecadores com liberdade de espírito. O lobo fila uma ovelha pelo pescoço: o diabo induz um fiel a cometer adultério. E tu, se te
calas e não reprovas, és mercenário: viste o lobo e fugiste. Talvez me digas: não, estou aqui; não fugi. E eu respondo-te: fugiste porque te calaste; e calaste-te porque tiveste medo.»

A santidade da esposa de Cristo sempre se demonstrou – e continua a demonstrar-se – pela abundância de bons pastores. Mas a fé cristã, que nos ensina a ser simples, não nos induz a ser ingénuos. Há mercenários que se calam e há mercenários que pregam uma doutrina que não é de Cristo. Por isso, se o Senhor permitir que fiquemos às escuras, mesmo em coisas de somenos, se sentirmos falta de firmeza na fé, recorramos ao bom pastor, àquele que
entra pela porta exercitando o seu direito, àquele que, dando a vida pelos outros, quer ser, em palavras e no comportamento, uma alma apaixonada: que talvez também seja pecador, mas confia sempre no perdão e na misericórdia de Cristo.

Se a vossa consciência vos reprova alguma falta – mesmo que não vos pareça grave –, se tendes alguma dúvida, recorrei ao sacramento da penitência. Ide ao sacerdote que vos atende, àquele que sabe exigir-vos firmeza na fé, delicadeza de alma, verdadeira fortaleza cristã. Na Igreja, existe total liberdade para cada um se confessar com qualquer sacerdote que tenha as necessárias licenças
eclesiásticas; mas um cristão que nada tem a esconder recorrerá – livremente!
– àquele que reconhece como bom pastor e que pode ajudá-lo a erguer a vista, para voltar a ver no céu a estrela do Senhor.

Os sacramentos da graça de Deus

Quem quer lutar emprega os meios adequados. Ora, ao longo destes vinte séculos de cristianismo, os meios não mudaram; continuam a ser oração, mortificação e frequência de sacramentos. Como a mortificação também é oração – é a oração dos sentidos –, podemos descrever esses meios apenas com duas palavras: oração e sacramentos.

Gostaria que considerássemos agora esse manancial de graça divina que são os sacramentos, maravilhosa manifestação da misericórdia de Deus. Meditemos devagar a definição do catecismo de São Pio V: «Sinais sensíveis que causam a graça, ao mesmo tempo que a exprimem, como que pondo-a diante dos nossos
olhos.» Deus Nosso Senhor é infinito, o seu amor é inesgotável, a sua clemência e a sua piedade para connosco não conhecem limites. E, embora nos conceda a sua graça de muitos outros modos, instituiu expressa e livremente – só Ele podia fazê-lo – estes sete sinais eficazes, para que os homens possam participar dos méritos da redenção de maneira estável, simples e acessível a todos.

Quando se abandonam os sacramentos, a verdadeira vida cristã desaparece. No entanto, sabemos que, em especial no nosso tempo, há quem pareça esquecer, e chegue a desprezar, esta corrente redentora da graça de Cristo. É doloroso falar desta chaga da sociedade que se chama cristã, mas torna-se necessário fazê-lo, para que se firme na nossa alma o desejo de recorrer com mais amor e

gratidão a essas fontes de santificação.

As pessoas decidem sem o menor escrúpulo atrasar o batismo dos recém-nascidos, privando-os – em grave atentado contra a justiça e contra a caridade – da graça da fé, do tesouro incalculável da inabitação da Santíssima Trindade na alma, que vem ao mundo manchada pelo pecado original; pretendem desvirtuar a natureza própria do sacramento da confirmação, no qual a Tradição sempre viu unanimemente um robustecimento da vida espiritual, uma efusão discreta e fecunda do Espírito Santo, para que, fortalecida sobrenaturalmente, a alma possa travar – miles Christi, como soldado de
Cristo – a batalha interior contra o egoísmo e a concupiscência.

