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Nós, cristãos, trazemos os grandes tesouros da graça em vasos de barro: Deus confiou os seus dons à frágil e débil liberdade humana e, embora a sua força nos assista indubitavelmente, por vezes, a nossa concupiscência, o nosso comodismo e o nosso orgulho rejeitam-na, levando-nos a cair em pecado. De há mais de um quarto de século para cá, ao recitar o Credo e afirmar a minha fé na divindade da Igreja «una, santa, católica e apostólica», acrescento muitas vezes: «apesar dos pesares»; e se, comentando este costume, alguém me pergunta a que me refiro, respondo: «aos teus pecados e aos meus».
Tudo isto é certo, mas de maneira nenhuma nos autoriza a julgar a Igreja com critérios humanos, sem fé teologal, atendendo apenas à maior ou menor qualidade de certos eclesiásticos ou de certos cristãos. Proceder assim é ficar à superfície. Na Igreja, o mais importante não é ver como nós, homens, correspondemos, é ver o que Deus faz. É isto a Igreja: Cristo presente entre nós; é Deus que vem ter com a humanidade para a salvar, chamando-nos com a sua revelação, santificando-nos com a sua graça, sustentando-nos com a
sua ajuda constante, nos pequenos e grandes combates do dia a dia.
Podemos desconfiar dos homens, e cada um de nós tem a obrigação de desconfiar de si mesmo e de concluir os seus dias com um mea culpa, com um ato de contrição profundo e sincero. Mas não temos o direito de duvidar de Deus. E duvidar da Igreja, da sua origem divina, da eficácia salvífica da sua pregação e dos seus sacramentos, é duvidar do próprio Deus; é não acreditar plenamente na realidade da vinda do Espírito Santo.
Escreve São João Crisóstomo: «Antes de Cristo ser crucificado, não havia reconciliação. E, enquanto não houve reconciliação, o Espírito Santo não foi enviado. [...] A ausência do Espírito Santo era um sinal da ira divina. Agora que O vês enviado em plenitude, não duvides da reconciliação. Mas podemos perguntar: onde está o Espírito Santo no nosso tempo? Podia-se falar da sua presença quando havia milagres, quando os mortos eram ressuscitados e os
leprosos, curados; mas como sabemos que Ele está deveras presente no nosso tempo? Não vos preocupeis. Vou demonstrar-vos que o Espírito Santo continua presente entre nós. […] Se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos dizer “Senhor Jesus”, pois ninguém pode invocar Jesus como Senhor senão no Espírito Santo (cf. 1Cor 12, 3). Se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos orar com confiança; com efeito, ao rezar, dizemos:
“Pai nosso, que estais no Céu” (Mt 6, 9), e, se o Espírito Santo não existisse, não poderíamos chamar Pai a Deus. Como sabemos que assim é? Porque o apóstolo nos ensina que, por sermos filhos, Deus enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: “Abba, Pai!” (cf. Gl 4,6). Portanto, quando invocares Deus Pai, recorda-te de que foi o Espírito Santo que, movendo a tua alma, te deu essa oração. Se o Espírito Santo não existisse, não haveria na Igreja palavra alguma de sabedoria ou de ciência, pois está escrito que a palavra da sabedoria é dada por ação do Espírito Santo (cf. 1Cor 12, 8). [...]
Se o Espírito Santo não estivesse presente, a Igreja não existiria; ora, se a Igreja existe, é certo que o Espírito Santo não falta.»
A despeito das deficiências e limitações humanas, repito, a Igreja é isto: o sinal e, de certo modo – não no sentido estrito em que a essência dos sete sacramentos da nova Aliança foi dogmaticamente definida –, o sacramento universal da presença de Deus no mundo. Ser cristão é ter sido regenerado por Deus e enviado aos homens para lhes anunciar a salvação. Se tivéssemos uma fé robusta e vivida, e déssemos a conhecer Cristo com audácia, veríamos realizarem-se diante dos nossos olhos milagres como os da era apostólica.
Também hoje se devolve a vista a cegos que tinham perdido a capacidade de olhar para o céu e contemplar as maravilhas de Deus; se dá liberdade a coxos e entrevados que se encontravam tolhidos pelas próprias paixões e cujo coração não sabia amar; se restitui o ouvido a surdos que não desejavam saber de Deus; se consegue que falem mudos que tinham a língua presa, por não quererem confessar as suas derrotas; se ressuscitam mortos a quem o pecado destruíra a vida. Verificamos uma vez mais que «a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes»; e, tal como os primeiros fiéis cristãos, também nós nos alegramos ao admirar a força do Espírito Santo, e a sua ação na inteligência e na vontade das suas criaturas.
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/131/ (18/05/2026)