Lista de pontos
Permiti-me que regresse à naturalidade, à simplicidade da vida de Jesus, que já vos fiz considerar tantas vezes. Esses anos ocultos do Senhor não são desprovidos de significado, nem são uma simples preparação para os anos que viriam depois, os da sua vida pública. A partir de 1928, compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem como exemplo toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a sua vida escondida, a sua vida normal de trabalho no meio dos homens: o Senhor quer que muitas almas encontrem o seu caminho nos anos de vida silenciosa e sem brilho. Obedecer à vontade de Deus, portanto, é sempre sair do nosso egoísmo; mas não tem de se traduzir principalmente no afastamento das circunstâncias habituais da vida dos homens, nossos iguais em estado, profissão e situação social.
Sonho – e o sonho já se tornou realidade – com multidões de filhos de Deus santificando-se na sua vida de cidadãos comuns, partilhando ideais, anseios e esforços com as outras pessoas. Sinto necessidade de lhes gritar esta verdade divina: se permaneceis no meio do mundo, não é porque Deus Se tenha esquecido de vós, não é porque o Senhor vos não tenha chamado; Ele convidou-vos a permanecer nas atividades e nas inquietações da Terra porque vos fez saber que a vossa vocação humana, a vossa profissão e as vossas qualidades não só não são alheias aos seus desígnios divinos, mas foram por Ele santificadas como oferenda gratíssima ao Pai.
Depois deste protesto de amor, não podemos deixar de nos comportar como amigos de Deus: «in omnibus exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros», comportemo-nos em tudo como servidores do Senhor. Se te deres como Ele quer, a ação da graça será visível no teu comportamento profissional, no trabalho, no empenho por fazer divinamente as coisas humanas, grandes ou pequenas, já que todas adquirem uma nova dimensão através do Amor.
Mas nesta Quaresma não podemos esquecer que não é fácil querer servir a Deus. Continuando a seguir o texto de São Paulo que se lê na epístola deste domingo, recordamos as dificuldades: «Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência nas tribulações, nas necessidades e nas angústias, nos açoites e nas prisões, nos tumultos e nas fadigas, nas vigílias e nos jejuns, pela pureza e pela ciência, pela magnanimidade e pela
bondade, pelo Espírito Santo e pelo amor sem fingimento, pela palavra da verdade e pelo poder de Deus.»
Nos mais diferentes momentos da vida, em todas as situações, havemos de comportar-nos como ministros de Deus, sabendo que o Senhor está connosco, que somos seus filhos. Temos de ter consciência dessa raiz divina que está inserida na nossa vida, e agir em conformidade.
Estas palavras do apóstolo devem encher-vos de alegria, porque são como que uma canonização da vossa vocação de cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, partilhando com os demais homens, vossos iguais, ideais, trabalhos e alegrias. Tudo isso é caminho divino. O que o Senhor vos pede é que vos comporteis em todos os momentos como filhos e ministros seus.
Mas estas circunstâncias comuns da vida só serão caminho divino se nos convertermos a sério, se nos entregarmos. Porque São Paulo usa uma linguagem dura, e promete ao cristão uma vida difícil, arriscada, em perpétua tensão; como se desfigurou o cristianismo ao tentar fazer dele um caminho cómodo! Mas também é uma desfiguração da verdade pensar que essa vida profunda e séria, que conhece vivamente todos os obstáculos da existência humana, é uma vida de angústia, de opressão ou de medo.
O cristão é realista, de um realismo sobrenatural e humano, sensível a todos os matizes da vida: a dor e a alegria, o sofrimento próprio e o alheio, a certeza e a perplexidade, a generosidade e a tendência para o egoísmo. O cristão conhece tudo e com tudo se confronta, cheio de firmeza humana e da fortaleza que recebe de Deus.
Nesta festa, em cidades de um extremo ao outro da Terra, os cristãos acompanham em procissão o Senhor, que, escondido na hóstia, percorre as ruas e praças – como durante a sua vida terrena –, aparecendo aos que querem vê-lo, indo ao encontro dos que O não procuram. Jesus aparece assim, uma vez mais, no meio dos seus: como reagimos perante esse chamamento do Mestre?