Quando se perde a sensibilidade para as coisas de Deus, dificilmente se compreenderá o sacramento da penitência. A confissão sacramental não é um diálogo humano, é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso, que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

É verdadeiramente infinita a ternura de Nosso Senhor. Vede com que delicadeza trata os seus filhos: fez do matrimónio um vínculo santo, imagem da união de Cristo com a sua Igreja, um sacramento grande para servir de fundamento à família cristã, que há de ser, com a graça de Deus, um ambiente de paz e de concórdia, uma escola de santidade. Os pais são cooperadores de Deus; é essa a razão de ser do estimável dever de veneração que corresponde
aos filhos. Com razão pode o quarto mandamento ser chamado – escrevi-o há tantos anos – o dulcíssimo preceito do Decálogo; quando se vive o casamento como Deus quer, santamente, essa casa será um recanto de paz, luminoso e alegre.

A responsabilidade dos pastores

Dentro da Igreja de Deus, o empenho constante em sermos cada vez mais leais à doutrina de Cristo é uma obrigação de todos; ninguém está isento. Se os pastores não lutassem pessoalmente por adquirir finura de consciência, respeito fiel ao dogma e à moral – que são o depósito da fé e o património comum –, voltariam a ser reais as proféticas palavras de Ezequiel: «Filho de homem, profetiza contra os pastores de Israel, profetiza e diz a esses pastores: “Assim fala o Senhor Deus: ‘Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o rebanho? Vós, porém, bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as reses mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida; não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido; mas a todas tratastes com violência e dureza.’”»

São repreensões fortes, mas mais grave é a ofensa que se faz a Deus quando, tendo recebido o encargo de velar pelo bem espiritual de todos, se maltrata as almas, privando-as da água limpa do batismo que regenera a alma, do óleo balsâmico da confirmação, que a fortalece, do tribunal que perdoa, do alimento que dá a vida eterna.

Quando é que isto acontece? Quando se desleixa esta guerra de paz. Quem não trava a sua luta expõe-se a qualquer das escravidões que têm o efeito de aferrolhar um coração de carne: a escravidão de uma visão exclusivamente humana, a escravidão do desejo afanoso de poder e de prestígio temporal, a escravidão da vaidade, a escravidão do dinheiro, a servidão da sensualidade...

Se alguma vez – porque Deus pode permitir essa prova – tropeçardes com pastores indignos desse nome, não vos escandalizeis. Cristo prometeu assistência infalível e indefetível à sua Igreja, mas não garantiu a fidelidade dos homens que a constituem, aos quais não faltará graça abundante e generosa se contribuírem com o pouco que Deus lhes pede: uma vigilância atenta, o empenho em afastar, com a graça de Deus, os obstáculos que os separam da santidade Se não houver luta, quem parece estar nos píncaros pode estar muito baixo aos olhos de Deus: «Conheço as tuas obras; tens fama de estar vivo, mas estás morto. Sê vigilante e fortifica aquilo que está a morrer, pois não encontrei perfeitas as tuas obras diante do meu Deus. Recorda, portanto, o que recebeste e ouviste. Guarda-o e arrepende-te.»

São exortações feitas no século I, pelo apóstolo São João, a quem tinha a responsabilidade da Igreja na cidade de Sardes. Porque a possível deterioração do sentido da responsabilidade de alguns pastores não é um fenómeno moderno; surge logo no tempo dos apóstolos, no próprio século em que Nosso Senhor Jesus Cristo viveu neste mundo. É que ninguém está seguro, se deixar de lutar consigo mesmo. Ninguém pode salvar-se sozinho. Na Igreja, todos precisamos dos meios concretos que nos fortalecem: da humildade, que nos dispõe a aceitar ajuda e conselho; das mortificações, que nos pacificam o coração, para que seja Cristo a reinar nele; do estudo da doutrina segura de sempre, que nos leva a conservar a fé em nós e a propagá-la.

* Homilia proferida a 26 de março de 1967, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou, triunfando da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. «Não temais»: foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui1.» «Hæc est dies quam fecit Dominus, exultemus et lætemur in ea», este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos.

O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano litúrgico, mas mora permanentemente no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e Se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos.

