Lista de pontos
É necessário, portanto, que a nossa fé seja viva, que nos leve a crer realmente em Deus e a manter um constante diálogo com Ele. A vida cristã deve ser uma vida de oração constante, procurando estar na presença do Senhor de manhã até à noite e da noite até de manhã. O cristão não é um homem solitário, posto que vive em permanente conversa com Deus, que está junto de nós e nos Céus.
«Sine intermissione orate», orai sem cessar, manda o apóstolo. Recordando esse preceito apostólico, escreve Clemente de Alexandria: «Manda-se-nos louvar e honrar o Verbo, a quem conhecemos como salvador e rei, e, por Ele, o Pai; não em dias escolhidos, como fazem alguns, mas constantemente, ao longo de toda
a vida, e de todos os modos possíveis.»
No meio das ocupações de cada dia, quando vence a tendência para o egoísmo, quando sente a alegria da amizade com os outros homens, em todos esses instantes deve o cristão reencontrar Deus. Por Cristo e no Espírito Santo, o cristão tem acesso à intimidade de Deus Pai, e percorre o seu caminho buscando esse reino, que não é deste mundo, mas que neste mundo se inicia e prepara.
É preciso privar com Cristo na Palavra e no Pão, na Eucaristia e na oração. Tratá-lo como se trata um amigo, um ser real e vivo, que é isso que Cristo é, porque ressuscitou. Diz a Epístola aos Hebreus que, permanecendo eternamente, Cristo «possui um sacerdócio que não acaba. Sendo assim, pode salvar de um modo
definitivo os que por meio d’Ele se aproximam de Deus, pois está vivo para sempre, a fim de interceder por eles».
Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que só Se deixa ver entre sombras, mas cuja realidade enche toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva. «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Diga também o que escuta: “Vem!” O que tem sede que se aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida. […] O que é testemunha destas
coisas diz: “Sim, virei brevemente”. Ámen! Vem, Senhor Jesus!»
Vida de oração
«Que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.» Se Deus é vida para nós, não é de estranhar que a nossa existência de cristãos deva estar entretecida em oração. Mas não penseis que a oração é um ato que se faz e depois se abandona; pois o justo «põe o seu enlevo na lei do Senhor e nela medita dia e noite»; pela manhã penso em Ti e durante a tarde a minha oração dirige-se a Ti como o incenso. O dia pode ser, todo ele, tempo de oração: da noite até de manhã e da manhã até à noite. Mais ainda: como nos recorda a Sagrada Escritura, o sono também deve ser oração.
Recordai o que os Evangelhos nos narram sobre Jesus: às vezes, passava a noite inteira em colóquio íntimo com seu Pai. A imagem de Cristo em oração apaixonou tanto os primeiros discípulos que, depois de contemplarem essa atitude constante do Mestre, Lhe pediram: «Domine, doce nos orare», Senhor, ensina-nos a orar assim.
São Paulo – «orationi instantes», perseverantes na oração, escreve – difunde por toda a parte o exemplo vivo de Cristo. E São Lucas retrata com uma pincelada o comportamento dos primeiros fiéis: «Todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração.»
A têmpera do bom cristão adquire-se, com a graça, na forja da oração. E este alimento da oração, por ser vida, não corre por um caudal único. Habitualmente, o coração desabafa com palavras, nas orações vocais que nos foram ensinadas pelo próprio Deus – o «pai-nosso» – ou pelos seus anjos – a «ave-maria»; outras vezes, utilizaremos orações depuradas pelo tempo, nas quais se verteu a piedade de milhões de irmãos na fé: as orações da liturgia – lex orandi –, as orações que nasceram da paixão de corações enamorados, como muitas antífonas marianas: «Sub tuum præsidium», «Memorare», «Salve Regina».
Noutras ocasiões, bastarão duas ou três expressões lançadas ao Senhor como uma flecha, iaculata, jaculatórias, que aprendemos na leitura atenta da história de Cristo: «Domine, si vis, potes me mundare», Senhor, se quiseres, podes curar-me; «Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te», Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo; «Credo, Domine, sed adiuva incredulitatem meam», creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade, fortalece a minha fé; «Domine, non sum dignus», Senhor, eu não sou digno!; «Dominus meus et Deus meus», meu Senhor e meu Deus!... Ou outras frases, breves e afetuosas, que brotam do fervor íntimo da alma em resposta a circunstâncias concretas.
