Lista de pontos
A fé em Cristo morto e ressuscitado, presente em todos e cada um dos momentos da vida, ilumina a nossa consciência, instigando-nos a participar com todas as forças nas vicissitudes e nos problemas da história humana. Nessa história, que teve início com a criação do mundo e terminará com a consumação dos séculos, o cristão não é um apátrida; é um cidadão da cidade dos homens, com a alma cheia de desejo de Deus, cujo amor começa a entrever já nesta etapa temporal, e no qual reconhece o fim a que são chamados todos os habitantes da Terra.
Se o meu testemunho pessoal tem interesse, posso dizer que sempre entendi o meu trabalho de sacerdote e de pastor de almas como uma tarefa que visa situar cada pessoa perante as exigências totais da sua vida, ajudando-a a descobrir aquilo que Deus lhe pede em concreto, sem pôr limites à santa independência e à bendita responsabilidade individual que são características de uma consciência cristã. Este comportamento e este espírito baseiam-se no respeito pela transcendência da verdade revelada e no amor à liberdade da criatura humana; poderia acrescentar que se baseiam também na certeza da indeterminação da história, aberta a múltiplas possibilidades, que Deus não quis limitar.
Seguir Cristo não significa refugiar-se no templo, encolhendo os ombros perante o desenvolvimento da sociedade, perante os acertos ou as aberrações dos homens e dos povos. Pelo contrário, a fé cristã leva-nos a ver o mundo como criação do Senhor, apreciando, portanto, tudo o que é nobre e belo, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, feita à imagem de Deus, e admirando esse dom especialíssimo que é a liberdade, pela qual somos senhores dos nossos atos e capazes, com a graça do Céu, de construir o nosso destino eterno.
Seria empequenecer a fé reduzi-la a uma ideologia terrena, arvorando um estandarte político-religioso para condenar, não se sabe em nome de que investidura divina, aqueles que têm opiniões diversas em matérias que são, pela sua própria natureza, suscetíveis de receber numerosas e diversas soluções.
Cristo vive no cristão. A fé diz-nos que o homem em estado de graça está endeusado. Não somos anjos, mas homens e mulheres, seres de carne e osso, com coração e com paixões, com tristezas e com alegrias. Mas a divinização opera em todo o homem como que uma antecipação da ressurreição gloriosa. «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida.»
A vida de Cristo é vida nossa, segundo o que Ele prometeu aos seus apóstolos na Última Ceia: «Se alguém Me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada.» Por isso, o cristão deve viver segundo a vida de Cristo, tornando seus os sentimentos de Cristo, de modo
que possa exclamar com São Paulo: «Non vivo ego, vivit vero in me Christus», não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.
Notai: a redenção, que ficou consumada quando Jesus morreu na vergonha e na glória da cruz, «escândalo para os judeus e loucura para os gentios», continuará, por vontade de Deus, a realizar-se até à hora do Senhor. Quem vive segundo o coração de Jesus Cristo não pode deixar de se sentir enviado, como Ele, «peccatores salvos facere», para salvar todos os pecadores, convencido de que precisa de confiar cada vez mais na misericórdia de Deus. Daí, o desejo veemente de nos considerarmos corredentores com Cristo, de com Ele salvarmos todas as almas, porque somos, queremos ser, ipse Christus, o próprio Jesus Cristo, «que Se entregou a Si mesmo como resgate por todos».
Temos uma grande tarefa à nossa frente. E não podemos manter uma atitude passiva, porque o Senhor nos ordenou expressamente: «Fazei render a mina até que eu volte.» Enquanto esperamos o regresso do Senhor, que voltará a tomar posse plena do seu reino, não podemos estar de braços cruzados. A extensão do Reino de Deus não é apenas a missão oficial dos membros da Igreja que representam Cristo por dele terem recebido os poderes sagrados. «Vos autem estis corpus Christi», vós sois o corpo de Cristo, ensina-nos o apóstolo, com o mandato concreto de negociar até ao fim.
Há tanto por fazer! Quer dizer que, em vinte séculos, não se fez nada? Em vinte séculos trabalhou-se muito; não me parece objetiva nem honesta a ânsia de menosprezar, como fazem alguns, a atividade daqueles que nos precederam. Em vinte séculos fez-se um grande labor e, com frequência, foi muito bem realizado; outras vezes houve desacertos, regressões, como também hoje há retrocessos, medo, timidez, ao mesmo tempo que não falta valentia e generosidade. Mas a família humana renova-se constantemente; em
cada geração, é preciso manter o compromisso de ajudar o homem a descobrir a grandeza da sua vocação de filho de Deus, é necessário inculcar o mandamento do amor ao Criador e ao próximo.
Nós, cristãos, trazemos os grandes tesouros da graça em vasos de barro: Deus confiou os seus dons à frágil e débil liberdade humana e, embora a sua força nos assista indubitavelmente, por vezes, a nossa concupiscência, o nosso comodismo e o nosso orgulho rejeitam-na, levando-nos a cair em pecado. De há mais de um quarto de século para cá, ao recitar o Credo e afirmar a minha fé na divindade da Igreja «una, santa, católica e apostólica», acrescento muitas vezes: «apesar dos pesares»; e se, comentando este costume, alguém me pergunta a que me refiro, respondo: «aos teus pecados e aos meus».
