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Há 3 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Jesus Cristo  → ensinamentos.

O trigo e o joio

Tracei-vos – não com as minhas ideias, mas com a doutrina de Cristo – um caminho ideal para o cristão. Direis que é elevado, sublime, atrativo; e talvez algum de vós pergunte: será possível viver assim na sociedade contemporânea?

É certo que o Senhor nos chamou em momentos em que muito se fala de paz e não há paz: nem nas almas, nem nas instituições, nem na vida social, nem entre os povos; em que se fala continuamente de igualdade e democracia e abundam as castas: fechadas, impenetráveis. Chamou-nos num tempo em que se clama
por compreensão e a compreensão brilha pela sua ausência, mesmo entre pessoas que agem de boa-fé e querem praticar a caridade, porque – não esqueçais – a caridade, mais do que em dar, está em compreender.

Atravessamos uma época em que os fanáticos e os intransigentes – incapazes de reconhecerem as razões dos outros – se previnem acusando as suas vítimas de serem violentas e agressivas. Chamou-nos, enfim, quando se ouve papaguear muito sobre unidade e talvez seja difícil conceber maior desunião entre os próprios católicos, para já não falar dos homens em geral.

Eu nunca faço considerações políticas, porque não é o meu ofício. Para descrever sacerdotalmente a situação do mundo atual, basta-me pensar de novo numa parábola do Senhor: a parábola do trigo e do joio. «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se.» A situação é clara: o campo é fértil e a semente é boa; o senhor do campo atirou a semente a mãos-cheias no momento propício e com arte consumada; além disso, organizou vigilantes para proteger a sementeira. Se o joio apareceu, é porque não houve correspondência, porque os homens – em especial os cristãos – adormeceram e permitiram que o inimigo se aproximasse.

Quando os servos irresponsáveis perguntam ao Senhor porque foi que o joio cresceu no seu campo, a explicação salta aos olhos: «Inimicus homo hoc fecit», foi o inimigo! Nós, cristãos, que devíamos estar vigilantes para que as coisas boas postas pelo Criador no mundo se desenvolvessem ao serviço da verdade e do bem, adormecemos – triste preguiça, esse sono! –, enquanto o inimigo e todos os que o servem se moviam sem descanso. Bem vedes como cresceu o joio: que sementeira tão abundante em toda a parte!

Não tenho vocação de profeta da desgraça; não desejo, com as minhas palavras, apresentar-vos um panorama desolador, sem esperança, nem pretendo queixar-me destes tempos que são, pela providência do Senhor, os nossos. Amamos a nossa época, porque é o âmbito em que temos de nos santificar. Não admitimos nostalgias ingénuas e estéreis; o mundo nunca esteve melhor do que está hoje. Desde sempre, logo nos primórdios da Igreja, ainda se ouvia a pregação dos primeiros doze, surgiram violentas perseguições, começaram as heresias, propalou-se a mentira e desencadeou-se o ódio.

Mas também não é lógico negar que parece que o mal prosperou. Neste campo de Deus que é a Terra, herança de Cristo, nasceu joio; e não apenas joio, mas abundância de joio! Não podemos deixar-nos enganar pelo mito do progresso perene e irreversível. O progresso retamente ordenado é bom e Deus quere-o. Mas tem-se mais em conta o falso progresso, que cega os olhos a tanta gente, que muitas vezes não percebe que, em alguns dos seus passos, a humanidade
está a voltar atrás, perdendo o que já tinha conquistado.

O Senhor – repito – deu-nos o mundo como herança. Temos de ter a alma e a inteligência despertas; temos de ser realistas, sem derrotismos. Só uma consciência cauterizada, a insensibilidade produzida pela rotina ou o estouvamento frívolo podem permitir olhar para o mundo sem ver o mal, as ofensas a Deus, o dano, por vezes irreparável, para as almas. Havemos de ser otimistas, mas com um otimismo que nasça da fé no poder de Deus – Deus não
perde batalhas –, com um otimismo que não procede da satisfação humana, de uma complacência néscia e presunçosa.

