Lista de pontos
Talvez algum de vós esteja a perguntar a si próprio como poderá transmitir este conhecimento às pessoas. E eu respondo-vos: com naturalidade, com simplicidade, vivendo como viveis, no meio do mundo, dedicados ao vosso trabalho profissional e ao cuidado da vossa família, participando nos ideais nobres dos homens, respeitando a legítima liberdade de cada um.
Há quase trinta anos, Deus pôs no meu coração o forte desejo de transmitir a pessoas de qualquer estado, condição ou ofício a seguinte doutrina: a vida quotidiana pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar as atividades do dia a dia, porque também nelas pode haver perfeição cristã. Consideremo-lo uma vez mais, contemplando a vida de Maria.
Não esqueçamos que a quase totalidade do tempo que Nossa Senhora passou na Terra decorreu de forma muito semelhante ao de milhões de mulheres que se dedicam a cuidar da sua família, a educar os filhos, a tratar da casa. Maria santifica as mais pequenas coisas, aquilo que muitos consideram, erroneamente, desprovido de valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção às pessoas queridas, as conversas e as visitas por razões de parentesco ou de amizade. Bendita normalidade, que pode estar cheia de tanto amor de Deus!
Na verdade, é isso que explica a vida de Maria: o amor. Um amor levado até ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, satisfeita por estar onde Deus a quer, cumprindo a vontade divina com esmero. É isso que faz que o mais pequeno dos seus gestos nunca seja banal, mas cheio de conteúdo. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho. Havemos de procurar ser como ela nas circunstâncias concretas em que Deus quis que vivêssemos.
Procedendo assim, daremos testemunho de uma vida simples e normal, com as limitações e os defeitos próprios da nossa condição humana, mas coerente. E, vendo-nos iguais a eles em tudo, os outros serão levados a perguntar-nos: como se explica essa vossa alegria? De onde tirais força para vencer o egoísmo e o comodismo? Quem vos ensinou a viver a compreensão, a convivência limpa e a entrega, o serviço aos outros?
Terá chegado o momento de lhes revelardes o divino segredo da existência cristã, falando-lhes de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, de Maria; o momento de procurardes transmitir-lhes, através das vossas pobres palavras, a loucura do amor de Deus que a graça derramou no nosso coração.
O mistério do sacrifício silencioso
Mas reparai: se Deus quis, por um lado, exaltar sua Mãe, por outro, durante a sua vida terrena, Maria não foi poupada à experiência da dor, nem ao cansaço do trabalho, nem ao claro-escuro da fé. Àquela mulher do povo que, certo dia, irrompe em louvores a Jesus, exclamando «Felizes as entranhas que Te trouxeram e os seios que Te amamentaram!», o Senhor responde: «Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.» Era o elogio de sua Mãe, do seu «fiat», do faça-se sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em ações aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia.
Ao meditar nestas verdades, percebemos um pouco melhor a lógica de Deus. Compreendemos que o valor sobrenatural da nossa vida não depende da realização das grandes façanhas que, por vezes, forjamos com a imaginação, mas da aceitação fiel da vontade divina, da disposição generosa nos pequenos sacrifícios diários.
Para sermos divinos, para nos endeusarmos, temos de começar por ser muito humanos, vivendo na presença de Deus a nossa condição de homens comuns, santificando essa aparente pequenez. Foi assim que Maria viveu. A cheia de graça, a que é objeto das complacências de Deus, a que está acima dos anjos e dos santos, teve uma existência normal. Maria é uma criatura como nós, com
um coração como o nosso, capaz de gozo e de alegrias, de sofrimento e de lágrimas. Antes de Gabriel lhe comunicar o querer de Deus, Nossa Senhora ignora que foi escolhida desde toda a eternidade para ser Mãe do Messias, e considera-se cheia de baixeza; por isso, reconhece depois, com profunda humildade, que «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas».
A pureza, a humildade e a generosidade de Maria contrastam com a nossa miséria e o nosso egoísmo. É razoável que, quando nos apercebemos disso, nos sintamos movidos a imitá-la; somos criaturas de Deus como ela, e basta que nos esforcemos por ser fiéis para que também em nós o Senhor faça maravilhas. A nossa pequenez não será obstáculo, porque Deus escolhe o que vale pouco para que, desse modo, o poder do seu amor se torne mais notório.
Imitar Maria
A nossa Mãe é modelo de correspondência à graça; contemplando a sua vida, o Senhor dar-nos-á luz para aprendermos a divinizar a nossa existência vulgar. Nós, cristãos, pensamos muitas vezes em Nossa Senhora, quer ao longo do ano, quando celebramos as festas marianas, quer em diversos momentos do nosso dia; se aproveitarmos esses instantes para imaginar como faria a nossa Mãe as tarefas que temos de realizar, iremos aprendendo pouco a pouco e acabaremos por nos parecer com ela, como os filhos se parecem com a mãe.
Podemos imitar, em primeiro lugar, o seu amor. A caridade não se fica pelos sentimentos: há de estar presente nas palavras e, sobretudo, nas obras; a Virgem Maria não se limitou a dizer «fiat», mas cumpriu em cada momento essa decisão firme e irrevogável. Também nós, quando o amor de Deus nos ferir e soubermos o que Ele quer, devemos comprometer-nos a ser fiéis, leais, e sê-lo efetivamente; porque «nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu».
Havemos de imitar a sua elegância, natural e sobrenatural. Maria é uma criatura privilegiada na história da salvação, porque nela «o Verbo fez-Se homem e veio habitar connosco». Foi uma testemunha delicada, que soube passar despercebida, porque não foi amiga de receber louvores nem ambicionou a própria glória. Maria assiste aos mistérios da infância de seu Filho, mistérios, se assim se pode dizer, cheios de normalidade; mas, aquando dos grandes
milagres e das aclamações das massas, desaparece. Em Jerusalém, quando Cristo – montado sobre um jumentinho – é vitoriado como Rei, Maria não está presente; mas reaparece junto da cruz, quando todos fogem. Este comportamento tem um sabor de grandeza discreta, de profundidade, de santidade da alma.
Seguindo o seu exemplo de obediência a Deus, procuremos aprender essa delicada combinação de submissão e fidalguia. Maria não tem aquela atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas; Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe, e depois entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» Vedes que maravilha? Santa Maria, mestra de todo o nosso proceder, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, mas move-nos interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/33318/ (19/05/2026)