É que as expressões externas de amor devem nascer do coração e prolongar-se no testemunho de uma atitude cristã. Se fomos renovados com a receção do Corpo do Senhor, temos de expressar essa realidade com obras: que os nossos pensamentos sejam sinceros, pensamentos de paz, de entrega, de serviço; que as nossas palavras sejam verdadeiras, claras, oportunas, que saibam consolar e ajudar, que saibam, sobretudo, levar a luz de Deus aos outros; que as nossas
obras sejam coerentes, eficazes, acertadas, que tenham o «bonus odor Christi», o bom aroma de Cristo, porque fazem lembrar o seu estilo de vida e de comportamento.
A procissão do Corpus Christi torna Jesus presente nas aldeias e cidades do mundo. Mas essa presença, repito, não deve ser coisa de um dia, ruído que se ouve e se esquece. Essa passagem de Jesus lembra-nos que também temos de O descobrir nos nossos afazeres quotidianos. A par da procissão solene desta quinta-feira, deve ir a procissão discreta e simples da vida normal de cada cristão, homem entre os homens, mas com a felicidade de ter recebido a fé e a missão divina de se comportar de tal modo que renove a mensagem do Senhor no mundo. Não nos faltam erros, misérias, pecados. Mas Deus está com os homens, e temos de permitir que Ele Se sirva de nós para continuar a passar entre as criaturas.
Peçamos, pois, ao Senhor que nos conceda ser almas de Eucaristia, que a nossa relação pessoal com Ele se traduza em alegria, em serenidade, em desejos de justiça; e facilitaremos aos outros o trabalho de reconhecer Cristo, contribuiremos para colocá-lo no cume de todas as atividades humanas; e cumprir-se-á aquela promessa d Jesus: «Eu, quando for erguido da Terra, atrairei todos a Mim.»
Evocámos há pouco o episódio de Naim. Poderíamos citar outros, porque os Evangelhos estão cheios de cenas semelhantes, relatos que comoveram e hão de continuar a comover o coração dos homens, porque não são apenas um gesto sincero de um homem que se compadece dos seus semelhantes, são essencialmente a revelação da imensa caridade do Senhor. O coração de Jesus é o coração de Deus Encarnado, do Emanuel, Deus connosco.
«Do coração aberto corra o manancial dos mistérios pascais da nossa redenção»: é esse coração aberto de par em par que nos transmite a vida. Como não recordar aqui, mesmo que de passagem, os sacramentos, através dos quais Deus opera em nós e nos faz participantes da força redentora de Cristo? Como não recordar com particular gratidão o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, o santo sacrifício do Calvário e a sua constante renovação incruenta na nossa Missa? É Jesus que Se nos entrega como alimento; e,
porque Jesus vem até nós, tudo muda e há no nosso ser forças – a ajuda do Espírito Santo – que enchem a alma, que conformam as nossas ações, o nosso modo de pensar e de sentir. O coração de Cristo é paz para o cristão.
O fundamento da entrega que o Senhor nos pede não são só os nossos desejos e as nossas forças, tantas vezes limitados e impotentes; são sobretudo as graças que o Amor do coração de Deus feito homem conquistou para nós. Por isso, podemos e devemos perseverar na nossa vida interior de filhos do Pai que está nos Céus, sem dar acolhimento ao desânimo nem ao desalento. Gosto de fazer considerar que o cristão, na sua existência vulgar e quotidiana,
nos mais simples pormenores, nas circunstâncias normais do seu dia a dia, exercita a fé, a esperança e a caridade, porque é nisso que reside a essência do comportamento de uma alma que conta com o auxílio divino e que encontra a alegria, a força e a serenidade na prática dessas virtudes teologais.
São estes os frutos da paz de Cristo, da paz que nos vem do seu Sacratíssimo Coração. Porque – digamo-lo uma vez mais – o amor de Jesus aos homens é um aspeto insondável do mistério divino, do amor do Filho ao Pai e ao Espírito Santo. O Espírito Santo, laço de amor entre o Pai e o Filho, encontra no Verbo um coração humano.
Não é possível falar destas realidades centrais da nossa fé sem tomar consciência das limitações da nossa inteligência e da grandeza da Revelação. Mas, embora não sejamos capazes de abarcar estas verdades, e embora a nossa razão se encha de pasmo ao contemplá-las, cremos nelas com humildade e firmeza, pois sabemos, apoiados no testemunho de Cristo, que são assim: que, no seio da Trindade, o Amor se derrama sobre todos os homens por intermédio do amor do coração de Jesus.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/33328/ (19/05/2026)