*Homilia proferida a 28 de maio de 1964, solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Hoje, festa do Corpus Christi, meditando juntos na profundidade do amor do Senhor, que O levou a ficar oculto sob as espécies sacramentais, é como se ouvíssemos fisicamente um dos seus ensinamentos à multidão: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, logo que o Sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta.»

A cena é atual. O semeador divino continua a lançar a sua semente. A obra da salvação continua a realizar-se e o Senhor quer servir-Se de nós, pois deseja que os cristãos abram todos os caminhos da Terra ao seu amor. Ele convida-nos a levar a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo, até aos mais longínquos recantos do mundo. Jesus pede-nos que, sendo cidadãos da sociedade eclesial e da sociedade civil, no cumprimento fiel dos nossos deveres, cada um de nós seja outro Cristo, santificando o trabalho profissional e as suas obrigações de estado.

Se olharmos em volta, para este mundo que amamos porque foi feito por Deus, veremos que a parábola se aplica: a palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscitando em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento daqueles que servem a Deus mudaram a história, e muitos que não conhecem o Senhor regem-se – talvez sem saberem – por ideais provenientes do cristianismo.

Vemos igualmente que parte da semente cai em terra estéril, ou entre espinhos e abrolhos: que há corações que se fecham à luz da fé. Os ideais de paz, de reconciliação e de fraternidade são aceites e proclamados, mas são também, não poucas vezes, desmentidos pelos factos. Há quem se empenhe – inutilmente – em aprisionar a voz de Deus, impedindo a sua difusão com a força bruta ou com uma arma menos ruidosa, mas talvez mais cruel, porque insensibiliza o espírito: a indiferença.

Não podemos deixar de ver que ainda está muito por fazer.

Em determinada ocasião, talvez contemplando o suave movimento das espigas já maduras, Jesus disse aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.» Tal como então, também agora faltam homens que queiram suportar «o cansaço do dia e o seu calor». E se nós, que trabalhamos, não formos fiéis, acontecerá o que escreveu o profeta Joel: «Os campos estão devastados, a terra enlutada porque o trigo foi destruído, o vinho, perdido e o azeite, estragado. Os lavradores estão desiludidos, os vinhateiros lamentam-se, por causa do trigo e da cevada, pois a colheita perdeu-se.»

Só há colheita para quem está disposto a aceitar generosamente o trabalho constante, que pode tornar-se longo e fatigante: lavrar a terra, semear, cuidar do campo, fazer a ceifa e a debulha... O Reino de Deus edifica-se na história, no tempo; é uma tarefa que o Senhor nos confiou a todos e da qual ninguém pode sentir-se dispensado. Hoje, adorando e contemplando Cristo na Eucaristia, pensemos que ainda não chegou a hora do descanso, que a jornada continua.

Diz o livro dos Provérbios que «aquele que cultiva a sua terra será saciado de pão». Tiremos a lição espiritual que estas palavras encerram: quem não lavra o terreno de Deus, quem não é fiel à missão divina de se entregar aos outros, ajudando-os a conhecer Cristo, dificilmente conseguirá entender o que é o Pão eucarístico. Ninguém aprecia aquilo que não lhe custou alcançar. Para apreciar e amar a Sagrada Eucaristia, é preciso percorrer o caminho de Jesus: ser trigo, morrer para si próprio, ressuscitar cheio de vida e dar fruto abundante, cem por um!

Esse caminho resume-se numa única palavra: amar. Amar é ter o coração grande, sentir as preocupações de quem nos rodeia, saber perdoar e compreender: sacrificar-se, com Jesus Cristo, por todas as almas. Se amarmos com o coração de Cristo, aprenderemos a servir, e defenderemos a verdade com clareza e com amor. Para amar desta maneira, cada um terá de expulsar da sua vida tudo o que estorva a vida de Cristo em nós: o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência para a exaltação pessoal. Só
poderemos transmitir a vida de Cristo aos outros reproduzindo-a em nós; só experimentando a morte do grão de trigo poderemos trabalhar nas entranhas da terra, transformá-la por dentro, torná-la fecunda.