Tudo isto é certo, mas de maneira nenhuma nos autoriza a julgar a Igreja com critérios humanos, sem fé teologal, atendendo apenas à maior ou menor qualidade de certos eclesiásticos ou de certos cristãos. Proceder assim é ficar à superfície. Na Igreja, o mais importante não é ver como nós, homens, correspondemos, é ver o que Deus faz. É isto a Igreja: Cristo presente entre nós; é Deus que vem ter com a humanidade para a salvar, chamando-nos com a sua revelação, santificando-nos com a sua graça, sustentando-nos com a
sua ajuda constante, nos pequenos e grandes combates do dia a dia.
Podemos desconfiar dos homens, e cada um de nós tem a obrigação de desconfiar de si mesmo e de concluir os seus dias com um mea culpa, com um ato de contrição profundo e sincero. Mas não temos o direito de duvidar de Deus. E duvidar da Igreja, da sua origem divina, da eficácia salvífica da sua pregação e dos seus sacramentos, é duvidar do próprio Deus; é não acreditar plenamente na realidade da vinda do Espírito Santo.
Escreve São João Crisóstomo: «Antes de Cristo ser crucificado, não havia reconciliação. E, enquanto não houve reconciliação, o Espírito Santo não foi enviado. [...] A ausência do Espírito Santo era um sinal da ira divina. Agora que O vês enviado em plenitude, não duvides da reconciliação. Mas podemos perguntar: onde está o Espírito Santo no nosso tempo? Podia-se falar da sua presença quando havia milagres, quando os mortos eram ressuscitados e os
leprosos, curados; mas como sabemos que Ele está deveras presente no nosso tempo? Não vos preocupeis. Vou demonstrar-vos que o Espírito Santo continua presente entre nós. […] Se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos dizer “Senhor Jesus”, pois ninguém pode invocar Jesus como Senhor senão no Espírito Santo (cf. 1Cor 12, 3). Se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos orar com confiança; com efeito, ao rezar, dizemos:
“Pai nosso, que estais no Céu” (Mt 6, 9), e, se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos chamar Pai a Deus. Como sabemos que assim é? Porque o apóstolo nos ensina que, por sermos filhos, Deus enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: “Abba, Pai!” (cf. Gl 4,6). Portanto, quando invocares Deus Pai, recorda-te de que foi o Espírito Santo que, movendo a tua alma, te deu essa oração. Se o Espírito Santo não existisse, não haveria na Igreja palavra alguma de sabedoria ou de ciência, pois está escrito que a palavra da sabedoria é dada por ação do Espírito Santo (cf. 1Cor 12, 8). [...]
Se o Espírito Santo não estivesse presente, a Igreja não existiria; ora, se a Igreja existe, é certo que o Espírito Santo não falta.»
A despeito das deficiências e limitações humanas, repito, a Igreja é isto: o sinal e, de certo modo – não no sentido estrito em que a essência dos sete sacramentos da nova Aliança foi dogmaticamente definida –, o sacramento universal da presença de Deus no mundo. Ser cristão é ter sido regenerado por Deus e enviado aos homens para lhes anunciar a salvação. Se tivéssemos uma fé robusta e vivida, e déssemos a conhecer Cristo com audácia, veríamos realizarem-se diante dos nossos olhos milagres como os da era apostólica.
Também hoje se devolve a vista a cegos que tinham perdido a capacidade de olhar para o céu e contemplar as maravilhas de Deus; se dá liberdade a coxos e entrevados que se encontravam tolhidos pelas próprias paixões e cujo coração não sabia amar; se restitui o ouvido a surdos que não desejavam saber de Deus; se consegue que falem mudos que tinham a língua presa, por não quererem confessar as suas derrotas; se ressuscitam mortos a quem o pecado destruíra a vida. Verificamos uma vez mais que «a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes»; e, tal como os primeiros fiéis cristãos, também nós nos alegramos ao admirar a força do Espírito Santo, e a sua ação na inteligência e na vontade das suas criaturas.
A liberdade pessoal
Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão «abençoar as atividades humanas» significasse anular ou escamotear a dinâmica própria destas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também porque, em certas ocasiões, a etiqueta «católico» foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos.
Se o mundo e tudo o que nele há – menos o pecado – é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus, que é uma luta positiva de amor, há de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno lado a lado com os outros cidadãos, e tem a obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.
E há um bem que deverá sempre promover de modo especial: a liberdade pessoal. Só quem defende a liberdade individual dos outros, com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá defender com honradez humana e cristã a sua. Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos presenteou com uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra dádiva maravilhosa, esta humana, a liberdade pessoal, que exige de nós – a fim de não se corromper, transformando-se em libertinagem – integridade e empenho eficaz em proceder dentro da lei divina, porque «onde está o Espírito do
Senhor, aí está a liberdade».
O Reino de Cristo é um reino de liberdade, onde não há outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos torna livres! Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos dá na gana.
Alguns de vós que me escutais conheceis-me há muitos anos; e podeis testemunhar que toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e continuo a procurá-la por toda a Terra, como Diógenes procurava um homem; e amo-a cada dia mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca apreciaremos suficientemente.
Quando falo de liberdade pessoal, não pretendo referir-me a outros problemas, talvez muito legítimos, que não competem ao meu ofício de sacerdote. Sei que não me compete tratar de matérias seculares e transitórias, que pertencem à esfera temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, porque nos sabemos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção.
Celebramos hoje a festa de Cristo Rei. E não me afasto do meu ofício de sacerdote quando digo que quem entende o Reino de Cristo como um programa político não compreendeu devidamente a finalidade sobrenatural da fé e está a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus, porque o seu jugo é suave e o seu fardo é leve. Amemos seriamente todos os homens, amemos Cristo acima de tudo; e não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32398/ (19/05/2026)