Lista de pontos
Passou pela Terra fazendo o bem
Vedes como é necessário conhecer Jesus, observar amorosamente a sua vida? Fui muitas vezes à Escritura procurar a definição, a biografia de Jesus. Encontrei-a lendo aquela que o Espírito Santo faz em duas palavras: «Pertransiit benefaciendo.» Todos os dias de Jesus Cristo na Terra, desde o nascimento até à morte, foram assim: «pertransiit benefaciendo», preenchidos fazendo o bem. E, noutra passagem, a Escritura diz: «Bene omnia fecit», fez tudo bem, terminou bem todas as coisas, não fez senão o bem.
E tu e eu? Vejamos se temos alguma coisa que emendar. Eu, sim, encontro em mim muito que corrigir. E, porque me sinto incapaz de, só por mim, fazer o bem, e porque o próprio Jesus nos disse que sem Ele nada podemos, vamos, tu e eu, ter com o Senhor, implorar a sua assistência por meio de sua Mãe neste colóquio íntimo, próprio das almas que amam a Deus. Não acrescento mais nada, porque cada um de vós tem de prosseguir esta conversa segundo as suas necessidades específicas; por dentro e sem ruído de palavras, neste preciso momento em que vos dou estes conselhos, aplico esta doutrina à minha própria miséria.
Para servir, servir
Para viver assim, para santificar a profissão, é necessário, primeiro que tudo, trabalhar bem, com seriedade humana e sobrenatural. Quero recordar agora, por contraste, o que conta um dos antigos relatos dos evangelhos apócrifos: «O pai de Jesus, que era carpinteiro, fazia arados e jugos. Certa vez, uma pessoa de boa posição encomendou-lhe uma cama. Ora, um dos varões ficou mais curto que o outro e José não sabia o que havia de fazer. Então, o Menino Jesus disse ao pai: “Põe os dois paus no chão e acerta-os numa extremidade”. José assim fez. Jesus colocou-Se do outro lado, pegou no varal mais curto e esticou-o até ficar do tamanho do outro. José, seu pai, cheio de admiração perante aquele prodígio, cumulou o Menino de abraços e beijos dizendo: “Feliz de mim, porque Deus me deu este Menino.”»
José não daria graças a Deus por um motivo destes; o seu trabalho não podia ser assim. São José não é o homem das soluções fáceis e milagreiras, mas o homem da perseverança, do esforço e, quando é necessário, do engenho. O cristão sabe que Deus faz milagres; que os fez há séculos, que voltou a fazê-los e que continua a fazê-los ainda hoje, porque «non est abbreviata manus Domini», o poder de Deus não diminuiu.
Mas os milagres são uma manifestação da omnipotência salvadora de Deus, não são um expediente para sanar as consequências da inépcia ou para facilitar o vossa comodismo. O milagre que o Senhor vos pede é a perseverança na nossa vocação cristã e divina, a santificação do trabalho de cada dia: o milagre de converter a prosa do dia a dia em decassílabos, verso heroico, pelo amor com que realizais o vosso trabalho habitual. É aí que Deus vos espera, de maneira que sejais almas com sentido de responsabilidade, com zelo apostólico, com competência profissional.
Por isso, posso dar-vos um lema para o vosso trabalho: para servir, servir. Porque, para fazer uma coisa, é necessário, em primeiro lugar, saber fazê-la. Não acredito na retidão da intenção de uma pessoa que não se esforça por adquirir a competência necessária para realizar adequadamente as tarefas de que foi encarregada. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se
queremos realmente, esse desejo traduzir-se-á no empenho em utilizar os meios adequados para acabar bem as coisas, com perfeição humana.
Já falámos muito deste tema noutras ocasiões, mas permiti-me insistir na naturalidade e na simplicidade da vida de São José, um homem que não se distinguia dos seus concidadãos nem levantava barreiras desnecessárias.
Por isso, ainda que possa ser conveniente fazê-lo em determinados momentos ou em algumas situações, de uma maneira geral não gosto de falar de operários católicos, de engenheiros católicos, de médicos católicos, etc., como se se tratasse de uma espécie dentro de um género, como se os católicos formassem um grupo separado dos outros, dando a sensação de que existe um fosso entre os cristãos e o resto da humanidade. Respeito a opinião contrária, mas parece-me que é muito mais adequado falar de operários que são católicos ou de católicos que são operários; de engenheiros que são católicos ou de católicos que são engenheiros. Porque o homem que tem fé e exerce uma profissão, seja intelectual, técnica ou manual está e sente-se unido aos outros, igual aos outros, com os mesmos direitos e obrigações, com o mesmo desejo de melhorar, com o mesmo empenho em enfrentar e encontrar soluções para os problemas comuns.
Assumindo tudo isto, o católico saberá fazer do seu quotidiano um testemunho de fé, de esperança e de caridade; testemunho simples e normal, sem necessidade de manifestações aparatosas, salientando – com a coerência da sua vida – a constante presença da Igreja no mundo, visto que todos os católicos são, eles mesmos, Igreja, pois são membros de pleno direito do único povo de Deus.
A liberdade pessoal
Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão «abençoar as atividades humanas» significasse anular ou escamotear a dinâmica própria destas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também porque, em certas ocasiões, a etiqueta «católico» foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos.
Se o mundo e tudo o que nele há – menos o pecado – é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus, que é uma luta positiva de amor, há de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno lado a lado com os outros cidadãos, e tem a obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.
E há um bem que deverá sempre promover de modo especial: a liberdade pessoal. Só quem defende a liberdade individual dos outros, com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá defender com honradez humana e cristã a sua. Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos presenteou com uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra dádiva maravilhosa, esta humana, a liberdade pessoal, que exige de nós – a fim de não se corromper, transformando-se em libertinagem – integridade e empenho eficaz em proceder dentro da lei divina, porque «onde está o Espírito do
Senhor, aí está a liberdade».
O Reino de Cristo é um reino de liberdade, onde não há outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos torna livres! Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos dá na gana.
Alguns de vós que me escutais conheceis-me há muitos anos; e podeis testemunhar que toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e continuo a procurá-la por toda a Terra, como Diógenes procurava um homem; e amo-a cada dia mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca apreciaremos suficientemente.
Quando falo de liberdade pessoal, não pretendo referir-me a outros problemas, talvez muito legítimos, que não competem ao meu ofício de sacerdote. Sei que não me compete tratar de matérias seculares e transitórias, que pertencem à esfera temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, porque nos sabemos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção.
Celebramos hoje a festa de Cristo Rei. E não me afasto do meu ofício de sacerdote quando digo que quem entende o Reino de Cristo como um programa político não compreendeu devidamente a finalidade sobrenatural da fé e está a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus, porque o seu jugo é suave e o seu fardo é leve. Amemos seriamente todos os homens, amemos Cristo acima de tudo; e não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/33213/ (19/05/2026)