Lista de pontos
Já falámos muito deste tema noutras ocasiões, mas permiti-me insistir na naturalidade e na simplicidade da vida de São José, um homem que não se distinguia dos seus concidadãos nem levantava barreiras desnecessárias.
Por isso, ainda que possa ser conveniente fazê-lo em determinados momentos ou em algumas situações, de uma maneira geral não gosto de falar de operários católicos, de engenheiros católicos, de médicos católicos, etc., como se se tratasse de uma espécie dentro de um género, como se os católicos formassem um grupo separado dos outros, dando a sensação de que existe um fosso entre os cristãos e o resto da humanidade. Respeito a opinião contrária, mas parece-me que é muito mais adequado falar de operários que são católicos ou de católicos que são operários; de engenheiros que são católicos ou de católicos que são engenheiros. Porque o homem que tem fé e exerce uma profissão, seja intelectual, técnica ou manual está e sente-se unido aos outros, igual aos outros, com os mesmos direitos e obrigações, com o mesmo desejo de melhorar, com o mesmo empenho em enfrentar e encontrar soluções para os problemas comuns.
Assumindo tudo isto, o católico saberá fazer do seu quotidiano um testemunho de fé, de esperança e de caridade; testemunho simples e normal, sem necessidade de manifestações aparatosas, salientando – com a coerência da sua vida – a constante presença da Igreja no mundo, visto que todos os católicos são, eles mesmos, Igreja, pois são membros de pleno direito do único povo de Deus.
A luta, um compromisso de amor e de justiça
Mas esta linguagem não será antiquada? Não foi porventura substituída por um vocabulário da moda, feito de claudicações pessoais encobertas com uma roupagem pseudocientífica? Não existirá um acordo tácito segundo o qual os bens reais são o dinheiro que tudo compra, o poder temporal, a astúcia para ficar sempre por cima, a sabedoria humana que se autodefine como adulta e pensa ter ultrapassado o sagrado?
Não sou nem nunca fui pessimista, porque a fé me diz que Cristo venceu definitivamente e nos deu, como prémio da sua conquista, um mandato, que é também um compromisso: lutar. Nós, cristãos, temos um empenho de amor, que aceitámos livremente em resposta ao apelo da graça divina; uma obrigação que nos incentiva a lutar com tenacidade, porque sabemos que somos tão frágeis como os outros homens, mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer
que, se aplicarmos os devidos meios, seremos o sal, a luz e a levedura do mundo: seremos o consolo de Deus.
A nossa determinação em perseverar com firmeza neste propósito de amor é, por outro lado, um dever de justiça. E a matéria desta exigência, comum a todos os fiéis, concretiza-se numa batalha constante. A tradição da Igreja sempre se referiu aos cristãos como milites Christi, soldados de Cristo; soldados que dão serenidade aos outros, enquanto lutam continuamente contra as suas próprias más inclinações. Às vezes, por falta de sentido sobrenatural, por impiedade prática, há quem não queira compreender a vida na Terra como milícia, insinuando maliciosamente que, considerando-nos milites Christi, corremos o risco de utilizar a fé para fins temporais de violência e facciosismos. Esse modo de pensar é um triste e pouco lógico simplismo, que costuma andar unido ao comodismo e à cobardia.
Não há nada mais estranho à fé católica que o fanatismo, que conduz a estranhas alianças, dos mais diversos matizes, entre o profano e o espiritual. Tal perigo desaparece quando a luta é entendida como Cristo no-la ensinou: como uma guerra de cada um consigo mesmo, como um esforço sempre renovado por amar mais a Deus, por desterrar o egoísmo, por servir todos os homens.
Renunciar a esta contenda, seja com que desculpa for, é declarar-se de antemão derrotado, aniquilado, sem fé, com a alma caída, dissipada em complacências mesquinhas.
Para o cristão, o combate espiritual diante de Deus e de todos os irmãos na fé é uma necessidade, uma consequência da sua condição. Por isso, quem não luta está a atraiçoar Jesus Cristo e todo o seu corpo místico, que é a Igreja.