Não. Cristo vive. Jesus é o Emanuel: Deus connosco. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus: «Pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria», havia-nos prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as suas delícias entre os filhos dos homens.

Cristo vive na sua Igreja. «Digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.» Era este o desígnio de Deus: morrendo na cruz, Jesus dar-nos-ia o Espírito de verdade e de vida. Cristo permanece na sua Igreja: nos sacramentos, na liturgia, na pregação, em toda a sua atividade.

Cristo continua presente entre nós de modo especial nessa entrega diária que é a Sagrada Eucaristia. Por isso, a Missa é o centro e a raiz da vida cristã. O Cristo total, cabeça e corpo, está presente em todas as missas: «Per ipsum, et cum ipso, et in ipso.» Porque Cristo é o caminho, o mediador: nele, encontramos tudo; fora dele, a nossa vida torna-se vazia. Em Jesus Cristo, e instruídos por Ele, «audemus dicere: Pater noster», atrevemo-nos a dizer: Pai nosso; atrevemo-nos a chamar Pai ao Senhor dos Céus e da Terra.

A presença de Jesus vivo na Sagrada Hóstia é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo.

Cristo no cume das atividades humanas

Isto é realizável, não é um sonho inútil. Se nós, homens, tomássemos a decisão de albergar o amor de Deus no nosso coração! Cristo Nosso Senhor foi crucificado e, do alto da cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus recorda- nos a todos: «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», se Me puserdes no cume de todas as atividades da Terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo minhas testemunhas naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, «omnia traham ad meipsum», tudo atrairei a Mim: o meu reino entre vós será uma realidade!

Cristo Nosso Senhor continua empenhado nesta sementeira de salvação dos homens e de toda a criação, deste nosso mundo, que é bom, porque saiu bom das mãos de Deus. Foi a ofensa de Adão, o pecado do orgulho humano, que quebrou a harmonia divina da criação.

Quando, porém, chegou a plenitude dos tempos, Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito, que encarnou em Maria sempre virgem por obra do Espírito Santo, para restabelecer a paz; para que, redimido o homem do pecado, «adoptionem filiorum reciperemus», fôssemos constituídos filhos de Deus, capazes de participar na intimidade divina, e fosse concedido a este homem novo, a esta nova estirpe dos filhos de Deus, libertar todo o Universo da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que as reconciliou com Deus.

A isto fomos chamados, nós, cristãos; esta é a nossa tarefa apostólica e a ânsia que nos deve queimar a alma: conseguir que o Reino de Cristo seja uma realidade, que não haja mais ódios nem mais crueldades, que difundamos pelo mundo o bálsamo forte e pacífico do amor. Peçamos hoje ao nosso Rei que nos faça colaborar humilde e fervorosamente no divino propósito de unir o que está partido, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem desordenou, de levar ao seu fim aquilo que se desencaminha, de reconstruir a concórdia de toda a criação.

Abraçar a fé cristã é comprometer-se a prosseguir a missão de Jesus entre as criaturas. Temos de ser, cada um de nós, alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Só assim poderemos levar a cabo esse empreendimento grande, imenso, interminável: santificar, a partir de dentro, todas as estruturas temporais, levando-lhes o fermento da redenção.

Eu nunca falo de política. Não concebo a missão dos cristãos neste mundo como uma corrente político-religiosa – seria uma loucura –, nem mesmo com o bom propósito de infundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso meter em Deus é o coração de cada um, seja quem for. Procuremos falar a cada cristão, de forma que, onde quer que esteja – em circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas do resultado das situações históricas, sempre mutáveis –, saiba dar
testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professa.

O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceitar que Cristo habite e reine no seu coração, a eficácia salvífica do Senhor estará fortemente presente em todo o seu trabalho humano. É indiferente que essa ocupação seja, como se costuma dizer, elevada ou modesta, porque uma elevação humana pode ser uma vileza aos olhos de Deus, e aquilo a que chamamos modesto poderá ser uma elevação cristã de santidade e de serviço.