Além disto, a vida de oração tem de fundamentar-se em períodos diários dedicados exclusivamente ao trato com Deus, momentos de conversa sem ruído de palavras, sempre que possível junto ao sacrário, para agradecer ao Senhor o facto de estar à nossa espera – tão só! – há vinte séculos. A oração mental é um diálogo com Deus de coração a coração, com intervenção de toda
a alma: a inteligência e a imaginação, a memória e a vontade. Uma meditação que contribui para dar valor sobrenatural à nossa pobre vida humana, ao nosso dia a dia.
Graças a esses tempos de meditação, às orações vocais, às jaculatórias, saberemos converter o nosso quotidiano, com naturalidade e sem espetáculo, num contínuo louvor a Deus; manter-nos-emos na sua presença, como os apaixonados dirigem continuamente o seu pensamento à pessoa que amam, e todas as nossas ações – incluindo as mais pequenas – se encherão de eficácia
espiritual.
Por isso, quando um cristão avança por este caminho de conversa ininterrupta com o Senhor – que não é uma senda para privilegiados, mas um caminho para todos –, a vida interior cresce, segura e firme; e consolida-se no homem a luta, simultaneamente amável e exigente, por realizar a vontade de Deus em profundidade.
Com base na vida de oração, podemos compreender outro tema que a festa de hoje nos propõe: o apostolado, que é pôr em prática os ensinamentos de Jesus, transmitidos aos seus pouco antes de subir aos Céus: «Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»
Em segundo lugar, vida de oração, porque a entrega, a obediência e a mansidão do cristão nascem do amor e para o amor se orientam. Ora, o amor leva ao trato, à conversa, à amizade. Para haver vida cristã, tem de haver um diálogo constante com Deus Uno e Trino, e é a essa intimidade que o Espírito Santo nos conduz. «Quem, de entre os homens, conhece o que há no homem, senão o espírito do homem que nele habita? Assim também as coisas que são de Deus, ninguém as conhece, a não ser o Espírito de Deus.» Se tivermos uma relação assídua com o Espírito Santo, tornar-nos-emos espirituais, sentir-nos-emos irmãos de Cristo e filhos de Deus, a quem não hesitaremos em invocar como nosso Pai que é.
Habituemo-nos a conviver com o Espírito Santo, que é quem nos há de santificar; a confiar nele, a pedir-Lhe ajuda, a senti-lo perto de nós. Deste modo, o nosso pobre coração ir-se-á expandindo, teremos mais desejos de amar a Deus e, por Ele, todas as criaturas, e reproduzir-se-á na nossa vida a visão final do Apocalipse: o Espírito e a Esposa, o Espírito Santo e a Igreja – e cada cristão –
dirigem-se a Jesus, a Cristo, pedindo-Lhe que venha, que fique connosco para sempre.
Se procurardes Maria, encontrareis Jesus. E aprendereis a entender um pouco o que há nesse coração de Deus, que Se aniquila, que renuncia a expressar o seu poder e a sua majestade, para Se apresentar sob a forma de escravo. Falando humanamente, poderíamos dizer que Deus Se excede, pois não Se limita ao que seria essencial e imprescindível para nos salvar, mas vai mais além. A única norma ou medida que nos permite compreender de algum modo essa maneira divina de agir é ver que não tem medida, que nasce da loucura de amor que O levou a tomar a nossa carne e a carregar com o peso dos nossos pecados.
Como é possível tomarmos consciência disto, percebermos que Deus nos ama e não ficarmos, também nós, loucos de amor? Temos de permitir que estas verdades da nossa fé vão penetrando na nossa alma, até transformarem por completo a nossa vida. Deus ama-nos! O Omnipotente, o Todo-Poderoso, o que fez os Céus e a Terra!
Deus interessa-Se pelas mais pequenas coisas das suas criaturas – as vossas e as minhas – e chama-nos, um a um, pelo nosso nome próprio. Esta certeza que a fé nos proporciona leva-nos a olhar o que nos cerca a uma luz nova, de maneira que, permanecendo tudo igual, percebemos que tudo é diferente, porque tudo é expressão do amor de Deus.
Deste modo, a nossa vida transforma-se numa oração contínua, num bom humor e numa paz que não acabam, num ato de ação de graças desfiado ao longo das horas. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome», cantou a Virgem
Maria. A nossa oração pode acompanhar e imitar a sua: tal como ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a humanidade e todos os seres participem da nossa felicidade.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32838/ (19/05/2026)