Com a ordem sacerdotal, Deus nosso Pai concedeu-nos a possibilidade de alguns fiéis, em virtude de uma nova e inefável infusão do Espírito Santo, receberem na alma um carácter indelével que os configura com Cristo Sacerdote, para agirem em nome de Cristo Jesus, Cabeça do seu Corpo Místico. Com este sacerdócio ministerial, que difere do sacerdócio comum de todos os fiéis de modo essencial, e não com diferença em grau, os ministros sagrados podem consagrar o Corpo e o Sangue de Cristo, oferecer a Deus o Santo Sacrifício, perdoar os pecados na confissão sacramental e exercitar o ministério de doutrinar as gentes «in iis quæ sunt ad Deum», em tudo e só no que se refere a Deus.
Por isso, o sacerdote deve ser exclusivamente um homem de Deus, rejeitando a possibilidade de brilhar em campos onde os outros cristãos não precisam dele. O sacerdote não é um psicólogo, nem um sociólogo, nem um antropólogo: é outro Cristo, o próprio Cristo, assim constituído para atender as almas dos seus irmãos. Seria uma pena que, com base numa qualquer ciência humana – que, se se dedicar à sua tarefa sacerdotal, apenas poderá cultivar como amador e aprendiz –, um sacerdote se julgasse habilitado, sem mais, a pontificar em matérias de teologia dogmática ou de moral. Estaria a dar provas de uma dupla ignorância – na ciência humana e na ciência teológica –, ainda que um superficial ar de sábio lhe permitisse enganar alguns leitores ou ouvintes indefesos.
É um facto público que alguns eclesiásticos parecem hoje dispostos a fabricar uma nova Igreja, traindo Cristo e trocando os fins espirituais – a salvação das almas, uma a uma – por fins temporais. Se não resistirem a essa tentação, deixarão de cumprir o seu ministério sagrado, perderão a confiança e o respeito do povo e provocarão uma tremenda destruição dentro da Igreja, além de se intrometerem indevidamente na liberdade política dos cristãos
e dos restantes homens, com a consequente confusão – tornam-se um perigo – na convivência civil. A Sagrada Ordem é o sacramento do serviço sobrenatural aos irmãos na fé; alguns parecem querer fazer dela o instrumento terreno de um novo despotismo.
O trigo e o joio
Tracei-vos – não com as minhas ideias, mas com a doutrina de Cristo – um caminho ideal para o cristão. Direis que é elevado, sublime, atrativo; e talvez algum de vós pergunte: será possível viver assim na sociedade contemporânea?
É certo que o Senhor nos chamou em momentos em que muito se fala de paz e não há paz: nem nas almas, nem nas instituições, nem na vida social, nem entre os povos; em que se fala continuamente de igualdade e democracia e abundam as castas: fechadas, impenetráveis. Chamou-nos num tempo em que se clama
por compreensão e a compreensão brilha pela sua ausência, mesmo entre pessoas que agem de boa-fé e querem praticar a caridade, porque – não esqueçais – a caridade, mais do que em dar, está em compreender.
Atravessamos uma época em que os fanáticos e os intransigentes – incapazes de reconhecerem as razões dos outros – se previnem acusando as suas vítimas de serem violentas e agressivas. Chamou-nos, enfim, quando se ouve papaguear muito sobre unidade e talvez seja difícil conceber maior desunião entre os próprios católicos, para já não falar dos homens em geral.
Eu nunca faço considerações políticas, porque não é o meu ofício. Para descrever sacerdotalmente a situação do mundo atual, basta-me pensar de novo numa parábola do Senhor: a parábola do trigo e do joio. «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se.» A situação é clara: o campo é fértil e a semente é boa; o senhor do campo atirou a semente a mãos-cheias no momento propício e com arte consumada; além disso, organizou vigilantes para proteger a sementeira. Se o joio apareceu, é porque não houve correspondência, porque os homens – em especial os cristãos – adormeceram e permitiram que o inimigo se aproximasse.
Quando os servos irresponsáveis perguntam ao Senhor porque foi que o joio cresceu no seu campo, a explicação salta aos olhos: «Inimicus homo hoc fecit», foi o inimigo! Nós, cristãos, que devíamos estar vigilantes para que as coisas boas postas pelo Criador no mundo se desenvolvessem ao serviço da verdade e do bem, adormecemos – triste preguiça, esse sono! –, enquanto o inimigo e todos os que o servem se moviam sem descanso. Bem vedes como cresceu o joio: que sementeira tão abundante em toda a parte!
