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«Pertransiit benefaciendo.» O que fez Jesus para derramar tanto bem, e só bem, por onde passou? O Santo Evangelho transmitiu-nos outra biografia de Jesus, resumida em três palavras latinas, que responde a esta pergunta: «Erat subditus illis», obedecia. Hoje, que o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de desunião, havemos de estimar especialmente a obediência.
Sou muito amigo da liberdade e é precisamente por isso que amo tanto esta virtude cristã. Devemos sentir-nos filhos de Deus e viver com o desejo de cumprir a vontade do nosso Pai; de fazer as coisas segundo o querer de Deus porque nos dá na gana, que é a razão mais sobrenatural.
O espírito do Opus Dei, que procuro praticar e ensinar há mais de trinta e cinco anos, levou-me a compreender e amar a liberdade pessoal. Quando Deus Nosso Senhor concede a sua graça aos homens, quando os chama com uma vocação específica, é como se lhes estendesse a mão, uma mão paternal cheia de fortaleza, repleta sobretudo de amor, porque nos procura um a um, como filhas e filhos, e porque conhece a nossa debilidade. O Senhor espera que façamos o esforço de Lhe pegar na mão, essa mão que nos estende; pede-nos um esforço que é a prova da nossa liberdade. Para isso, temos de ser humildes, de nos sentir filhos pequenos e de amar a bendita obediência com que respondemos à bendita paternidade de Deus.
Convém-nos permitir que o Senhor Se meta na nossa vida, que entre à vontade, sem encontrar obstáculos nem recantos obscuros. Nós, homens, tendemos a defender-nos, a agarrar-nos ao nosso egoísmo. Tentamos sempre ser reis, mesmo que seja do reino da nossa miséria. Entendei, com esta consideração, porque temos necessidade de recorrer a Jesus: para que Ele nos torne verdadeiramente livres e, dessa forma, possamos servir Deus e todos os homens. Só assim perceberemos a verdade daquelas palavras de São Paulo: «Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levam à santificação e o resultado é a vida eterna. É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso.»
Estejamos precavidos, portanto, visto que a nossa tendência para o egoísmo não morre e que a tentação pode insinuar-se de muitas maneiras. Deus exige-nos que, ao obedecer, exercitemos a fé, porque a sua vontade não se exprime com aparato; às vezes, o Senhor sugere o seu querer como que em voz baixa, no fundo da consciência, e temos de escutar com atenção para distinguir essa voz e ser-lhe fiéis.
Muitas vezes, Ele fala-nos através dos outros homens; e pode acontecer que, à vista dos defeitos dessas pessoas, ou pensando que não estão bem informadas ou não entenderam bem os dados do problema, se nos apresente uma espécie de convite a não obedecer.
Tudo isso pode ter um significado divino, porque Deus não nos impõe uma obediência cega, mas uma obediência inteligente, e havemos de sentir a responsabilidade de ajudar os outros com a luz do nosso entendimento. Mas sejamos sinceros connosco próprios: examinemos, em cada situação, se o que nos move é o amor à verdade ou o egoísmo e o apego ao nosso juízo. Quando as nossas ideias nos separam dos outros, quando nos levam a quebrar a comunhão, a unidade com os nossos irmãos, é sinal certo de que não estamos a agir segundo o espírito de Deus.
Para obedecer, repito, é preciso humildade. Vejamos de novo o exemplo de Cristo: Jesus obedece, e obedece a José e a Maria; Deus veio à Terra para obedecer, e para obedecer às criaturas. São duas criaturas perfeitíssimas: Santa Maria, nossa Mãe, mais do que ela, só Deus; e um varão castíssimo, José. Mas são criaturas. E Jesus, que é Deus, obedecia-lhes! Temos de amar a Deus para amarmos a sua vontade e termos o desejo de responder aos apelos que Ele nos dirige através das obrigações da nossa vida quotidiana: os deveres de estado, a profissão, o trabalho, a família, as relações sociais, o nosso
sofrimento e o sofrimento dos outros homens, a amizade, o empenho em fazer o que é bom e justo.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/17/ (19/05/2026)