Lista de pontos

Há 4 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Mundo → a história humana.

O cristão perante a história humana

Ser cristão não é um título de mera satisfação pessoal; é um título com nome – substância – de missão. Já atrás recordámos que o Senhor convida todos os cristãos a serem sal e luz do mundo; repetindo este mandato, e recorrendo a textos do Antigo Testamento, São Pedro escreve umas palavras que definem muito claramente essa missão: «Sois linhagem escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido em propriedade, a fim de proclamardes as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.»

Ser cristão não é uma circunstância acidental; é uma realidade divina, que se insere no âmago da nossa vida, dando-nos uma visão clara e uma vontade decidida de nos comportarmos como Deus quer. Deste modo, aprendemos que a peregrinação do cristão no mundo tem de ser um serviço contínuo, prestado de modos muito diversos, segundo as circunstâncias pessoais, mas sempre por amor a Deus e ao próximo. Ser cristão é agir sem pensar nas pequenas metas do prestígio ou da ambição, ou em finalidades que poderão parecer mais nobres, como a filantropia ou a compaixão perante as desgraças alheias; é avançar para o termo último e radical do amor, que Jesus expressou morrendo por nós.

Há certas atitudes que resultam da ignorância deste mistério de Jesus; por exemplo, a mentalidade de quem vê o cristianismo como um conjunto de práticas ou atos de piedade, sem perceber a sua relação com as situações da vida quotidiana, com a premência de ter em atenção as necessidades dos outros e de fazer um esforço para remediar as injustiças.

Eu diria que quem tem essa mentalidade ainda não compreendeu o que significa o facto de o Filho de Deus ter encarnado, tomando corpo, alma e voz de homem, participando no nosso destino até ao ponto de experimentar a suprema rutura da morte. Talvez algumas pessoas, sem querer, considerem Cristo um estranho no ambiente dos homens.

Outros, pelo contrário, tendem a imaginar que, para poderem ser humanos, têm de colocar em surdina alguns aspetos centrais do dogma cristão, e comportam-se como se a vida de oração, o trato contínuo com Deus fossem uma fuga às próprias responsabilidades e um abandono do mundo. Esquecem que, pelo contrário, Jesus nos deu a conhecer até que extremo se deve levar o amor e o serviço. Só seremos capazes de nos entregar totalmente aos outros, sem nos deixarmos vencer pelas dificuldades ou pela indiferença, se procurarmos compreender o arcano do amor de Deus, deste amor que vai até à morte.

A fé em Cristo morto e ressuscitado, presente em todos e cada um dos momentos da vida, ilumina a nossa consciência, instigando-nos a participar com todas as forças nas vicissitudes e nos problemas da história humana. Nessa história, que teve início com a criação do mundo e terminará com a consumação dos séculos, o cristão não é um apátrida; é um cidadão da cidade dos homens, com a alma cheia de desejo de Deus, cujo amor começa a entrever já nesta etapa temporal, e no qual reconhece o fim a que são chamados todos os habitantes da Terra.

Se o meu testemunho pessoal tem interesse, posso dizer que sempre entendi o meu trabalho de sacerdote e de pastor de almas como uma tarefa que visa situar cada pessoa perante as exigências totais da sua vida, ajudando-a a descobrir aquilo que Deus lhe pede em concreto, sem pôr limites à santa independência e à bendita responsabilidade individual que são características de uma consciência cristã. Este comportamento e este espírito baseiam-se no respeito pela transcendência da verdade revelada e no amor à liberdade da criatura humana; poderia acrescentar que se baseiam também na certeza da indeterminação da história, aberta a múltiplas possibilidades, que Deus não quis limitar.

Seguir Cristo não significa refugiar-se no templo, encolhendo os ombros perante o desenvolvimento da sociedade, perante os acertos ou as aberrações dos homens e dos povos. Pelo contrário, a fé cristã leva-nos a ver o mundo como criação do Senhor, apreciando, portanto, tudo o que é nobre e belo, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, feita à imagem de Deus, e admirando esse dom especialíssimo que é a liberdade, pela qual somos senhores dos nossos atos e capazes, com a graça do Céu, de construir o nosso destino eterno.