Não tenho vocação de profeta da desgraça; não desejo, com as minhas palavras, apresentar-vos um panorama desolador, sem esperança, nem pretendo queixar-me destes tempos que são, pela providência do Senhor, os nossos. Amamos a nossa época, porque é o âmbito em que temos de nos santificar. Não admitimos nostalgias ingénuas e estéreis; o mundo nunca esteve melhor do que está hoje. Desde sempre, logo nos primórdios da Igreja, ainda se ouvia a pregação dos primeiros doze, surgiram violentas perseguições, começaram as heresias, propalou-se a mentira e desencadeou-se o ódio.
Mas também não é lógico negar que parece que o mal prosperou. Neste campo de Deus que é a Terra, herança de Cristo, nasceu joio; e não apenas joio, mas abundância de joio! Não podemos deixar-nos enganar pelo mito do progresso perene e irreversível. O progresso retamente ordenado é bom e Deus quere-o. Mas tem-se mais em conta o falso progresso, que cega os olhos a tanta gente, que muitas vezes não percebe que, em alguns dos seus passos, a humanidade
está a voltar atrás, perdendo o que já tinha conquistado.
O Senhor – repito – deu-nos o mundo como herança. Temos de ter a alma e a inteligência despertas; temos de ser realistas, sem derrotismos. Só uma consciência cauterizada, a insensibilidade produzida pela rotina ou o estouvamento frívolo podem permitir olhar para o mundo sem ver o mal, as ofensas a Deus, o dano, por vezes irreparável, para as almas. Havemos de ser otimistas, mas com um otimismo que nasça da fé no poder de Deus – Deus não
perde batalhas –, com um otimismo que não procede da satisfação humana, de uma complacência néscia e presunçosa.
Permiti-me narrar um facto da minha vida pessoal, ocorrido há muitos anos. Certo dia, um amigo de bom coração, mas que não tinha fé, disse-me, apontando para um mapa-múndi: «Ora veja, de norte a sul e de leste a oeste.» «Que queres que veja?», perguntei-lhe. «O fracasso de Cristo. Tantos séculos a tentar meter a sua doutrina na vida dos homens e veja os resultados.» Num primeiro momento, enchi-me de tristeza: efetivamente, é uma grande dor considerar que há muita gente que ainda não conhece o Senhor e que, entre aqueles que O conhecem, há também muitos que vivem como se O não conhecessem.
Mas essa impressão durou apenas um instante, dando lugar ao amor e ao agradecimento, porque Jesus quis fazer de cada homem um colaborador livre da sua obra redentora. Não fracassou: a sua doutrina e a sua vida continuam a fecundar o mundo. A redenção por Ele operada é suficiente e superabundante.
Deus não quer escravos, mas filhos, e respeita a nossa liberdade. A salvação prossegue e nós participamos dela: é vontade de Cristo que – nas palavras fortes de São Paulo – cumpramos na nossa carne, na nossa vida, o que falta à sua Paixão, «pro corpore eius, quod est Ecclesia», pelo seu corpo, que é a Igreja.
Vale a pena arriscar a vida, com uma entrega total, para corresponder ao amor e à confiança que Deus deposita em nós. Vale a pena, sobretudo, decidirmos levar a sério a nossa fé cristã. Quando recitamos o Credo, professamos crer em Deus Pai Todo-Poderoso, em seu Filho Jesus Cristo, que morreu e foi ressuscitado, no Espírito Santo, Senhor que dá a vida. Confessamos que a Igreja una, santa, católica e apostólica é o corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo. Alegramo-nos com a remissão dos nossos pecados e com a
esperança da ressurreição futura. Mas essas verdades penetrarão até ao fundo do coração ou ficarão apenas nos lábios? A mensagem divina de vitória, alegria e paz do Pentecostes deve ser o fundamento inquebrantável do modo de pensar, de reagir e de viver de qualquer cristão.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32397/ (19/05/2026)