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Há 3 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Vida do dia-a-dia → trabalho.

Santificar o trabalho, santificar-se no trabalho, santificar com o trabalho

Ao descrever o espírito da associação a que dediquei a minha vida, o Opus Dei, tenho dito que se apoia, como em seu gonzo, no trabalho quotidiano, na profissão que cada um exerce no meio do mundo. A vocação divina dá-nos uma missão, convida-nos a participar na incumbência única da Igreja, para sermos testemunhas de Cristo ante os nossos iguais, os homens, e levarmos todas as coisas a Deus.

A vocação acende uma luz que nos permite reconhecer o sentido da nossa existência; consiste em nos convencermos, com o resplendor da fé, da razão de ser da nossa realidade terrena. A nossa vida – a presente, a passada e a que há de vir – adquire novo relevo, uma profundidade de que não suspeitávamos. Todos os factos e acontecimentos passam a ocupar o seu verdadeiro lugar; entendemos aonde o Senhor nos quer levar e sentimo-nos como que dominados por esse encargo que nos está confiado.

Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminhar incerto por entre as incidências da história, e chama-nos com voz forte, como fez um dia com Pedro e André: «Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum», vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens, qualquer que seja o lugar que ocupemos no mundo.

Quem vive de fé pode ter dificuldades e lutas, dores e até amarguras, mas nunca desânimo ou angústia, porque sabe que a sua vida serve para alguma coisa, sabe para que veio a este mundo. «Ego sum lux mundi», proclamou Cristo; «qui sequitur me non ambulat in tenebris, sed habebit lumen vitæ», Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. 

Para merecer essa luz de Deus, é preciso amar, ter a humildade de reconhecer a necessidade de sermos salvos e dizer com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso, nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» Se realmente procedermos assim, se abrirmos o nosso coração ao chamamento de Deus, poderemos repetir com verdade que não caminhamos nas trevas, pois a luz de Deus brilha por cima das nossas
misérias e dos nossos defeitos pessoais como o Sol brilha sobre a tempestade.

A fé e a vocação de cristãos não afetam apenas uma parte da nossa existência, mas toda ela: as relações com Deus são necessariamente relações de entrega e assumem um sentido de totalidade. A atitude de um homem de fé é olhar para a vida, em todas as suas dimensões, de uma nova perspetiva: a perspetiva que Deus nos dá.

Todos vós, que hoje celebrais comigo esta festa de São José, sois homens dedicados ao trabalho em diversas profissões humanas, constituís diversas famílias, pertenceis a diferentes nações, raças e línguas. Tirastes cursos, académicos ou profissionais, exerceis a vossa profissão há vários anos, estabelecestes relações profissionais e pessoais com os vossos colegas, participastes na solução dos problemas coletivos das vossas empresas e da vossa sociedade.

Pois bem: recordo-vos uma vez mais que nada disso é alheio aos planos divinos. A vossa vocação humana é uma parte, e uma parte importante, da vossa vocação divina. É por esta razão que tendes de vos santificar, contribuindo simultaneamente para a santificação dos outros, vossos iguais, precisamente santificando o vosso trabalho e o vosso ambiente: essa profissão ou esse ofício que preenche os vossos dias, que confere uma fisionomia peculiar à vossa personalidade humana, que é a vossa maneira de estar no mundo; o vosso lar e a vossa família; e a nação onde nascestes e que amais.

O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem neste mundo. Com ele, surgem o esforço, a fadiga, o cansaço, manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana atual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma condenação, uma maldição ou um castigo: quem assim fala não leu bem a Sagrada Escritura.

É altura de nós, cristãos, dizermos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz sentido nenhum dividir os homens em categorias segundo os tipos de trabalho, considerando umas tarefas mais nobres que outras. O trabalho, todo o trabalho, é um testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é um meio de desenvolvimento da personalidade;
é um vínculo de união com os outros seres, uma fonte de recursos para sustentar a família; é um meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.

Para um cristão, essas perspetivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho é uma participação na obra criadora de Deus, que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra»; e também porque, tendo sido assumido por Cristo, o trabalho se nos apresenta como uma realidade redimida e redentora:
não é só o âmbito em que o homem vive, é meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora.

Referências da Sagrada Escritura