Seria empequenecer a fé reduzi-la a uma ideologia terrena, arvorando um estandarte político-religioso para condenar, não se sabe em nome de que investidura divina, aqueles que têm opiniões diversas em matérias que são, pela sua própria natureza, suscetíveis de receber numerosas e diversas soluções.

*Homilia proferida a 28 de maio de 1964, solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Hoje, festa do Corpus Christi, meditando juntos na profundidade do amor do Senhor, que O levou a ficar oculto sob as espécies sacramentais, é como se ouvíssemos fisicamente um dos seus ensinamentos à multidão: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, logo que o Sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta.»

A cena é atual. O semeador divino continua a lançar a sua semente. A obra da salvação continua a realizar-se e o Senhor quer servir-Se de nós, pois deseja que os cristãos abram todos os caminhos da Terra ao seu amor. Ele convida-nos a levar a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo, até aos mais longínquos recantos do mundo. Jesus pede-nos que, sendo cidadãos da sociedade eclesial e da sociedade civil, no cumprimento fiel dos nossos deveres, cada um de nós seja outro Cristo, santificando o trabalho profissional e as suas obrigações de estado.

Se olharmos em volta, para este mundo que amamos porque foi feito por Deus, veremos que a parábola se aplica: a palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscitando em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento daqueles que servem a Deus mudaram a história, e muitos que não conhecem o Senhor regem-se – talvez sem saberem – por ideais provenientes do cristianismo.

Vemos igualmente que parte da semente cai em terra estéril, ou entre espinhos e abrolhos: que há corações que se fecham à luz da fé. Os ideais de paz, de reconciliação e de fraternidade são aceites e proclamados, mas são também, não poucas vezes, desmentidos pelos factos. Há quem se empenhe – inutilmente – em aprisionar a voz de Deus, impedindo a sua difusão com a força bruta ou com uma arma menos ruidosa, mas talvez mais cruel, porque insensibiliza o espírito: a indiferença.

Há muita gente empenhada em portar-se injustamente? Sim, mas o Senhor insiste: «Pede-Me e Eu te darei povos como herança e os confins da Terra por domínio. Hás de governá-los com cetro de ferro e destruí-los como um vaso de barro.» São promessas fortes e são de Deus; não podemos dissimulá-las. Não é em vão que Cristo é o Redentor do mundo, e que reina, soberano, à direita do Pai. É o terrível anúncio do que espera cada um de nós quando a vida passar – porque passa –, e todos quando a história acabar, se o coração se endurecer no mal e na desesperança.

Mas Deus, que pode vencer, prefere sempre convencer: «E agora, prestai atenção, ó reis! Deixai-vos instruir, juízes da Terra! Servi o Senhor com temor, prestai-Lhe homenagem com tremor, para que não Se irrite e não pereçais no caminho, pois a sua ira irrompe num instante.» Cristo é o Senhor, o Rei. «E nós estamos aqui para vos anunciar a boa nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando
Jesus, como está escrito no salmo segundo: “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”. […] Ficai sabendo, irmãos, que por seu intermédio é que vos é anunciada a remissão dos pecados. A justificação completa que não pudestes obter pela Lei de Moisés, obtê-la-á por meio dele todo aquele que crê. Tende, pois, cautela, para que vos não aconteça o que se diz nos profetas: “Olhai, vós, os desdenhosos, admirai-vos e desaparecei! Porque Eu vou fazer uma obra em vossos dias, obra em que não acreditaríeis se alguém vo-la contasse.”»

É a obra da salvação, o reinado de Cristo nas almas, a manifestação da misericórdia de Deus. «Felizes os que nele confiam!» Nós, cristãos, temos direito a enaltecer a realeza de Cristo, porque, ainda que a injustiça abunde, ainda que muitos não desejem este reinado de amor, a obra da salvação eterna vai sendo tecida nesta mesma história humana que é o cenário do mal.